Continuando meu overview pelas novas safras da Improvisação Brasileira, entrevisto hoje Rafael Lohn. Diretor do terceiro colocado do Campeonato Brasileiro de Improvisação, o Grupo Protótipo, Rafa Lohn é outro polivalente na improvisação.

Abaixo, permito que ele próprio conte de sua trajetória na Improvisação e a história do seu grupo.

BIOGRAFIA

Minha veia racional e minha veia artística sempre andaram juntas e foi praticamente natural sair do colégio para cursar simultaneamente Cinema (FAAP) e Matemática Aplicada (USP).
O caminho da matemática me levou para o mundo da lógica, informática e cultura nerd. Sempre enxerguei a matemática, assim como o cinema, como uma linguagem. Uma linguagem elegante, bela e que também tem espaço para a criatividade e inspiração.
O caminho do Cinema incluiu muitos filmes e também muito trabalho com fotografia. Participei de exposições e festivais e estudei com grandes fotógrafos como o René Burri e  o Ralph Gibson.
Além da minha formação na FAAP, estudei na Academia de Cinema de Praga (FAMU). Lá me aprofundei na cinematografia da Europa Oriental, análise de roteiro, estrutura narrativa e direção. Pude trabalhar com diversos diretores e tive oficinas fenomenais como a de direção de atores com a Lenore DeKoven. Também lá dei uma série de aulas de Cinema Brasileiro.
O engraçado é que eu rapidamente virei o ‘louco’ entre os matemáticos e o ‘nerd’ entre os cineastas. Tal qual o ditado ‘em terra de cego quem tem um olho é rei’, sempre que encontrava um emprego de um ‘lado’ o meu ‘outro lado’ chamava a atenção. É o caso do Cineboteco aonde fui contratado cuidar do conteúdo e acabei diretor de tecnologia. Enfim, abri minha própria empresa de desenvolvimento de software para atender tanto o Cineboteco como outros clientes.
Uma outra frente foi trabalhar com adolescentes. Passei muitos anos com o CISV, fui monitor de acampamentos em diversos países do mundo e, aqui no Brasil, dou aulas de cinema em colégios.
Minha vida de improviso começou por acaso, em um curso de Clown com o Márcio Ballas. Depois de dois anos com ele veio o curso do Ricardo Behrens e foi então que decidi montar meu próprio grupo de Improviso. Daí começou a jornada de aprender buscando diversas oficinas (Marcio Ballas, Rhena de Faria, Mariana Muniz, Ricardo Behrens, Bete Dorgam, Patch Adams, Pablo Pundik, Gustavo Ángel, Catalina Hincapie, Hacho Badaracco, Ariel Frost, Leandro Calado, Omar Galvan, Mario Escobar, Luis Louie, Frank Totino …) assistir tudo quanto é espetáculo, devorar toda literatura que encontrava e passar tudo isto para toda gente que foi aparecendo no grupo! De brinde, naquele ano fui contratado para filmar o trabalho do Jogando no Quintal e pude estudar o trabalho deles.
Depois deste um ano, o grupo estabilizou com a cara que temos hoje e, com algum conhecimento acumulado, começamos a trilhar o nosso caminho do Prótotipo. Desde 2007 nos apresentamos mensalmente e para este ano queremos mais!
Improvisando:  Gostaria que vc começasse resumindo os trabalhos nos quais vc está envolvido hoje.
Eu dirijo e me apresento com o Grupo Protótipo de Improvisação. Ainda no improviso, dou oficinas para grupos e empresas e estou pesquisando um novo espetáculo para o grupo.
Também tenho uma empresa de  desenvolvimento de software, Partisan e sou professor de Cinema no colégio Móbile.
Improvisando: O que é Improvisação Teatral? Quais são os princípios em que se embasa?
Improvisação Teatral é o desenvolvimento espontâneo de histórias. Os fundamentos da Impro são a escuta e a aceitação. Escuta e aceitação do outro, do ambiente e de si. Que é uma forma de dizer que a criação é natural, basta que você a perceba e não a bloqueie. Com isso em mãos, o resto é refinamento.
Improvisando:  Como surgiu a Improvisação na sua carreira?
Em 2004 minha irmã estava tendo aula de trapézio no Galpão do Circo. Ela ficou sabendo de um workshop de Clown que o Marcio Ballas ia dar e fez minha ficha de inscrição de brincadeira, ela sempre brincou que eu era palhaço.
Eu fiz o tal workshop e adorei. Emendei na turma regular do Marcio e fiquei um tempão. Aliás, fiquei até ele me expulsar! Chegou um dia que ele me falou que eu já conhecia todo repertório dele que tava na hora de eu ir embora. Aproveitei a deixa para ir atrás de outros cursos. Não lembro, mas deve ter sido nesta época que estudei com a Bete Dorgam.
