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Augusto Boal foi um dos grandes nomes do teatro contemporâneo internacional. Nascido em 1931, nos deixou esse ano, vítima de insuficiência respiratória. Ano passado foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz e em março desse ano foi eleito Embaixador Mundial do Teatro pela UNESCO.

É fundador do Teatro do Oprimido, que em suas próprias palavras:

Teatro do Oprimido é teatro na acepção mais arcarca da palavra: todos os seres humanos são atores, porque agem, e espectadores, porque observam. Somos espect-atores. (…) Creio que o teatro deve trazer felicidade, deve ajudar-nos a conhecermos melhor a nós mesmos e ao nosso tempo. O nosso desejo é o de conhecer o mundo que habitamos, para que possamos transformá-lo da melhor maneira. O teatro é uma forma de conhecimento e deve ser também um meio de transformar a sociedade.  (Jogos para Atores e Não Atores)

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Formado em Engenharia Química na década de 50, durante sua formação também escrevia textos teatrais. Enquanto fazia PHD em Química na Columbia University, Boal estudou dramaturgia na School of Dramatic Arts e assistiu as montagens do Actor’s Studio.

De volta ao Brasil, passa a integrar o Teatro Arena. Ratos e Homens, de John Steinbeck é a primeira peça sob sua direção,  e levou o prêmio de revelação de direção da Associação Paulista de Críticos de Artes em 1956.

Passou posteriormente a investir na produção nacional e a criação do Seminário de Dramaturgia inspira o surgimento de novos dramaturgos brasileiros.

Depois do golpe militar, Boal dirige o show Opinião surgida da iniciativa de autores do Centro Popular de Cultura da UNE, que pretendia ser um foco de resistência política através das Artes. Aí se inicia o ciclo musical do Teatro Arena, que perdura até 1968 com o AI-5. Entre 1968 e 1970, o Arena excursiona pelo mundo (Estados Unidos, México, Peru e Argentina). Em 1971, de volta ao Brasil,  Boal inicia as bases do Teatro do Oprimido através do Teatro Jornal, experiência baseada em técnicas do agitrop e Living Newspaper, que trabalhava com dramatizações a partir de notícias de jornal. Em suas palavras:

Era um espetáculo que ao mesmo tempo ensinava a fazer teatro a partir de jornal e que procurava dar ao espectador não um produto acabado, mas os meios de produção. (Entrevista ao Extra Classe, agosto 1999)

Em 1971, Boal é preso e torturado, e segue em exílio. O exílio é uma fase de intensa produção intelectual.

Teatro Imagem

O Teatro Imagem, foi desenvolvido na passagem de Boal no Equador, com tribos indígenas.

Inicialmente, pede-se que os espect-atores façam imagens com os corpos dos outros participantes e objetos, mostrando o pensamento coletivo de uma opinião geral de um tema dado (p.e. desemprego). Um espect-ator vai à frente e constrói uma imagem que pode ser mudada até que haja consenso. Essa é a representação da imagem real (opressão).

Após, os espect-atores devem construir uma imagem ideal, na qual a opressão tenha desaparecido (sonho).

Na terceira fase, cada espect-ator vai mudar a imagem real, mostrando visualmente como chegar à imagem ideal, aí se constroem imagens de transição.

Essas mudanças devem ocorrer de forma rápida, para evitar que o pensamento se traduza em palavras e então em representações concretas. O espect-ator deve ser como um escultor que pense com imagens.

No  livro Jogos Teatrais para Atores e não Atores, Boal dá um exemplo de encenação chamado O Amor.

Uma jovem de 18 anos, mostrou como opressão sofrida, uma mulher deitada, de pernas abertas e um homem sobre ela (imagem real). Um homem se aproximou e inverteu as posições: a mulher por cima do homem (imagem ideal). A jovem protestou e fez a própria estátua: homem e mulher, face a face com pernas entrelaçadas (sua imagem ideal).

O Teatro Imagem, segundo Boal “é uma ferramenta essencial para envolver o espectador, estimulando sua criatividade.” (Jogos Teatrais para Atores e não atores).

Teatro Invisível

Na Argentina, entre 1971 e 1975,  realiza uma experiência com o chamado Teatro Invisível.

