Rhena de Faria tem sangue e alma de artista. É filha de artista plástico e  livreira-tradutora-escritora, ainda irmã do escritor Santiago Nazarian. Nasceu em Olinda, na casa onde hoje mora Alceu Valença, mas veio para São Paulo ainda bem criança. Começou a estudar comunicação na FAAP com 19 anos, mas abandonou a faculdade pelo grupo teatral TAPA. Também ministrou aulas de sapateado por dez anos, ofício que ensinou a atores e grupos como Bonecos Urbanos, Circo Navegador e TAPA.  Em 1996, mudou de rumos ao começar a estudar Geografia na USP. Mas 2 anos depois acabou se descobrindo mesmo no picadeiro.

Trabalhou com Circo Escola Picadeiro e com a Família Medeiros.  Participou de Oficinas do Odin Teatret com seu diretor Eugenio Barba. Também com Leo Bassi, Ricardo Puccetti e Léris Colombaioni.

Com Silvia Leblon fez inúmeros espetáculos como dupla Blanche & Spirulina.

Mademoiselle Blanche

 

Participou do documentário Palhaço – O Ser em Transgressão. Em  2009  participou do filme “O Contador de Histórias” premiado com o selo da UNESCO.

É palhaça atleta do Jogando no Quintal desde 2004, e além desse espetáculo, dentro da Companhia participou de outros espetáculos como a concepção e atuação juntamente com Marcio Ballas no espetáculo de palhaços “O Eterno Retorno”, que teve pré estréia na Colômbia e dirigiu o solo de Cesar Gouvêa In Memorian, ambos em 2007.

Eterno Retorno no Improfestin Chile

 

Ainda dentro do Jogando no Quintal, participa da Seleção Brasileira de Impro e do espetáculo Caleidoscópio (direção e dramaturgia Marcio Ballas), um dos primeiros espetáculos long form do Brasil.

Caleidoscópio no Improfestin Chile

 

Seleção Brasileira do Jogando no Quintal Mundial do Peru

 

No ano de 2009,  fez a sonoplastia e direção do espetáculo solo “Sobre Tomates, Tamancos e Tesouras”, dramaturgia concebida junto com Andrea Macera (solista do espetáculo). O espetáculo teve excelentes críticas, inclusive como espetáculo recomendado pela revista Bravo de junho/2009.

Tive felicidade de estar em dois workshops de improvisação dessa incrível professora, sendo cada uma delas uma experiência excepcional . E é com essa alma inspirada e doce de palhaça, dançarina, dramaturga, diretora e uma das mais talentosas improvisadoras do mundo, que conversei um pouquinho sobre as impressões da Improvisação Teatral.

Improvisando:  Gostaria que vc começasse resumindo os trabalhos nos quais vc está envolvida hoje.

Rhena: Sou palhaça atleta do espetáculo “Jogando no Quintal – Jogo de Improvisação de palhaços” (é assim mesmo que a gente se nomeia: palhaços-atletas!)

Integro o novo espetáculo de Improvisação do grupo Jogando no Quintal chamado “Caleidoscópio”, nosso primeiro long-form, dirigido por Marcio Ballas.

Junto com a seleção brasileira do Jogando no Quintal conquistei o Terceiro Lugar no Match de Improvisação entre países, disputado em Lima, no Peru (2009), e o Primeiro Lugar no mundial de Match de Improvisação em Bogotá, na Colômbia (2008).

Improvisando: O que é Improvisação Teatral? Quais são os princípios em que se embasa?

Rhena: Improvisação Teatral para mim é a arte do jogo, a arte de estar aberto às possibilidades. Eu diria que os princípios mais básicos da Improvisação são a ESCUTA e a ACEITAÇÃO. Para mim, sem dúvida são o bê-a-bá, a lição número 1. Depois com a maturidade, um improvisador pode até desconstruir estes princípios. Mas num primeiro momento eles são fundamentais para que se crie uma cultura comum de jogo entre os atores.

Improvisando:  Como surgiu a Improvisação na sua carreira?

Rhena: Surgiu junto com o meu trabalho de palhaça, no final de 2000. Ser palhaça é entre outras coisas, viver em cena o aqui e o agora. É ser permeável ao meu público e a tudo o que ele me dá. E isto também é improvisar, porque trata da vivência de uma relação verdadeira, como na vida. Agora a improvisação como técnica, mais aprofundadamente, eu só fui descobrir quando fui convidada a integrar o Jogando no Quintal, em 2004. Entrei no Jogando no Quintal porque já era palhaça e boa parte dos integrantes conhecia o meu trabalho. Mas foi com o Jogando no Quintal que passei a ter contato com outros grupos, com mestres da Improvisação, e a me aprofundar em todos os seus princípios.