Em 2006 o Jogando no Quintal trouxe para o Brasil o Ricardo Behrens da LPI. Eu fiz uma oficina com ele e foi a revelação. Quero fazer improviso! Juntamos os interessados que fizeram a oficina, outros alunos do Marcio, alguns amigos e, com a vontade de montar uma LPI no Brasil, começamos a nos reunir.
Simultaneamente, ou seja, quando o Ricardo Behrens estava no Brasil, eu dei uma baita sorte que eu tinha recém terminado minha graduação em Cinema e o Márcio me ligou pedindo que eu filmasse o treino que o Ricardo daria para o Jogando. Quando entreguei o DVD do workshop para o Jogando eles gostaram e me pediram para filmá-los todo mês. Topei! Além de assistir a pencas de apresentações do Jogando, acompanhei alguns treinos, aquecimentos, discussões, camarins.. E, tendo que preparar os DVDs, vi e revi todo o material diversas vezes. Foi uma época em que aprendi muito, Um privilégio mesmo. Passei um ano inteiro gravando.
Este mesmo ano que passei gravando, comecei o processo de pesquisa e aprendizado do grupo. Começamos nos reunindo em um salão de festas, logo depois migramos para a, gentilmente cedida, sede do Jogando. Quando resolvemos aumentar o número de encontros passamos a alugar um espaço na Vila Madalena e, depois de um ano, inauguramos nossa própria sede.
Foi um período bem louco. Eu tinha minha experiência de Clown e um workshop do Ricardo e logo estava dando treino para os diversos sub-grupos da nossa turma. Eram 5 treinos por semana! Tinha muita gente. Devem ter passado umas 40 e tantas pessoas pelo grupo.
Por sorte, o Jogando no Quintal trouxe muita gente bacana para dar treino para eles e eles foram muito generosos conosco. Aproveitamos todo mundo que apareceu em SP e treinamos com gente do Accion Impro, do ImproMadrid, da LPI Argentina, a Mariana Muniz.. Também treinamos com o Marcio e com a Rhena.
Com a bagagem de acompanhar o Jogando, este monte de oficinas, diversos livros e muita tentativa e erro, em março de 2007 começamos a nos apresentar em público. Aí o nosso NEI (Núcleo de Estudos de Improviso) deu luz ao Grupo Protótipo.
Improvisando: A sua trajetória profissional é bastante polivalente. De que forma o cinema, a informática e as exatas influenciam seu exercício como Improvisador? De que forma a Improvisação o influencia nas demais carreiras?
Depois de tantas apresentações e tantos treinos, me sinto muito tranqüilo em situações novas. O trabalho de escuta, foco no presente, memória.. está cada vez mais internalizado e passei a confiar de que minha mente vai prestar atenção e irá resgatar a informação necessária na hora certa. E, incrível, funciona. O humor também ficou mais refinado e ágil, o que ajuda com os clientes e alunos. Mas a principal influência hoje da Impro na minha vida é que dedico cada vez mais tempo a ela e, portanto, menos as outras coisas.
O mundo das exatas trouxe para o Protótipo (temos mais membros de exatas no grupo) um grande enfoque em entender tudo o que fazemos. O que funciona, o que faz com que funcione, o que podemos variar e ainda manter funcionando.. Nós teorizamos muito! Lembro que láááá no comecinho do grupo, quando a Rhena veio nos ver, ela achou curioso que nós entendíamos muito e isto era um problema. Pois entender o que funciona, não é o suficiente, tem de praticar, e nossa prática estava muito aquém da nossa compreensão. Ela falou algo como ‘é como se vocês já entendessem tudo de jazz e agora querem começar tocando Miles Davis ao invés de praticar marchinhas’. Ela tinha razão. Mas nossa cabeçudice ajudou bastante a traçar o caminho dos  treinos, ajudou a descobrir o que precisamos desenvolver e como fazê-lo.
O Cinema contribuiu de diversas formas. A principal foi um bom conhecimento de estrutura narrativa. É algo que me ajuda muito em cena e é onde contribuo mais. É também algo que trabalho bastante com o Protótipo pois na minha visão a história e como ela é contada é a medida do sucesso de uma cena. Também estudei direção, e ainda especificamente direção de atores, o que sem dúvida ajudou a dirigir o grupo e construir o espetáculo.
Por fim, eu valorizo cenas que tenham repertório e o Cinema foi algo que aprofundou muito o meu. Obviamente já era um apreciador do ‘cult’ antes de entrar na faculdade.. Hoje o grupo me alopra: estudei cinema em Praga e conheço cinema Tcheco, Polonês, Húngaro, Estoniano… Claro que não adianta citá-los em cena, mas conhecer tanta diversidade de histórias e pessoas me ajuda a enriquecer as cenas que participo.
