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Último dia do Festival Internacional Los Improvisadores, no Teatro Oriente, em Santiago. E  cheio. Com 4 eventos no mesmo dia.

Meio dia, começamos com a Charla (bate papo). O convidado foi Rodrigo Malbrán Contre, diretor e fundador da Escuela Internacional del Gesto y la Imagen LA MANCHA.

Malbrán utilizou o espaço para fazer uma mostra de uma hora e meia, dos diversos estágios que passam os alunos durante os dois anos de formação da sua escola, que tem como base a metodologia de Lecoq. Seus graduandos mostraram cenas de utilização de máscara neutra, clown, commedia dell’ arte e por fim o que ele chama de Os Vinte Movimentos.

O trabalho dos alunos é preciso e rigoroso, a construção de cenas primorosa. O trabalho de Malbrán, que muito influenciou a formação dos improvisadores do Colectivo Teatral Mamut, nessa charla, mais do que didático foi umas das melhores possibilidades de entreterimento desse festival.

Seguiu-se às 16 horas a segunda apresentação do espetáculo Teatruras, do Impromadrid da Espanha.

Ignacio Lopez, Ignacio Soriano, Jorge Rueda e o músico Nacho Mastretta novamente fizeram um espetáculo primoroso na construção de estórias, leve, descontraido, ainda mais agradável com a participação das crianças da plateia. Mais sobre Teatruras no post anterior.

O espetáculo com maior sucesso de público do festival, seguiu-se a noite com Súper Escena, do Colectivo Teatral Mamut.

Com Monica Moya, Nico Belmar e Sergio Panqueque Molina, o Colectivo Teatral Mamut mostra a seu público chileno, um espetáculo de improvisação inspirado no cinema.

São propostas três cenas, em três estilos cinematográficos distintos. Os temas são sugeridos pela plateia. Cada uma dessas cenas se inicia e pára num ponto, na qual somente duas delas são eleitas para terem uma continuação. Depois de mais um pouco de desenvolvimento de cada uma das duas estórias, mais uma delas é eliminada, conhecendo o público somente um dos finais.

Espetáculo muito leve, divertido, bem ambientalizado tanto pela luz como pelo seu músico Francisco “Foco”. Os atores têm uma atuação muito forte pela caracterização de seus personagens e pelo seu carisma com o público. Um espetáculo belíssimo.

Fechou-se o festival com uma enorme festa. Teatro de Gorilas. Cada um dos músicos de suas companhias (Francisco “Foco” Cerda-Mamut, Cristiano Meirelles-Jogando no Quintal, Leonardo Prieto-Complot Escena, Nacho Mastretta-Impromadrid e Sebastian Rodrigues-La Gata Impro) e a banda do Teatro de Gorilas, fizeram a trilha sonora e os efeitos sonoros do espetáculo.

Foram 6 os diretores convidados: Ignacio Soriano (do Impromadrid da Espanha), Rodrigo Bello (do Improcrash da Argentina), Carlos Alberto Urrea Lasprilla (do La Gata Impro da Colômbia), Sergio Panqueque Molina (do Colectivo Teatral Mamut do Chile), Marcio Ballas (do Jogando no Quintal do Brasil) e Frank Totino (do Loose Moose do Canadá).

Os jogadores convidados foram:

– Florian Toperngpong e Nadine Antler da Alemanha.

– Charo Lopes, Luciano Barreda, Luciano Cohen, Marcelo Savignone, Omar Argentino Galván e Pau Farias da Argentina.

– Mateus Bianchim do Brasil.

-Monica Moya e Nico Belmar do Chile.

– Daniel Orrantia, Felipe Ortiz, Juan Gabriel Turbay e Mabel Moreno da Colômbia.

-Jorge Rueda da Espanha.

-José Luis Saldaña, Juan Carlos Medellín e Omar Medina do México.

A oportunidade de ver cenas propostas por aqueles que certamente estavam entre os maiores nomes da improvisação mundial, tornaram esse último espetáculo uma torre de babel de atuações, propostas, divertimento em cena e aprendizagem. Destaco, sem querer absolutamente desmerecer ninguém, o encontro antológico de parte do Sucesos Argentinos (Marcelo Savignone e Omar Argentino) que foi das grandes inspirações da improvisação latino americana com a nova geração de talentosos improvisadores argentinos (Improcrash) em cena nesse espetáculo. Memorável e emocionante.

Ao fim do espetáculo, todas as companhias foram merecidamente chamadas ao palco para serem homenageadas e a noite se seguiu com uma grande festa reunindo público, banda e atores num dos eventos mais fantásticos e audaciosos que a Improvisação mundial já assistiu.

Meus parabéns e muito obrigada a todos os amigos chilenos, a produção (meu especial a Andreia e a Loreto), equipe técnica do teatro, aos queridos amigos Monica, Nico, Panqueque e Francisco “Foco” Cerda do Colectivo Teatral Mamut pela hospitalidade, generosidade e iniciativa tão incrível de reunir as grandes companhias e pensadores da Improvisação Mundial da atualidade.

Meus parabéns  e muitíssimo obrigada também a todos os amigos e mestres Frank Totino, Angélica Rogel, José Luis Saldaña, Juan Carlos Medellín, Leonardo Prieto, Omar Medina, Carlos Alberto Urrea Asprilla, Daniel Orrantia, Felipe Ortiz, Juan Gabriel Turbay, Mabel Moreno, Sebastian Rodrigues, Allan Benatti, Cristiano Meirelles, Ernani Sanchez, Marcio Ballas, Marco Gonçalves, Rhena de Faria, Guilherme Tomé, Mario Escobar Olea, Mateus Bianchim, Charo Lopes, Luciano Barreda, Rodrigo Bello, Luciano Cohen, Marcelo Savignone, Omar Argentino GalvánFlorian Toperngpong, Nadine Antler, Ignacio Lopez, Ignacio Soriano e Jorge Rueda, Nacho Mastretta, Suso33. Vocês tornaram essa semana uma grande festa da improvisação mundial, pelas suas capacidades de viver verdadeiramente os conceitos da improvisação por estarem sempre presentes e afirmarem honesta e generosamente a amizade, aumentando e engrandecendo essa enorme corrente da Impro mundial.

Não devo esquecer dos amigos Adonis Camelato (do Olaria GB) e Rafael Protzner (do UMA Companhia) que compartilharam comigo diversão e aprendizagem.

Vimos atuações surpreendentes e impactantes como X- ha Muerto do Complot Escena e  propostas inovadoras como Corten do Impromadrid, que ao final, destacaram-se nesse festival. Mas nos entusiasmamos com o ritmo jovem, talentoso e coeso do Links do Improcrash. Admiramos a habilidade corporal dos colombianos no TellAraña do La Gata Impro. Nos emocionamos com as atuações solo impressionantes dos genios argentinos Omar Argentino Galván e Marcelo Savignone. Chilenos entusiasmados aplaudiram de pé por quase cinco minutos ao final do espetáculo dos nossos mestres brasileiros do Jogando no Quintal com o Caleidoscópio. Casa quase totalmente cheia de espectadores-fãs que ensurdeceram o Teatro Oriente para ver o espetáculo leve, descontraído e conciso com Colectivo Mamut com o Súper Escena.