Improvisando:  Sabemos que o Jogando tem uma vertente singular na Impro em todo mundo, que é a aplicação de técnicas de Clown junto ao Improviso. De que maneiras se encontram o Clown e a Impro? Em que aspectos elas se diferenciam?

Rhena: Embora o palhaço crie relações reais com o público, e os improvisadores por meio de personagens, criem relações fictícias entre eles, ainda assim, nos dois casos é preciso reacionar a estes jogos com prontidão e verdade. Ambos fazem um teatro vivo diretamente relacionado às suas inquietações mais imediatas. E ambos os trabalhos são, sobretudo, trabalhos autorais.

O desafio de fazer Impro com o clown consiste na tentativa de conciliar algo que é de natureza generosa – no caso a Improvisação, com uma figura que é naturalmente egoísta – no caso o palhaço. E não se trata de ver generosidade como algo “bonzinho” e egoismo como algo “nocivo”. É muito mais simples: o improvisador serve  a cena, está a serviço de algo maior do que ele. Já o palhaço serve em primeiro lugar ao que lhe dá prazer, ao que lhe entretém e lhe diverte. Por isso ele é capaz de sacrificar uma estória em andamento em prol de uma boa piada, na tentiva de ganhar o público. Daí o seu egoismo. Acho que o Jogando existe há tanto tempo porque juntar estas duas coisas com facilidade é uma meta inalcançável.

Improvisando: Quem são os Improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?

Rhena: O argentino Marcelo Savignone, que faz um trabalho impressionante de improvisação com máscaras balinesas.

O colombiano Gustavo Miranda Angel, do grupo Acción Impro, pela presença de espírito e humor genial e que ele tem.

Gosto muito do Omar Argentino Galvan também, porque é um cara extremamente poético e inteligente. Um cara que faz um solo de Impro bastante verbal, como se fosse uma espécie de contador de estórias.
Improvisando: Quais companhias no mundo você acredita que hoje fazem os trabalhos mais incríveis?

Rhena: O grupo Acción Impro, de Medellin-Colômbia, que posui um dos espetáculos de longo formato mais bonitos que eu já vi: Tríptico. São bons atores, sempre se desafiam criando coisas novas, além de representarem para mim um ideal de grupo.

Gosto muito também do grupo espanhol Impromadrid, sempre poético e sofisticado em suas improvisações.

E citaria também os mexicanos do grupo Complot Escena. Me agradam suas idéias, são simples e carismáticos.
Improvisando: O que mais tem te trazido interesse em Improvisação hoje? Jogos de Improvisação ou espetáculos mais long form?

Já não me atraio por jogos de improvisação hoje em dia. O que me prende ao espetáculo Jogando no Quintal é muito mais o desafio de fazer impro entre palhaços e pela relação incrivelmente revolucionária que o espetáculo estabelece com o público, do que propriamente o desafio dos jogos. Prefiro os espetáculos de longo formato, os chamados long-forms. Eles me dão a possibilidade de criar boas estórias e, sobretudo, de me aprofundar nas relações entre os personagens, coisa que os jogos curtos não possibilitam.
Improvisando:  Qual é o princípio da Improvisação que é hoje mais motivo de investimento e pesquisa hoje no mundo?

Rhena: O que vejo como trajetória comum de pesquisa entre todos os grupos que conheço, não é um princípio, e sim, um formato: um início de vida por meio de jogos curtos de desafio que culmina, depois de anos de prática, na vontade e na necessidade quase vital de fazer um long-form. Então estas companhias partem para aquilo que consideram um desafio maior: criar estrórias de longa duração ou estórias únicas que durem todo o espetáculo. Quando isto aconteceu com o Accion Impro, da Colômbia, eles criaram “Triptico”. A LPI, da Argentina, criou o espetáculo “Circulo”. A LPI de Belo Horizonte, dirigida por Mariana Muniz, criou  “Sobre Nós”, o Colectivo Teatral Mamut, do Chile, criou o “Efecto Impro”, o Jogando no Quintal criou  “Caleidoscópio”. E com tantos outros grupos se passou o mesmo.
Improvisando:  Para onde vai a Impro (o futuro)?

Rhena: Acho que a Impro caminha para sair da marginalidade e se firmar como mais um gênero teatral. Acho que os espetáculos de Impro que fazem sucesso no Brasil têm impulsionado novos grupos a fazerem Impro também. E aos poucos a quantidade de grupos de improvisação vai aumentando, no Brasil e no mundo.

A seguir vídeos de Rhena de Faria com a Seleção do Jogando e como Mademoiselle Blanche no Jogando no Quintal.

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