Improvisando:  Quem são os Improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?
O Ricardo Behrens além de ser o padrinho do grupo, é um improvisador fenomenal. Sem dúvida um mestre que nos estimula bastante.
Mesmo anos depois, continuo impressionado com a qualidade das cenas que vi do ImproMadrid. O Omar Argentino me deixou boquiaberto com sua apresentação solo as duas vezes que vi. O Colectivo Teatral Mamut também foi deslumbrante.
O Jogando no Quintal inspira a poder viver de Improviso no Brasil.
Também volta e meia volto a fonte e re-devoro o Impro do Keith Johnstone.
Improvisando:  Quais companhias no mundo você acredita que hoje fazem os trabalhos mais incríveis?
Além dos excelentes ImproMadrid e Mamut tenho que destacar o Acción Impro. Eles não apenas dominam os jogos como fazem um incrível long form dramático, o Triptico.
Eu também admiro como o Jogando no Quintal, além de conseguir juntar Clown e Impro, desenvolveu um espetáculo que vai além dos jogos e é extremamente envolvente.
Improvisando:  O que mais tem te trazido interesse em Improvisação hoje? Jogos de Improvisação ou espetáculos mais long form?
Long form! No momento é mais desafiador e permite resultados magníficos. É um reflexo da minha paixão por histórias. Os jogos são divertidos mas muitas vezes sacrificam a história. Na verdade, nesta comparação, o importante é que prefiro histórias à jogos independemente da duração das cenas. O nosso começo de trabalho com long form no Protótipo me deixou muito animado. Temos uma criação nascendo…
Improvisando:  Quais princípios em que se embasa a Improvisação que é hoje são mais motivos de investigação e pesquisa?
Nosso grupo é muito verbal e devemos trabalhar mais o uso do nosso corpo, composição do espaço e uma maior sutileza no que desenvolvemos. Me fascina o quanto podemos transmitir com olhares, gestos ou mesmo um texto que é cotidiano mas expõe toda uma dinâmica entre os personagens. Também, com o long form em mente, pesquisamos um novo ritmo de cena e maior profundidade nos personagens e suas relações.
Improvisando: Para onde vai a Impro (o futuro)?
Meu palpite é que atual onda que tornou o improviso bastante popular ainda deve continuar um pouco. O que é ótimo. Temos cada vez mais gente brincando e aprendendo. Assim a tendência é que tanto o público quanto os grupos se tornem cada vez mais exigentes e, em um círculo virtuoso, tenhamos cada vez mais espetáculos novos, diferentes e melhores!
Improvisando:  Quais são as dificuldades executivas de um grupo novo no mercado da Improvisação? Como o Protótipo tem conseguido se estabelecer nesse mercado? Quais são as perspectivas e projetos do seu grupo?
A maior dificuldade é atrair o público. Divulgar teatro me parece difícil como um todo, divulgar sem verba um elenco de desconhecidos então…é dureza. O boca-a-boca para grupos de improviso é algo que funciona bem: normalmente quem gosta volta com novos amigos, mas, sozinho, é relativamente lento. Um detalhe que ainda me impressiona é a quantidade de gente que não arrisca assistir nenhum espetáculo de improviso com medo de ser obrigado a se expor.
Acho um mérito incrível do Improvável como eles conseguiram romper a barreira da divulgação com vídeos semanais de alta qualidade, convidados e um belo site.
O Protótipo nos primeiros anos foi cautelosamente se apresentando uma vez por mês e com uma produção caseira. Este ano resolvemos nos dedicar e aparecer ainda mais. Fizemos no 1o semestre uma temporada semanal e agora estamos no 2o semestre de volta em cartaz com mais apresentações semanais. Além do aumento do número de apresentações buscamos e realizamos mais oficinas e eventos corporativos. Também participamos do Campeonato Brasileiro de Impro que foi uma ótima oportunidade de conhecer, conviver e jogar com muita gente muito boa e gente muito boa gente (e trazer o bronze!). Enfim um ano em que tivemos uma maior visibilidade o que ajudou a consolidar e divulgar a nossa imagem.
Também investimos em novo cenário, figurino, site… Para o próximo ano pretendemos melhorar ainda mais toda produção e, creio, não escaparemos de um investimento real em divulgação. Certamente aumentaremos o número de oficinas e eventos e, além de continuar com o nosso espetáculo, há uma vontade de estrear um novo!
Começar a buscar leis de incentivo e patrocinadores também está nos planos, alguém aí está interessado?
O Grupo Protótipo está em cartaz no Teatro Bella, na rua Rui Barbosa, 399 , São Paulo, todas às sextas feiras 22h até dia 17/12.
Abaixo uma intervenção do grupo na semana de recepção do IME/ USP.
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