Andrei Moscheto, antes de tudo, é um sujeito excepcional. Na feliz oportunidade que tive de conviver com ele quase uma semana, conhecendo de perto pessoa e trabalho, posso dizer que a qualidade do que se vê em cena, não é mais do que reflexo de um ser humano talentoso, dedicado, humilde e doce como poucos. Deixarei que ele mesmo possa aqui contar sobre a sua trajetória até esse momento e a trajetória da sua companhia teatral Antropofocus™, que comemora dia 28 de outubro, dez anos de um trabalho incrível.
Improvisando: Gostaria que você fizesse uma pequena introdução autobiográfica e situasse seu trabalho desse momento. Fale também um pouquinho da origem e do atual momento do Antropofocus?
Vamos improvisar aqui a difícil tarefa de escrever respostas e tentar parecer natural, como se eu estivesse respondendo essa pergunta oralmente ao vivo e a cores.
Sou natural da cidade de Joinville-SC, onde comecei a fazer uma oficina de musicalização num lugar chamado Casa da Cultura. Diz a lenda – ou seja, minha mãe – que as vezes eu sumia da aula e era encontrado assistindo aulas de teatro pela janela.
Me mudei em 86 para Curitiba. O teatro continuou a ser um “coisa de escola”, até que virou coisa séria no ensino médio. Comecei a trabalhar com bicos para companhias profissionais, e ao mesmo tempo cursava oficinas de teatro. Em 94, fui fazer um intercâmbio no Japão, onde morei um ano com uma família japonesa, experiência incrível que deixou boas marcas na minha vida. Quando voltei a decisão de fazer teatro como profissão era certa.
Em casa nunca houve pressão para não fazer teatro. Meus pais só exigiam que eu não abrisse mão de uma educação formal. Em 96 comecei a cursar um bacharelado em Interpretação na UNICAMP, que não concluí. Apesar das boas aulas, era difícil trabalhar com teatro em Campinas. O trabalho em teatro estava em São Paulo e eu não tinha os meios de ficar indo e voltando pra lá. No ano seguinte, quando houve uma oportunidade de fazer uma peça em Curitiba, voltei para casa – para total desespero dos meus pais, que não viam com bom olhos o fato de seu filho abrir mão de um diploma de uma instituição tão prestigiada quanto a UNICAMP.
Antes de parar de falar de Campinas, é bom lembrar que foi lá que trabalhei na montagem de formatura da turma de 96, que foi dirigida pelo Hugo Possolo dos Parlapatões. Conhecer o trabalho dos Parlapatões abriu os olhos para a possibilidade da pesquisa em humor no Brasil.
Em Curitiba, entrei na FAP – Faculdade de Artes do Paraná – em 1999, depois de ser obrigado a refazer o vestibular por uma dessas imbecilidades técnicas que protocolos de faculdades públicas tem. Foi na faculdade que encontrei todos os atuais integrantes do Antropofocus™, pois eramos quase todos colegas de sala. A faculdade tinha (têm!) uma séria deficiência no trabalho com a comédia. Tanto a experiência na UNICAMP, como a experiência na FAP (onde, anos depois, eu seria professor por um período curto de um ano e meio) deixaram a forte impressão de que o mundo teatral rejeita a priori trabalhos cômicos, por serem considerados um gênero “menor “. Sempre comentamos que, na nossa experiência do Antropofocus™, lembramos de ter tido algumas aulas com jogos de improvisação e aulas teóricas sobre Comedia Dell’Arte. Fora isso, em quatro anos de estudo, mais nada.
Foi no segundo ano que tivemos a idéia de fazer um evento de cenas cômicas. Nosso sonoplasta, o Célio Savi, que era meu amigo antes da FAP, teve a iniciativa de convidar alguns colegas para fazer isso na cidade natal dele, Castro, bem próxima a Curitiba. Isso foi o ponto de partida para ir para a sala de ensaio com alguns dos nossos colegas que queriam fazer um trabalho cômico, mas não sabiam por onde começar. Levamos duas cenas para o evento em Castro, que fizeram sucesso imediato. Sabíamos que tínhamos algo precioso em nossas mãos, só não sabiamos que duraria por mais de 10 anos.
O grupo surgiu dentro da faculdade e na cidade de Curitiba, dois contextos que moldaram seu futuro. Na cidade o que imperava – impera ainda – eram produções de comédia com nomes bastante sugestivos e gosto duvidoso, recheadas de palavrões para agradar facilmente o público. Principalmente: quando assistíamos a essas produções, não achavamos nada engraçado. Começamos a pensar se o palavrão era um recurso tão extremamente necessário a comédia quanto faziam parecer as produções locais. Foi um desafio lançado na criação do grupo, e ainda hoje, de produzir espetáculos que não usem desse recurso para fazer a platéia rir. Tomamos bastante cuidado ao falar disso para não parecer que essa foi uma decisão religiosa, que algum de nós tem problemas com isso. Sempre buscamos novos desafios a cada projeto, porque… Gostamos de problemas! hehehehe
Sempre, a cada novo projeto, o objetivo é nos desafiarmos a fazer algo novo e difícil. Consideramos que o Antropofocus™ é o oásis onde podemos fazer a nossa pesquisa com cuidado e levar para o público no tempo certo. Tudo isso sempre levando em conta que haverá um público, no final do processo, para ver essa pesquisa.
Improvisando: O que você entende por Improvisação Teatral? Quais são os princípios base que você considera importantes?
Entendo por improvisação Teatral o processo dinâmico que é usado para estabelecer relações e conexões entre atores + Platéia, sem o uso de um comando em comum (texto). O principal princípio base que nunca cansamos de lembrar é a escuta, especialmente quando estamos improvisando para criar uma história.
Improvisando: Como surgiu a Improvisação na sua carreira?
Surgiu através dos jogos de improvisação de Viola (Spolin), que sempre encontrava nas oficinas de teatro em Curitiba. Eu me saia bem nos jogos e isso me animava. Era um magrelo nerd que não conseguia fazer nenhum esporte, já tinha tentado instrumentos musicais e descoberto sua inaptidão. Era bacana saber que, pelo menos nas aulas de teatro, eu era da turma dos “artilheiros”. Com as ideias do jogos sempre davam base para ir além e começar a criar cenas, entender coisas de jogos de cena e estar pronto para tudo. Lembro da clara sensação de estar jogando e ser muito divertido.
Depois, ao passar de ator para diretor, sempre lembro que a minha maneira favorita de trabalhar era improvisar com os atores, para inspirar ideias novas neles e encontrar ideias novas e não pré-concebidas para as movimentações de palco.
Improvisando: De que forma a improvisação contribui no trabalho do ator? De que forma e qual a importância dela como ferramenta de ensino?
Quando passei para o lado negro da força e comecei a dar aulas, entendi que improvisações abriam as possibilidades de interpretação do ator, porque o artista se via obrigado a reagir em pleno uso do corpo, da voz, da criatividade, em dinâmica, em vez de parado ao redor de uma mesa elocubrando sobre qual seria a sua reação possível para a uma ação qualquer. Criar personagens, textos e ações sem estar em cena tornou-se algo tão bizarro quanto um cantor que, na hora de ensaiar, fica falando assim em vez de cantar:
– Certo, certo… Nesta parte aqui, eu vou soltar a voz de maneira mais sussurrada. Aí, na sequência, eu vou soltar a voz lá em cima. Vai ficar lindo! Ótimo… Bom, acho que vou ler esse roteiro de como vou usar a minha voz mais uma vez.
Acho que, depois de muito cantar, ele pode olhar para trás e perceber quais foram as dificuldades, quais foram os pontos falhos, e voltar a trabalhar neles.
Improvisando: De que forma a improvisação contribui no trabalho de humor do Antropofocus?
Ela É o trabalho de humor do Antropofocus™. Nosso grupo é formado por atores cuja principal vocação é trabalhar em dinâmica. Nenhum dos integrantes tem uma ligação com a criação de texto fora de sala de ensaio.
Vou contar para você o que acontece no mundo de Antropofocus™. Primeiro, há um ZIGOTO, que é a premissa inicial da ideia. Esse zigoto pode ser qualquer coisa: uma cena surgida de um jogo de improvisação, uma frase engraçada que ouviu na rua, uma imagem que surgiu no chuveiro, a cara de um dos integrantes do grupo. Quando os zigotos aparecem, eles são atacados de todos os ângulos pelos integrantes do grupo. É como se testássemos a resistência da cena. Daí ela tem três caminhos:
– a geladeira, onde se espera mais um pouco – porque tá faltando alguma coisa pra fecundar a idéia que a gente não sabe o que é;
– o lixo, de onde raramente sai;
– o público, onde a gente testa ideias e nos sentimos livres para descartá-las se não derem certo.
Temos um dos espetáculos, o PEQUENAS CAQUINHAS, que é todo feito de micro-cenas de comédia. Então os zigotos são testados dentro desse espetáculo com facilidade.
Improvisando: Quem são os improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?
Lembro que o primeiro artista improvisador que me deu vontade de imitar era o Robin Willians, porque ele parecia uma fonte inesgotável de recursos múltiplos de voz, ideias, corpo. Eu era bem novo quando saiu o filme “Aladdin” da Disney, onde ele fazia o Gênio, e aquilo parecia um demonstração de um artista marcial faixa preta na sua melhor forma.
Depois eu envelheci e comecei a achar que,as vezes, o Robin Willians deveria tomar remédios faixa preta. Mas ainda é a minha primeira lembrança de um ator que usava seus recursos naturais sem medo. Sem medo de errar.