Teatro Invisível, que é uma forma de utilizar o teatro dentro da realidade sem revelar que é teatro. Ou seja, os espectadores intervêm na cena como se ela fosse um fato real.(Entrevista ao Extra Classe, agosto 1999)

No Teatro Invisível cada peça tem como um texto escrito, que será modificado para se adaptar às intervenções dos espect-atores. Atores devem interpretar personagens, como se tivessem em um teatro tradicional. O tema deve ser empolgante e polêmico, que prenda a atenção desses espect-atores. Quando o espetáculo estiver pronto, será representado num setting que não é teatro e para espectadores que não sabem que são espectadores. A partir das intervenções dos espect-atores, a peça passa a ser improvisada, e mudar os rumos do script previamente construído.

Boal, em Jogos Teatrais para Atores e não Atores,  dá o exemplo de uma peça do Teatro Invisível chamada Abuso Sexual, encenado dentro de um metrô em Paris. Duas atrizes-feministas ficam em pé, perto à porta central; mais atrás atriz-mãe e ator-filho; outros dispersos pelo vagão. A atriz-vítima se senta ao lado de um ator-tunisiano, próximos à porta. Duas estações após, entra o ator-agressor.  Ele após algum tempo apóia a perna sobre a perna da atriz-vítima, que reclama. O ator-agressor alega ser acidente, ninguém toma partido da vítima. Depois, além de apoiar a perna, passa a mãos nas coxas da atriz-vítima. A atriz-vítima decide ficar em pé. O ator-tunisiano defende o ator-agressor dizendo que mulheres reclamam e sexualizam meros acidentes. Na quinta estação, entra o ator-vítima. Muito atraente, passa a ser elogiado pelas duas atrizes-feministas. Uma delas começa a assediá-lo, perguntando seu destino e o acariciando, deixando o ator-vítima sem escapatória, cercado pela outra atriz-feminista. Dessa vez, os ânimos se exaltaram: o ator-agressor da primeira cena, defende o ator-vítima. A atriz-vítima da primeira cena se põe ao lado das atrizes-feministas, alegando que se o homem tem direitos de assediar mulheres, elas também o tem. A atriz-vítima e as atrizes-feministas, atacam o ator-agressor, ameaçando tirar suas calças. Os demais atores espalhados pelo vagão permanecem ouvindo os espect-atores e orientando uma conversação sobre assédio sexual nos metrôs. A mãe-atriz pergunta ao filho-ator, sobre o que havia ocorrido, ele narra a situação, como uma contação de estória, para que os demais espect-atores compreendessem o ocorrido. Durante as cenas, diversos episódios ocorrem, com espect-atores tomando partido de lados diversos da encenação.  A discussão tem a intenção de fazer  os espect-atores a pensar e discutir sobre o assunto, reduzindo abusos dessa natureza.

No Teatro Invisível, o espectador é protagonista da ação, um espect-ator, sem consciência disso. É protagonista da realidade vista, desconhecendo suas origens fictícias. Atua numa situação ensaiada previamente sem sua participação. A partir daí, surgiram as bases para a criação do Teatro Fórum.

Teatro Fórum

O Teatro Fórum é um tipo de luta ou jogo, com regras, para que todos participem e nasça uma discussão. Estuda situações sociais (opressões interiorizadas) que podem ser avaliadas com técnicas do Arco Íris do Desejo (técnica de terapia associada ao teatro). O texto caracteriza claramente a natureza de cada personagem, para o espect-ator reconhecer sua ideologia.  As soluções propostas pelo protagonista devem conter uma falha política ou social, que serão motivo de  discussão no fórum. Atores e platéia aprendem juntos. A peça propõe boas questões, a platéia traz boas respostas. A peça não pode ter caráter surrealista ou irracional, porque seu objetivo é discutir situações concretas, usando a linguagem teatral.

A encenação tem que ter expressão corporal que exprima com precisão ideologias, trabalho, função social daquele personagem. Assim, os espect-atores ao substituirem os personagens, poderam REPRESENTAR os personagens.