Mas por fim, o que se destaca são as possibilidades de intercâmbio de conhecimento, discussões, propostas distintas, novas idéias de concepção, formatos, exercícios, teorias,  que foram pipocando aqui e ali entre uma taça de Sauvignon Blanc, uma cerveja Guayacan, um ceviche, uma salada de palta, um sorvete de lucuman, um poema de Pablo Neruda ou uma simples pausa para curtir o sol brando e o vento fresco. A tão inspiradora cidade de Santiago, se tornou cenário para o desenvolvimento dessas idéias que certamente plantaram a semente que desenvolverá, nesse solo fértil de tantos talentos humildemente ainda ávidos por ainda mais conhecimento e exercício da arte, a revolução proposta por essa grande escola e filosofia de vida que é a Improvisação Teatral.

Que esse post seja, mais que uma mera descrição do que foi esse festival, meus sinceros sentimentos a respeito dos oito dias mais emocionantes e edificantes que vivi desde que decidi me aventurar pelo curioso e instigante mundo da Impro.

Muito obrigada improvisadores de todo o mundo.

Mais um dia impressionante no Festival Internacional Los Improvisadores, no Teatro Oriente em Santiago.

A noite começou com Corten, do Impromadrid da Espanha.

Um cronômetro marca em um enorme telão que cobre todo o fundo do palco, o tempo que os geniais espanhóis terão que improvisar estórias, baseadas em sugestões dadas pelo público. Durante a execução das cenas, os atores gritam Corten: as luzes se acendem e eles definem com a plateia os destinos de seus personagens.

Concepção moderna de cenário, que ainda conta com a improvisação de Suso33 que pinta o cenário durante a construção das cenas.

O espetáculo conta também com a improvisação musical do genial Nacho Mastretta, tocando clarinete e teclado e construindo cenas junto com o grupo.

No espetáculo de ontem, o figurinista do espetáculo, dando cor aos personagens criados foi Omar Argentino Galván, que inclusive já havia feito uma crônica sobre a estreia desse espetáculo em Madrid. É dele também, mas uma de suas incríveis notas, publicada hoje, descrevendo sua experiência com esse festival.

Já conhecidos pela sua habilidade de construção de narrativas e pela sofisticação da concepção de espetáculos, Jorge Rueda, Ignacio Soriano e Ignacio Lopez, construiram um espetáculo refinado, de extremo bom gosto, de execução impecável. Absolutamente inesquecível.

A noite se segue, dando lugar para o espetáculo Más Menos.

O espetáculo foi apresentado pelo brasileiro Mateus Bianchim.

Nesse espetáculo três equipes de quatro jogadores dos vários países convidados, realizavam uma grande cena dividida em três partes.

Após a execução da primeira, no formato e com recursos decididos por cada grupo, com plataformas solicitadas para o público, o público decide se querem assistir a continuação das cenas, dizendo Más (se querem continuar a ver) ou Menos (se não quiserem mais ver as cenas).

As três equipes:

Equipe 1:

Angélica Rogel, do Complot Escena do México.

Carlos Alberto Urrea Lasprilla, do La Gata Impro da Colômbia.

Jorge Rueda, do Impromadrid da Espanha.

Marco Gonçalves, do Jogando no Quintal do Brasil.

Equipe 2:

Juan Carlos Medellín, do Complot Escena do México.

Marcio Ballas, do Jogando no Quintal do Brasil.

Nadine Antler, do Die Kaktussen da Alemanha.

Nico Belmár, do Colectivo Teatral Mamut do Chile.

Equipe 3:

Allan Benatti, do Jogando no Quintal do Brasil.

Charo Lopez, do Improcrash da Argentina.

Felipe Ortiz, do La Gata Impro da Colômbia.

Sergio Panqueque Molina, do Colectivo Teatral Mamut do Chile.

Por fim, somente com camisas 10 em cena, tivemos más para todas elas e vimos as três cenas completas.

Hoje, é um dia com muitas atividades!

Teremos Teatruras , espetáculo infantil do Impromadrid; Vivo, espetáculo solo de Marcelo Savignone e à noite Stage Time com a participação de jogadores de todas as equipes do mundo.

Ontem foi dia de Brasil no Festival Los Improvisadores, no Teatro Oriente, Santiago, Chile.

Apresentou-se Caleidoscópio, do Jogando no Quintal. Allan Benatti, Marco Gonçalves, Marcio Ballas, Rhena de Faria, Cristiano Meirelles e Ernani Sanchez (iluminação) fizeram um trabalho belíssimo, como de costume, nos orgulhando muitíssimo brasileiros, nesse festival.

Para quem não conhece seu formato, o espetáculo inicia com pequenos depoimentos de lembranças vividas nas vidas pessoais de cada um dos improvisadores. Cada estória leva a perguntar para plateia plataformas que vem também de suas vivências pessoais. As cinco plataformas colhidas do público servirão de inspiração para a criação de cinco estórias, que em meio ao espetáculo se entrelaçam.

Mais uma vez me impressionou a beleza das estórias contadas, o poder da criação de imagens, o carisma que ganha facilmente o público e por fim a capacidade de contruir a interligação das estórias de forma tão concisa e ao mesmo tempo tão suave.

A noite se seguiu com o espetáculo Mosaico.

Formato de improvisação em que são solicitadas plataformas ao público que serão utilizadas como inspiração para todas as diversas cenas criadas por grupos distintos de atores que estarão em cena, sob direção de Sergio Panqueque Molina, do Colectivo Teatral Mamut. Foram pedidos uma frase, um lugar, um sentimento, um objeto e algo que caracterizava uma cultura.

Foram convidados 20 jogadores de distintos países.

Alemanha: Nadine Antler e Florian Toperngpong (Die Kaktussen).

Argentina: Omar Argentino Galván (Improtour), Pau Farias e Rodrigo Bello (Improcrash).

Brasil: Guilherme Tomé (É Tudo Improviso e Olaria GB), Marcio Ballas (Jogando no Quintal e É Tudo Improviso), Mateus Bianchim e Rhena de Faria (Jogando no Quintal).

Chile: Mali (Los Improvisadores), Mario Escobar Olea, Monica Moya e Nico Belmár (Colectivo Teatral Mamut e Los Improvisadores).

Colômbia: Daniel Orrantia, Juan Gabriel Turbay e Mabel Moreno (La Gata Impro).

Espanha: Ignácio Lopez e Ignacio Soriano (Impromadrid).

México: Angélica Rogel, José Luis Saldaña e Juan Carlos Medellín (Complot Escena).

 

Hoje é dia de Corten, do Impromadrid da Espanha e Más Menos com participação de integrantes do mundo todo.

Tive a felicidade de conhecer Débora Vieira há poucos dias.  Vi pessoalmente, a mesma atriz que imaginava tão apaixonada pelas artes, em particular pela Improvisação Teatral. E é com essa mesma paixão, que ela relata aqui suas impressões sobre esse mundo da Improvisação Teatral e a luta para erguer seu espetáculo Dos Gardenias.

1)      Gostaria que vc começasse resumindo os trabalhos com os quais vc está envolvida hoje.

Eu faço parte da UMA Companhia, de Belo Horizonte, de cuja formação fiz parte. Trabalhamos com improvisação desde 2006, e temos 3 espetáculos em repertório, o Match de Improvisação, no qual eu atuo como jogadora e como juíza, e o Sobre Nós, do qual eu não faço parte, porque, quando da montagem, eu estava montando um outro trabalho de teatro, o espetáculo Cortiços, junto à Companhia de Teatro Luna Lunera, de Belo Horizonte. E, também, nosso último trabalho, que acabou de estrear, o Dos Gardenias Social Club (clipping), trabalho de minha concepção e direção, e no qual também atuo.