Improvisando: Alguma companhia de improvisação se destaca a seu ver na realização do seu trabalho?
As companhias paulistas que trabalham com improvisação me animam muito. Tanto com a longevidade do Jogando no Quintal – especialmente agora que começam a sair outros espetáculos de improviso da companhia – quanto a abrangência nacional dos Barbixas.
Acho sensacional o fato das conquistas de espaço na televisão, o que atrai uma atenção diferente ao nosso trabalho.


Improvisando:
Conhecendo os diversos formatos de improvisação, qual deles te proporciona maior interesse nesse momento?

Tem um livro chamado “Blink“, que fala sobre o desenvolvimento da intuição de cada um. Nele falava-se desse grupo Nova Iorquino, o Mother, que recebia um tema e conseguia improvisar por uma hora ou mais. Pra mim isso sempre soou impossível, e por isso dá muita vontade de fazer.
Eu gosto de jogos, gosto de fazer as pessoas rirem de uma maneira lúdica, inventam histórias rápidas pra elas que tenham saído magicamente do ar. Mas artisticamente pendo para a vontade de fazer longforms e, pra piorar o desafio, criando um longform do Antropofocus™.
Improvisando: Pra onde vai a Impro? (o futuro)
Vai pra todo lugar, nas mais diferentes formas possíveis.
Seguem dois vídeos do Andrei: o primeiro no espetáculo Pequenas Caquinhas e o outro da sua participação no Programa É Tudo Improviso da Band.

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