O espetáculo é um jogo artístico e intelectual entre artistas e espect-atores. É apresentado inicialmente como espetáculo convencional, em que cenas contêm um conflito a ser resolvido e opressão que se deseja combater. Em seguida, pergunta-se se os espect-atores concordam com as soluções dadas pelo protagonista. Então o espetáculo será refeito, com soluções possíveis e viáveis dadas pelos espect-atores. A idéia é criar uma tensão: se ninguém muda a peça, ela fica como está; assim como se ninguém mudar o mundo, ele permanece como está. O espect-ator se aproxima da cena e diz PÁRA, tomando o lugar do protagonista quando ele comete um erro e apresenta uma solução melhor para a situação. O ator substituído permance como um ego auxiliar, encorajando o espectador  e corrigí-lo, se esse se enganar em algo crucial. Quando o espect-ator estiver em ação os demais atores se tornam agentes da opressão, mostrando como é difícil transformar a realidade. O jogo teatral entre espect-ator e atores é estabelecido, de forma improvisada. Esse exercício permite o questionamento dos espect-atores e dos atores, exercitando a vida real, conhecendo melhor o arsenal de opressões e táticas dos oprimidos. Se as ações do espect-ator esgotam, o ator-protagonista retoma seu lugar e continua o texto como programado previamente, até que outro espect-ator pare a cena e proponha um novo rumo à estória. Caso um espect-ator rompa com a opressão da estrutura da peça improvisada pelos atores, os atores devem abdicar de seus personagens, para que outros espect-atores mostrem outras formas de opressão que talvez esses atores desconheçam. Os atores que saíram continuam como egos auxiliares. Um dos atores deve fazer a função de coringa, explicando regras do jogo, corrigindo erros e encorajando os espect-atores a interromper e intervir nas cenas.

Em Jogos Teatrais para Atores e Não Atores, Boal dá um exemplo de Teatro Fórum: Líder no trabalho, escrava em casa, representado em Paris durante a greve de um departamento de contabilidade de um banco. Era a estória de uma mulher que era líder sindical no trabalho e escrava em casa.

1a ação: Muito trabalho. Quando o banco fecha, a lider organiza companheiros, marca reuniões, todos seguem seus conselhos.

2a. ação: O marido da líder chega e buzina. Ela insiste, mas abandona tudo e vai embora com o marido.

3a. ação: Em casa cuida do marido, que a repreende porque o trabalho atrapalha suas funções domésticas. Dá banho na filha mimada. Mulher escrava da família.

Fórum: Mulheres que participavam do fórum tentavam romper a opressão. Os companheiros do banco viravam opressores e as faziam ceder ao marido. Mesmo com sua vontade de permanecer na atividade contrariando o marido e os colegas, o chefe se contrapunha quase a expulsando. Uma espect-atriz conseguiu a melhor resistência: não permitiu que o marido entrasse. O ator-marido renunciou e outros espect-atores tentaram novas formas de opressão: telefonemas, chantagens emocionais,mentiras. Na cena da casa, a líder estava tão absorta no trabalho que não ligava para a filha e o marido. A menina no banho, ao invés de chamar a mãe, chamou o pai, e o marido passou a cuidar das atividades domésticas.

Ferramentas para o Teatro do Oprimido

A partir das evoluções das técnicas estudadas por Boal, vai se construindo as bases para o Teatro do Oprimido. As ferramentas do Teatro do Oprimido se baseiam em sistemas de exercícios e jogos teatrais.

Os exercícios trabalham todo movimento físico, muscular, respiratório, motor, vocal que ajudam o ator a melhor conhecer e reconhecer seu corpo, músculos, nervos, estruturas musculares, relações com outros corpos, gravidade, objetos, espaços, dimensões, volumes, distâncias, pesos, velocidade e relação entre as diferentes forças. Com isso se reconhece o corpo em seus mecanismos, atrofias, hipertrofias, recuperação. É reflexão física sobre si mesmo, solitário e instrospectivo.

Os jogos trabalham a expressão dos corpos como emissores e receptores de mensagens. Os jogos são diálogo, exigem um interlocutor da comunicação e são extrovertidos.

AS DUAS UNIDADES

A primeira unidade parte-se do princípio de que o ser humano é uma unidade física-psíquica indissoluta. O movimento do corpo é um pensamento e um pensamento se expressa corporalmente.

A segunda unidade é dos cinco sentidos, que estão unidos entre si. As atividades corporais são atividades do corpo inteiro.

O corpo se adapta ao seu mundo particular, às custas de deformações dos sentidos. Os sentidos se adaptam conforme nossa demanda, levando a hipertrofias e atrofias. Para o corpo ser capaz de emitir e receber todas as mensagens possíveis, ele precisa estar em harmonia. Os exercícios e jogos se focam nessa des-especialização.

Esses jogos são aplicados nos treinos para a realização de Teatro Fórum e todo seu singular arranjo de questionamento sócio-político-social e seu formato de improvisação.

As técnicas empregadas de exercícios e jogos, bem como o formato de improvisação e participação do espectador, são inspiração para técnicas de inúmeras companhias de improvisadores contemporâneos.

Ouça a entrevista de Augusto Boal para o Encontro Marcado com a Arte.

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