Além disso, também ajudo a coordenar as atividades da UMA Escola de Impro, aqui em Belo Horizonte. Oferecemos cursos regulares para pessoas com e sem experiência em teatro, e realizamos, com os alunos, aulas abertas e o espetáculo Mister Impro, na conclusão do semestre.

Minha dissertação de mestrado, em desenvolvimento no Poslit da UFMG, também é sobre improvisação. Eu estudo a dramaturgia da improvisação, propondo um estudo comparativo entre a comédia dell’arte e os espetáculos improvisados na atualidade, mais especificamente o Humor Mierda, do grupo mexicano Complot Escena, e também o Caleidoscópio, do Jogando no Quintal.

2) O que é Improvisação Teatral? Quais são os princípios em que se embasa?
Acho que a improvisação é um banquete composto de comida para todos os gostos… e eu ainda estou desfrutando a entrada. Há todo um mundo a ser descoberto no campo da impro, mas o que mais me instiga é a certeza de que, mesmo quando já estivermos saboreando a sobremesa, isso deve ser feito com os mesmos princípios do começo: a tranqüilidade, a generosidade com o que se experimenta e também com aqueles que compartilham da mesma mesa, a capacidade de degustar cada pedaço de cada prato. Vendo os grupos mais experientes, que muito me inspiram, percebo que toda a perícia e virtuose deles só é possível porque eles se aprofundaram nas premissas básicas da impro: a cumplicidade com o companheiro de cena, a sinceridade consigo mesmo e a disposição para desfrutar do trabalho que se realiza. A partir disso, o que mudam são os desejos artísticos de cada grupo, de cada artista, e é o que vai dar o tom de cada trabalho…


3) Como surgiu a Improvisação na sua carreira?

Surgiu em 2006, sem eu ter necessariamente escolhido isso. A Mariana Muniz, que há pouco havia voltado da Espanha, onde trabalhou durante anos com o Impromadrid, postulou uma vaga para dirigir a montagem do curso profissionalizante de teatro que eu fazia, no Centro de Formação Artística (CEFAR), do Palácio das Artes. Ela nos apresentou a linguagem, o treinamento, e dirigiu o Match de Improvisação. No meu caso, foi uma experiência cheia de altos e baixos, já que eu de cara me defrontei com muitos bloqueios. Mas eu resolvi agarrar o boi pelo chifre, já que tem muitas coisas que me atraem na impro. A impro vicia, não? A sensação de que se pode tudo (ainda que saibamos que não é bem assim…), de que se pode celebrar um encontro a cada cena… Isso é mágico!
Considero, também, que em 2009 a impro surgiu na minha vida por uma segunda vez, quando eu fiz uma oficina com o canadense Shawn Kinley. Na época eu morava no Chile, estudava a impro junto ao Colectivo Mamut, e acho que o encontro com o Shawn mudou todas as minhas perspectivas a respeito dessa linguagem.

4) Recentemente Allan Benatti comentava comigo a dúvida que tinha com relação à escassez de mulheres no Improviso. A que você acha que se deve essa constatação? Quais as contribuições diferentes que a mulher pode trazer para a Impro?

Bom, é uma pergunta curiosa, porque no começo do nosso grupo, éramos 10 atores, dos quais 7 eram mulheres. Quando participamos do nosso primeiro festival internacional, a convite do Jogando no Quintal, vários grupos comentavam o quão feminino era o nosso grupo! No Fimpro, que realizamos em 2008, e depois no Improfestin (Chile), tive contato com inúmeros outros grupos, e pude perceber que, de fato, a impro ainda é uma linguagem predominantemente masculina, e eu penso muito sobre isso. A questão de gênero é algo que me toca profundamente, tenho inclusive uma simpatia muito forte por algumas pensadores e artistas que atuam no campo do feminismo. E, nesse sentido, me coloco sempre a pergunta sobre qual seria uma expressão feminina na impro. Às vezes eu acho que, puxa, temos toda uma história do teatro construída por homens… os diretores, dramaturgos, encenadores, atores… Daí me questiono até que ponto a inserção das mulheres na produção cênica não se fez, também, por uma via masculina. Como se nós tivéssemos entrado para um jogo com as regras já mais ou menos estabelecidas, e não nos restasse muito a não ser seguir essas regras. Claro que falando assim a coisa parece muito rígida, e eu sei que os processos, sobretudo os artísticos, são mais dinâmicos…

Mas nesse campo entra a impro… a maioria imensa das cenas que eu assisto e que tratam, por exemplo, dos padrões de comportamento sexual, o fazem sob uma ótica masculina. E, quando há uma inversão, sinto que trata-se simplesmente de uma inversão que tem como ponto de partida o discurso anterior, ou seja, é uma inversão apenas caricatural, ilustrativa.

E isso me inquieta muito… No primeiro semestre de 2010, inclusive, comecei a desenvolver um trabalho de investigação nesse sentido, aqui em Belo Horizonte, com várias meninas interessadas no tema… 4 atrizes improvisadoras, dentre as quais 2 são palhaças, e uma bailarina. Os encontros foram poucos (a famosa agenda…), mas a vontade de ver qual é ainda é muita.
5) Quem são os improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?
Todos os meninos da UMA Companhia, por seguirmos juntos apesar da falta de recursos; o Assis Vidigal, parceiro na UMA, pela inteligência e generosidade; a Angélica Rogel, do Complot Escena, pela delicadeza forte, pela inteligência dramatúrgica; O Marcio Ballas, do Jogando, e o Panqueque, do Colectivo Mamut, pela eterna capacidade de me surpreender e me fazer sorrir; o Gustavo Miranda, do Acción Impro, pela versatilidade; o Marcelo Savignone, pela inteligência e pela técnica e, finalmente, o Shawn Kinley, mestre em todos os sentidos!
6) Quais companhias no mundo você acredita que hoje fazem os trabalhos mais incríveis?
Atualmente eu ando muito encantada com o trabalho do grupo Complot Escena. Acho que eles têm um domínio técnico incrível, e utilizam essa potencialidade sem abrir mão da diversão e da subversão da própria técnica. Poderia também citar grupos como Loose Moose e Second City, mas acho que prefiro escolher uma inspiração mais acessível, rs.
7) O que mais tem te trazido interesse na Improvisação hoje? Jogos de Improvisação ou Espetáculos mais LongForm?

Long Form. Os espetáculos de jogo – que ainda são a maioria nos repertórios dos grupos da América Latina – me cansaram um pouco, fico com a sensação de que é quase tudo muito igual. Acho que há muitos grupos acomodados com a grande receptividade do público para com essa modalidade. Eu até acho positivo, gosto muito do trabalho de diversos grupos, continuo achando um fenômeno muito significativo para o teatro. Mas no meu caso, já estou a fim de investigar outros matizes da impro…

8) Pra onde vai a Impro? (o futuro)

Acho que ela já está num caminho muito bacana… vejo muita gente se apropriando da técnica e fazendo dela um ponto de partida para investigações de outra ordem, e eu acho que é isso que vai manter essa linguagem viva e sempre interessante!

9) Quais são as dificuldades executivas de um grupo no mercado da  Improvisação? Como a UMA Companhia tem conseguido se estabelecer nesse mercado? Quais são as perspectivas e projetos do seu grupo?

No caso de Belo Horizonte, somos o único grupo que realiza uma pesquisa contínua no campo da improvisação. E acho que, pela nossa formação, e também por nossos anseios artísticos, sempre tentamos nos inserir no mercado teatral em sentido amplo. Nunca pensamos em criar um mercado (de produção ou de público) específico para a impro, o que tem suas vantagens e desvantagens, porque nos vemos num não-lugar criativo e também mercadológico: não realizamos um teatro “comercial” o bastante para termos sempre casa cheia e vivermos de bilheteria, tampouco um teatro “experimental” o suficiente para conseguirmos manter o trabalho do grupo via leis de incentivo.

De qualquer forma, o que eu posso dizer a respeito da realidade do mercado relaciona-se mais com o cenário das artes cênicas do que especificamente da improvisação teatral.

Acho que as políticas públicas para a cultura no Brasil ainda engatinham. No caso de Minas Gerais, engatinham usando patinete: são tímidas e inconstantes. Acho que falta conscientização da classe artística a respeito do potencial mercadológico da produção cultural, e falta também competência aos gestores públicos para perceber que o investimento na cultura gera empregos, circulação de capital, além de uma imensa gama de valores agregados, tudo isso com um baixo impacto ambiental. Paralelamente à escassez de recursos, a demanda por financiamento tem crescido muito… Tudo isso dificulta bastante o nosso trabalho.

No caso específico da impro, eu não disponho de dados concretos para fazer uma análise do mercado da improvisação no Brasil. Acho que poucos grupos conseguem sobreviver do trabalho com a impro atualmente no Brasil.

Nós temos quatro anos de trajetória, e até hoje, posso afirmar que pagamos para fazer o que fazemos. Fizemos neste segundo semestre uma temporada de um mês [sexta a domingo] em um teatro daqui de BH, começamos com uma média super pequena de público e encerramos a temporada com casa lotada. No fim das contas, só conseguimos cobrir as despesas com teatro, divulgação, direção, produção…

Além disso, custeamos um investimento constante em nossa formação: oficinas, participação em festivais nacionais e internacionais (ressalte-se que 4 membros do grupo realizam pesquisas acadêmicas a respeito da impro).

E ainda pagamos aluguel de espaço para ensaiar e financiamos com nosso próprio esforço e dinheiro nossos dois longforms.

A realização do Dos Gardenias Social Club só foi possível porque fomos aprovados em um edital da Cia Clara, de BH, que nos ofereceu local de ensaio e de apresentação, além do material de divulgação.

Conseguimos um apoio de R$2.000,00 e realizamos, na cara de pau, uma vaquinha virtual, pedindo aos amigos que contribuíssem. A vaquinha nos rendeu a grata surpresa de R$1000,00, e com isso pagamos o cenário. Então, com R$3000,00, somados à imensurável dedicação de improvisadores, professores de dança, iluminadores e músicos (que também trabalharam sem receber nada, nem ajuda de custos), conseguimos erguer um trabalho do qual eu tenho muito orgulho… não apenas pelo resultado, mas pelo que significa, hoje, trabalhar com teatro e com impro no Brasil.

Estamos trabalhando incessantemente para reverter este quadro, e temos ótimas perspectivas para o ano de 2011. Evoé, impro!

Flávio Lobo é polivalente. Além de professor de biologia é professor de Improvisação na Cia. do Teatro Contemporâneo e está à frente do Grupo Alcatéia de Improvisação, bicampeão carioca e atual campeão brasileiro, título esse recentemente conquistado no Campeonato Brasileiro de Improvisação que ocorreu no último fim de semana no Rio de Janeiro. Flávio também é responsável pela notícia de improvisação com o resumo desse campeonato exclusivo para esse blog.
1) Improvisando: Gostaria que vc começasse resumindo os trabalhos nos quais vc está envolvido hoje.
Atualmente ministro aulas de improvisação no curso livre e no curso profissionalizante da Cia de Teatro Contemporâneo. Também trabalho no Colégio Eduardo Guimarães como professor de ciências, biologia e improvisação teatral onde ministro aulas de improvisação para as classes especiais (O EG é uma escola inclusiva) e realizo uma pesquisa sobre como a improvisação pode auxiliar no ensino formal. 

Estou a frente do Grupo Alcateia de Improvisação, atual campeão Carioca e Brasileiro de improvisação onde trabalho como ator e treinador e é produzido por Fabiola Mozine. O Grupo está preparando dois espetáculos um de cenas curtas e outro no formato de cenas longas improvisadas. Ambos para estreiar em 2011 na cena carioca.

2) Improvisando:  O que é Improvisação Teatral? Quais são os princípios em que se embasa?
Para  mim a improvisação teatral é um ótimo treinamento para qualquer ator, e até mesmo para qualquer pessoa, pois seus fundamentos como a escuta, o cavalheirismo e a aceitação são princípios básicos para que se construa boas relações em cena e na vida. Criar cenas, assim como conviver em grupo é algo muito difícil e requer muita conexão entre seus componentes para que tudo ocorra bem.
3) Improvisando: Como surgiu a Improvisação na sua carreira?
A improvisação vai surgir na minha vida na década de 90 onde eu fazia uma peça chamada Terror na Praia. A ideia desse espetáculo surgiu quando a produtora Mariah Martinez assistiu a um show de impro na França e , mesmo sem entender nada, achou bacana uma disputa teatral onde a platéia atirava chinelinhos de borracha nos atores (na verdade era nos juízes) em uma disputa teatral.
No Terror, que tinha como base o teatro circo da década de 50, tinhamos uma peça principal com o gênero terror seguido de um ato variado com esquetes, mágicos e malabaristas. O espetáculo era quase todo improvisado a partir de um roteiro básico, pois tanto a peça, quanto o ato variado mudava a cada semana. Durante o ato variado, o ápice era uma disputa do “pior esquete”. Dois grupos de atores disputavam uma cena onde o público jogava chinelos de espuma naquelas que achavam a pior. Esta seria a escolhida da semana e encenada na íntegra na semana seguinte. O Terror foi uma grande escola embora não tivesse quase nada do Impro de verdade.
Em 2003 a atriz e diretora Gabriela Duvivier veio da Europa trazendo em sua bagagem as técnicas de Keith Johnstone. Ela ofereceu uma oficina e formou um grupo de atores. Foi meu primeiro contato real com teatroesporte e dessa oficina surgiu o “Teatro do Nada” uma das primeiras companhias cariocas de improvisação, que está na cena até hoje. Quando o “Nada” se formou eu estáva envolvido em pesquisas sobre o impro, tinha acabado de ler o “Impro for Storytellers” e muito empolgado. Assim resolvi fazer encontros, com auxílio da produtora Fabiola Mozine,  onde divulgávamos e treinávamos as técnicas, gratuitamente para quem quisesse participar. Nessa época fui convidado a fazer parte do espetáculo “Nada Contra” do “Teatro do Nada”, como Juiz Técnico e comecei a trabalhar na Cia de Teatro Contemporâneo, onde Iniciamos as primeiras versões do Campeonato Carioca de Improvisação.
Nesse meio tempo, até hoje, participei de inúmeras oficinas e workshops de improvisadores que passaram por aqui como Ana Paula Novellino (Teatro do Nada), Ricardo Behrens (LPI Argentina), Fernando Caruso (Z.E. Zenas Emprovisadas), Matheus Bianchim (Imprópria Cia Teatral), Omar Argentino (Improtour), Edson Duavy (Anônimos da Silva), Pedro Borges ( Improváveis – Portugal) e Bobbi Block (Groove and Tongue – Philadelphia)  e também ministrei oficinas no Rio, São João del Rey – MG e Villa Velha – ES.
4) Improvisando: A sua trajetória profissional é diversificada. Se bem compreendi você vem da área das ciências (biologia). Como sua formação influenciou na sua atuação. E quanto da improvisação contribuiu na sua carreira?
A improvisação no geral e o impro em particular é uma técnica onde o ator deve trabalhar com o máximo de conhecimento que possa contribuir com a cena. Adoro estudar. Sou formado em biologia, professor, ator, jogador de RPG, colecionador de quadrinhos desde adolescente e um devorador de livros e filmes, em suma, o típico “NERD”. Logo o Impro, para mim é uma evolução natural. Tento levar para os jogos de impro os detalhes adquiridos por minha vivência, assim como tento levar o Impro para a sala de aula. Acho que é uma boa troca e os resultados em ambas as áreas de atuação é extremamente satisfatório.
5) Improvisando: Quem são os Improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?
São muitos. Hoje em dia eu citaria Keith Johnstone (que eu conheço apenas pela obra), Ricardo Behrens, Omar Argentino, Allan Benatti e Edson Duavy.
6) Improvisando: Quais companhias no mundo você acredita que hoje fazem os trabalhos mais incríveis?
Não saberia lhe responder sobre as melhores companhias do mundo. Pois as conheço apenas pela literatura e alguns vídeos do youtube. Porém no Brasil, daquelas que eu vi atuando, as melhores companhias que estão na cena hoje em dia na minha opinião são, independente da ordem: “Uma Companhia” (MG), “Jogando no Quintal” (SP),  e claro o “Grupo Alcateia” (RJ). No campeonato Brasileiro de improvisação me impressionaram também o jogo dos “Protótipos” e do Sustentáculos (SP) e dos “Risologistas” (PR).
7) Improvisando: O que mais tem te trazido interesse em Improvisação hoje? Jogos de Improvisação ou espetáculos mais long form?
Estou trabalhando com o Alcateia as duas vertentes.Gosto muito dos jogos de improviso. Mas acho que eles acabam limitando a improvisação pelo excesso de regras (que é bom para iniciantes). A tendência natural dos improvisadores mais experientes é buscar formatos mais longos e livre de amarras onde se prioriza a dramaturgia e o aprofundamento das relações entre os personagens.
8.) Improvisando: Quais princípios em que se embasa a Improvisação que é hoje são mais motivos de investigação e pesquisa?
A noção de ciclo de espectativas, que está relacionada diretamente com o conhecimento no assunto sobre o qual se fala durante a improvisação. A escuta e a aceitação – fundamentais para a construção de cenas em grupo e as noções teatrais de memória emotiva, memória afetiva e construção de personagem. Fundamentais para uma cena mais longa.

9) Improvisando: Para onde vai a Impro (o futuro)?

A impro é uma fonte inesgotável de pesquisa. Acredito que pode se originar inúmeros formatos de espetáculos e no futuro acho que muitas empresas utilizarão as técnicas para o treinamento de seus funcionários e professores as utilizarão para facilitar a aquisição de conhecimento por parte dos alunos. Além do mais é um formato teatral totalmente aberto e muitos grupos a utilizarão para formatar seus espetáculos. E é claro surgirão os campeonatos, encontros e festivais de improvisação, fonte permanente de troca de conhecimento entre os entendidos e os neófitos.

Na seqüência, vídeos do Alcatéia em ação, contra o Anônimos da Silva no Brasileiro do último ano e contra o Ilimitada no Campeonato Carioca de Improvisação.

Ricardo Behrens é ator, diretor e mestre formado pelo Conservatório Nacional de Arte Dramática de Buenos Aires em 1990. Tem também formação profissional como músico, estudando teoria e solfejo, clarinete e piano no Conservatório Nacional de Música, e tendo uma extensa carreira como cantor lírico naquele país.

Desde o começo da sua atividade teatral se dedicou a técnicas de Improvisação Teatral Contemporânea e de Gêneros Puros (escola de Jacques Lecoq). Foi selecionado como clown pelo ‘Cirque du Soleil‘.

Teve como mestres:
Escola Lecoq: Cristina Moreira
Clown: Raquel Solcolowicz, Hernan Gené e Guillermo Landin.
Tango: Dinzel y Rivarola
Mímica: Lerchundi-Escobar
Rítmo Musical: Rubén Ramos.
Improvisação Teatral: Silvie Potvin, Joane (de Lamirande) Bloom, Silviel Gagnon (da Ligue Nationale d’Improvisation do Canadá) e com o mestre francês Claude Bazin (da LIFI – Ligue d’Improvisation Francaise).
Na Europa estudou na Alemanha, Espanha, Estados Uidos, França, Eslovênia e Itália.

Tem trabalhado como ator e diretor em mais de 30 obras de teatro de texto em vários países e diversos programas de televisão argentinos.

É pioneiro na investigação da Improvisação Teatral e das técnicas de Keith Johnstone, Robert Gravel e Viola Spolin no idioma espanhol. Se especializou na investigação e na prática dessas técnicas desde 1988. Cria uma metodologia própria e desde 1998 começa a realizar trabalhos em empresas e instituições, aprimorando a capacidade do trabalho em equipe. É fundador da Liga Profisssional de Improvisação Internacional (LPI) e do Match de Improvisação em lingua espanhola (1988).

No âmbito teatral tem dado cursos de improvisação teatral, match de impro e clown na Alemanha, Espanha, Argentina, México, Colômbia, Peru, Equador, Chile e Brasil. A partir de seu trabalho e da fundação da Escola Internacionalde Improvisação LPI se criaram as Ligas Profissionais de Improvisação nesses países. Por sua trajetória é reconhecido internacionalmente por Yvon Leduc (autor do Match de Improvisação®) e corrdena a disciplina na  América Latina através da LPI Internacional.

Com um currículo impressionante desses, tivemos o prazer recentemente em recebê-lo ao Brasil para uma participação da gravação do É Tudo Improviso, na rede Bandeirantes. Nessa oportunidade também participou como jogador convidado do espetáculo Improvável da Cia. Barbixas de Humor e também ministrou workshops para alguns grupos de improvisação.

Nessa passagem relâmpago pelo Brasil, Ricardo Behrens gentilmente concedeu alguns minutos entre suas inúmeras atividades, para responder algumas perguntas para esse blog.

Improvisando: Eu gostaria de saber um pouquinho de como foi seu contato com a improvisação.

Ricardo Behrens: Então, no ano de 1988, na Argentina, começaram minhas primeiras experiências com teatro. Eu tinha uma experiência de dois anos com clown e aí soube de um casting, uma audição para um espetáculo que se chamava Match de Improvisação, que era um espetáculo dirigido por Claude Bazin, que é um diretor francês. Ele teve contato lá na França com o Match de Improvisação, e ele havia dado algumas aulas na Argentina e havia selecionado alguns alunos e faltava completar o elenco. Então, entrei por meio dessa audição, sem saber muito o que era e nem o que ia acontecer.
Então ele nos treinou durante um tempo, muito intensivo, mostrou para gente vídeos da França, porque era a primeira coisa de improvisação que se fazia na Argentina, com certeza, e em espanhol eu acho que era também uma das primeiras experiências, então não havia muitas referências sobre como era um trabalho com improvisação. Para nós o Match era a improvisação, não separávamos o que era Match do que era improvisação.
Então, eu entrei pela audição, fiquei treinando com ele e depois uns jogadores do Canadá foram para a Argentina e treinaram a gente também, e fizemos as primeiras quatro apresentações com a sala muito cheia e foi um grande sucesso naquele momento, como um início do improviso, de algo novo que não era conhecido lá.
Havia algumas experiências com improviso na Argentina, eu mesmo já tinha feito num lugar chamado Paracultural. O Centro Paracultural era um centro alternativo durante a ditadura militar. Mas não eram muitas as experiências, e essas estavam mais ligadas à técnica do clown, de alguma maneira com improvisações, mas não como técnica de improvisação sozinha. Então, a partir daí comecei a trabalhar, mas estava trabalhando como ator e aprendendo muito e conhecendo muito sobre o tema. Segundo meu ponto de vista, aquele era um grupo um pouco heterogêneo, então no ano seguinte se desfez e se formou um outro grupo, e assim foram duas temporadas. Depois de um break, retomamos as atividades em 92 e aí eu já estava dirigindo. Durante alguns anos tive uma sociedade como co-diretores, aí depois disso por uma série de  algumas divergências artísticas, sobretudo com respeito à estética de improvisação e à estética do Match também, cada um seguiu seu próprio caminho.
Aí já entro no que acredito em improvisação. Eu acredito que um espetáculo de improvisação parece algo óbvio, mas às vezes não é algo óbvio. A improvisação é o mais importante, nem os indivíduos nem os egos, eu acho que tem que deixar tudo isso de lado para fazer uma boa improvisação, colocar-se a serviço da improvisação. Então, um pouco essa foi a divergência. Eu ponho a improvisação em primeiro plano, priorizo fazer boas histórias e fazer uma boa improvisação em qualquer formato. Todo o restante pode ser algo que contribua para esta idéia principal, que ajude esta idéia principal a existir. Se o foco se transforma, vai para outro lado, a improvisação fica relegada, perde-se a essência.   A gente tem que apostar em fazer boas improvisações, boas histórias, isso sim deve ser o protagonista.
O que mais? Bem, depois continuei com a formação da LPI (Liga Profissional de Improvisação).  A partir daí comecei a desenvolver o Match, com os critérios dos criadores do show. Sempre com relação ao Match há amor e ódio entre os jogadores, improvisadores.  Eu tenho uma teoria de que o Match não transitou muito como formato, muitas vezes as regras são amenizadas um pouco para que os improvisadores se sintam melhor, então se transforma em algo menos exigente para o improvisador. Para improvisar, por exemplo, os clichês são permitidos, as provocações de riso, os árbitros não cobram muitas faltas. Ou seja, os árbitros assim como se fala no futebol (não sei como se fala aqui) mas lá na Argentina se diz que os árbitros “sacan los partidos”.  Muitas vezes se fala também que isso está a serviço do espetáculo, que as faltas não são cobradas a serviço do espetáculo. Mas eu acredito que no Match as faltas fazem parte do espetáculo e têm, o que é muito importante, um conceito pedagógico para o público. O público vai entendendo a mecânica do improviso através das faltas, através do gesto, do que o árbitro fala, através do que aconteceu na improvisação em relação a falta que o árbitro cobra. Então se isso é menos rigoroso, o público sabe menos da improvisação, se perde um pouco o critério pedagógico do Match.
Também há outro conceito dentro Match, que todo esporte tem, que é o conceito de justiça que, muitas vezes, também é deixado de lado. É, finalmente, não sei se você teve a oportunidade de ver algum torneio de Match?

Improvisando: A gente teve a oportunidade de brincar um pouco num torneio amador de Match como conclusão do curso extensivo do Allan Benatti

Ricardo Behrens: Ah, você experimentou um pouco de match? Ah, legal. Então, a competição existe, e em níveis internacionais existe muito, mas há um discurso dúbio: por um lado existe a competição de “ah, eu quero ganhar de qualquer jeito”, por outro, falam para o árbitro “ei, não cobra tanta falta!” porque o principal é isso do espetáculo. E, por outro lado também, as equipes querem ganhar e levar o troféu para casa, então se o árbitro não cobra falta, o critério de justiça perde um pouco o sentido. O jogo se transforma em um vale-tudo, eu falo que se transforma em Match-Catch. O Catch é sem regra, cada um faz o que quer: se quer bloquear o adversário, bloqueia, se quer fazer faltas técnicas, pode fazer, pois o formato permite. Mas o formato do Match se preocupa mais em fazer com que a técnica do improviso esteja presente no jogo, não permitindo fazer qualquer coisa para vencer. Eu participei em muitos torneios que os árbitros não cobravam nada, que as regras não importavam muito, inclusive que não contava com uma regra consensual entre todas as companhias, então isso se transforma em um terreno que ninguém sabe o que vai acontecer lá e assim começam a fazer qualquer coisa para ganhar. Então, é nesse sentido que eu considero complicada a coisa do árbitro não cobrar nada, para entre aspas “privilegiar o espetáculo”.  O árbitro tem que administrar o espetáculo, mas também tem que ser justo com as equipes. Eu arbitrei, por exemplo, uma partida em que um time, era um disputa de terceiro lugar, e o time quase não pôde falar na última improvisação, porque o outro time falava e depois falava um outro e falava outro e outro, então se aí o árbitro não cobrar falta, ele está sendo cúmplice dessa situação, e vai ser uma atuação injusta que leva ao terceiro lugar. Porque o público também muitas vezes vota, tem um outro critério de votação. Então, o árbitro é um pouco o termômetro, equilibra um pouco as coisas. Eu acho legal que o árbitro esteja presente e marque a linha para os jogadores.  Inclusive muitos profissionais na hora de competir e levar o troféu esquecem das regras éticas da improvisação. Todo mundo fala das regras, mas na hora do Match, de uma etapa decisiva, todo mundo esquece. Então, eu acho bom que o árbitro marque a linha.

Improvisando: Em termos gerais, depois de bastante tempo e experiência, o que você hoje entende por improvisação? O que significa para você hoje?

Ricardo Behrens: Hoje, improvisação, primeiro tem a ver com uma visão sobre a vida, eu acho, uma visão filosófica, que tem a ver com a técnica, de aceitação de propostas, de conexão positiva com as propostas, de avançar na história. Eu acho que esses são elementos que são aplicáveis em muitos âmbitos da vida, então vira algo filosófico, eu acho. Também comprovo isso com meus alunos na Argentina, vejo como eles começam o ano e como terminam o ano e sua evolução como jogadores e como pessoas também… Então, mudam muitas, muitas coisas. Muitos são jovens, de 18, 19 ,20 anos, então também vejo como esse crescimento da idade é acompanhado também com a técnica e também com o próprio desenvolvimento. Então, em primeiro lugar eu acho que tem uma ligação direta com a vida, sem que seja uma religião, não? (risos). Mas eu acho muito, muito ligado.
Também em meu trabalho em empresas, eu posso ver como as pessoas gostam de incorporar isso a diversas atividades.
Depois, por outro lado, vejo o que é o espetáculo, o que é a improvisação como espetáculo, que eu acho que já a esta altura deve ser considerado como um gênero, que em quase todos os países da América Latina e América Ibérica ainda estão lutando por um lugar. Felizmente em vários países estão surgindo programas de televisão, isso ajuda a legitimar o gênero, como se populariza, então, todo mundo fica sabendo do que se trata, ainda que não conheça, digamos, as sutilezas do gênero, coisas que são menos populares. Mas eu acho que é bom porque ajuda com que todo mundo saiba do que se trata quando se fala de improvisação.
Então, vejo esta outra possibilidade, que é a possibilidade de espetáculo, da arte em si mesma. E, depois o interior disso tudo, isso que conhecemos somente nós, os improvisadores.
Os diferentes formatos. Eu estou há vários anos pesquisando muito o que é o  Long form, já há vários espetáculos de Long Form na Argentina e vários que já percorreram vários países, como por exemplo, “Improluchas”, como “El Círculo”, um espetáculo que eu dirigi na Argentina. Com “ El Círculo” estivemos no último Festival Iberoamericano, depois estivemos aqui, no Brasil. Com “Improluchas” estivemos na Espanha, em 2005. ” Improluchas” tem um formato que não é um catch, porque é um long form, mas são personagens que estão vestidos com seus figurinos, que têm sua personalidade, sua forma de pensar e, além disso, são quatro personagens e um árbitro, que também é um personagem, e eles mantêm os personagens durante todo o espetáculo, com seu figurino e com seu comportamento, e aí é construída toda uma história com uma hora de duração, depois no final um público vota em um ganhador. Este formato eu fiz em 2004, em 2005 estivemos com ele em Madrid. Bem, long form é um gênero, dentro do gênero, digamos que é algo que é menos popular, mas que é muito interessante para nós, improvisadores, porque nos sentimos com outro tempo, com outra relação, com outra profundidade na construção do personagem,  com outra possibilidade de aprofundar a relação com os outros personagens, muito mais teatral para os atores de formação que nos sentimos mais dentro de um espetáculo de teatro. A improvisação em geral tem essa coisa de rapidez e de velocidade, que às vezes complica e se transforma em algo superficial, tem que ter cuidado para não se transformar em algo superficial, mas para isso existem os diferentes formatos.

Improvisando: Dentro disso que você está me falando, te agrada mais hoje em dia os longforms? Pergunto isso porque você vem de uma formação de Match …

Ricardo Behrens: Eu gosto muito porque como ator me permite colocar para fora mais o ator e menos o improvisador, o improvisador rápido, a rapidez mental, vai por outro caminho, por uma coisa mais literal, mais comprometida nesse sentido também…  A minha pesquisa vai muito a partir de Harold, a partir do livro Truth in Comedy, de (Charna) Halpern, que fala muito de Harold, da maneira como o usam nos Estados Unidos. Os formatos que fiz partem disso, mas depois já vou para outro lado, para a dramaturgia fragmentada, a união de várias histórias, que tem um pouco de Harold. Mas o Harold tem mais monólogo, canções, segue por seus códigos. Acredito que todos os long form têm algo de Harold, é parte do que todos usamos.

Improvisando: A improvisação como técnica tem vários princípios em que se baseia. Pensando inclusive na possibilidade de um público mais leigo, para que conheçam melhor os fundamentos desse gênero, tenho perguntado para cada improvisador o que ele acredita que é fundamental na improvisação. Quais conceitos são os fundamentais na sua visão?

Ricardo Behrens: O fundamental que todos nós improvisadores conhecemos é a aceitação de uma proposta, a construção de uma história coletiva, a construção a partir da aceitação, a adaptação a partir da proposta do outro. Isto significa pegar a proposta do outro de uma maneira positiva, como se fosse própria, defendê-la como se fosse própria e adicionar-lhe coisas como se fosse própria. O trabalho em equipe, o trabalho coletivo passa a ser fundamental. Acredito que se torna fundamental também afastar-se do ego também: se a pessoa aceita proposta do outro como se fosse sua própria, aí a pessoa já está se afastando do ego, é a construção.
Que outro princípio básico? Acho que é isso aí basicamente, a idéia de que não há erro, isso de que todo erro pode ser ressignificado e ser aproveitado para algo, acho que é basicamente isso.

Improvisando: Sei que você é um dos precursores da improvisação na América Latina, mas algum improvisador ou companhia de improvisação te influenciou? Quem hoje você acredita que faz um trabalho parecido com o que você gosta?

Ricardo Behrens: Olha, eu sou muito velinho (risos), fui um dos primeiros improvisadores…

Improvisando: Sim, certamente você é um pioneiro…  Então, quem hoje faz um trabalho de que você gosta…

Ricardo Behrens: Sim, então muitos dos improvisadores que agora estão fazendo coisas foram alunos meus, então… Claro que há gente que eu gosto como trabalha, como o Oski Guzmán na Argentina, ele trabalhou comigo, fomos colegas já. Bem, vejamos de cada país, que eu acho que são mais. No Chile, está o “Panqueque” (do Colectivo Teatral Mamut e do los Improvisadores), também Claudio Espinosa (do LosPleimovil). Bem no Brasil, Márcio BallasCésar (Gouvêa) (do  É Tudo Improviso e do Jogando no Quintal). Agora tenho mais contato com Barbixas, que é muito bom, com códigos muito interessantes, uma busca muito interessante, com um entendimento muito forte entre eles, o que é importante para o grupo. Vejamos, que outro país? Colômbia, Gustavo Miranda (do Accion Impro) e há também o grupo La Gata. Na Espanha, em Madrid tem o Jorge Rueda (do Impromadrid) e também tem o pessoal do Jamming, o pessoal de Por Casualidad. No Uruguai há o pessoal da LPI Uruguai, que também está fazendo algumas coisas. No Peru há o Pataclaun e o Ketó. No Equador um grupo está fazendo match com Hugo Espinoza e também tem Raquel Rodriguez. No México também tem a LIMI, Liga de Mexicana de Improvisação (de Juan Carlos Vives e Ricardo Esquerra) . Acho que tem muitos grupos e novos grupos que estão em formação e que também prometem muito… E é bom que haja jovens que estejam aí montando seus grupos. Um pouco nossa escola na Argentina promove isso, promove que depois de dois anos conosco, os alunos se juntem e formem seus grupos, façam suas apresentações, se deparem com a coisa da produção e de ver o que acontece. Acho interessante essa ideia, que haja muita gente fazendo improviso e vai surgir, como em todos os gêneros, coisas que são excelentes, coisas que são mais ou menos, e coisas ruins. Mas isso acontece também no teatro e em qualquer arte e, então, falamos de um gênero que está em movimento e que está vivo.

Improvisando: Falando no movimento da improvisação… Você estava falando um pouco da TV, da importância da televisão para a improvisação na América Latina. Vários países começaram a ter um espaço de televisão. Qual a dificuldade de transferir um espetáculo, e essa linguagem do espetáculo de teatro, para a televisão? Onde está esta dificuldade e de que forma a improvisação na televisão pode ser boa ou não para o desenvolvimento do gênero?

Ricardo Behrens: A maior dificuldade, eu acredito, pelo que estou vendo, é comunicar ao pessoal de televisão do que se trata, ou seja, a comunicação. Porque o pessoal de televisão está acostumado a outra coisa, então não entende qual é o jogo. Porque a televisão, pelo menos na Argentina, tem bastante improvisação, mas improvisação ruim, ou seja improvisação de coisas feitas assim de qualquer jeito, então não entendem como a improvisação pode ser uma arte. Porque eles estão improvisando todo o tempo, mas de uma maneira horrível. Então aí está a dificuldade: como comunicar que a improvisação é algo em si mesmo? Como explicar a questão da construção da história, dos jogos? Como fazer com que tanto o diretor como a produção e o canal entendam do que se trata? Ao conseguir isso, então, na minha opinião, as coisas começam a ficar mais fáceis. Acho muito interessante o que está acontecendo agora, porque acho que estão encontrando aí a chave da comunicação. Não sei se eu cheguei num momento já avançado da coisa, não sei como foi a princípio, mas evidentemente há um entendimento aí. Isso gera algo muito interessante que tem a ver quase com o teatro. É gerado um clima teatral e isso eu acho fundamental. O fato de o público estar ali ao vivo é gerado o clima teatral… Participando do programa de improviso pude ver que não está tão distante de uma apresentação de teatro. Entretanto, depois é preciso ver também o que acontece com o improvisador na televisão. Eu na Argentina trabalhei em vários programas de televisão e entrei em contato com a câmera e essas coisas. Mas, claro, às vezes os códigos do teatro não são os códigos da TV. É preciso ver como fazer para transferi-los para a televisão e que fiquem bons.

Improvisando: Como o grande propagador do Match na América Latina gostaria que você falasse um pouco sobre esse trabalho. Como se difundiu e surgiram vários grupos? Até me lembrei de mais um grupo de que você não falou, que é o do Match de Improvisação na Venezuela. Como tem se dado essa integração entre os grupos de Match? Como é gerenciado?

Ricardo Behrens: Não, na verdade, nós começamos com uma idéia de difusão de Match a partir da LPI para que o Match chegasse a outros lugares, porque muitas vezes havia entraves, não sabiam como era a questão legal para fazer isso, então a partir do registro autoral que temos na Argentina, posso passar por este registro e isso facilitar as coisas, somente por isso. O que vejo na América Latina é que não há muitos grupos que sustentem o Match como um espetáculo. Na América Latina não tem. Na França e nos países de língua francesa (na Bélgica, Suíça, Canadá) há ligas que funcionam. Mas na América Latina o que acontece é que a dificuldade de fazer teatro leva a reduzir os grupos, a ter grupos menores. Porque é mais fácil de administrar e de divulgar. Então, é difícil sustentar o Match porque demanda uma estrutura maior. Bem, o trabalho que eu fiz foi o de formação na Argentina, depois dei aula no Chile, comecei o primeiro grupo de improvisação no Chile que é o Lospleimovil. Depois também dei aulas na Colômbia, eles também tinham uma experiência prévia com Gigio Giraldo, tanto o pessoal do Acción Impro como o do La Gata. Então depois fui dar aulas no Teatro Nacional, e se formou a partir dessas aulas o primeiro Campeonato Nacional na Colômbia, depois foi realizado no Primeiro Iberoamericano que foi em 2004, aí participamos como companhia. No Equador também, fui o primeiro a dar cursos e foi a primeira experiência com improvisação no Equador. Também dei aulas no Peru para dois grupos já vinham trabalhando, a princípio juntos e naquele momento estavam trabalhando separados, que são o Ketó e o Pataclaun, eu dei aulas na escola do Ketó. Bem, aqui no Brasil, eu tive a primeira experiência no ano de 2001, em Marília e Bauru, dei aulas lá, e nessa época não havia nada de improvisação. Depois em 2005, estive trabalhando com Jogando no Quintal que foi um dos primeiros grupos junto com o Teatro do Nada (de Claudio Amado) do Rio. Bem no México trabalhei dando aulas durante três meses viajando por todo o país, lá trabalhei para empresas e com workshop para particulares também. Enfim, circulei em vários países, deixando a sementinha para que continuem o movimento.

Improvisando: Queria aproveitar então esse comentário que você estava falando anteriormente sobre os movimentos da Improvisação na França, para fazer uma colocação de um improvisador (Ian Parizot)  de um grupo francês (Eux – Compagnie d’ Improvisation). Ele comentou algo curioso a respeito do Catch, que é a essência da improvisação francesa, porque o catch foi fundado lá. E ele acha que houve um prejuízo na formação dos improvisadores franceses como contadores de estórias, com a questão do jogo. E ele tinha essa dúvida com relação aos grupos da América Latina porque ele conhece pouco a improvisação na América Latina. E como o Match é uma coisa bem difundida na América Latina, os festivais latino americanos tem normalmente os campeonatos de Match (recentemente está havendo mais espetáculos de longform) ele teve essa impressão de que talvez a América Latina também tivesse prejuízo na formação dos improvisadores que constroem mais estórias por causa da questão do jogo, do tiro… Entretanto, eu talvez acha que houve uma certa confusão entre formato de jogo e formato de match…

Ricardo Behrens: Ele diz que constroem mais estória ou que não constroem?

Improvisando: A questão dele estava relacionada ao fato de que nos formatos desportivos se constrói menos estórias e que ele acha que o formato de Match como o carro chefe da improvisação latino americana, talvez trouxesse a mesma problemática que ele vê na França, de haver bons jogadores de tiro, mas não muito bons improvisadores contadores de estórias…

Ricardo Behrens: Ah, de jogos… Mas uma coisa é o formato de jogos e outra é o formato de Match. O Match justamente é voltado para a estória. Ou seja, totalmente. Os formatos de jogos não, os formatos de jogos podem ir para outros lados, em que não se constroem histórias e está tudo bem. O Match (e por isso eu acho que é bom como começo, como uma escola de improviso fazer o Match) obriga o jogador a construir uma estória, mesmo livre, sem gênero, totalmente livre e aí vemos realmente a improvisação pura porque não há nenhuma sinalização para a plateia, por exemplo, vamos fazer uma estória de telenovela. No Match você tem a improvisação livre, a improvisação sem gênero, sem pauta de jogo, sem nada, há liberdade total. Então, eu acho que é bom para a formação do improvisador porque adquire a técnica pura, depois a partir daí pode passar para o long form, pode ir a jogos, pode ir aonde quiser.

Improvisando: Então, por fim, respondendo à pergunta do Ian: você acha que houve essa interferência? A base de difusão da Improvisação na América Latina com o Match, acabou gerando mais jogadores, que fazem mais tiro do que improvisadores?

Ricardo Behrens: Não, não acho não. Acho que tem jogadores, em geral tem jogadores contadores de estória. Todos os grupos que citei aqui, são todos grupos que contam histórias, então não acho isso. E o Match justamente, mais uma vez, não é um formato de jogos…

Improvisando: Acho que há aí uma confusão entre o Match ser realizado em formato de torneio, com disputa de jogos. Na verdade ele incentiva a criação de história…

Ricardo Behrens: Incentiva, certo?

Improvisando: Sim acho que é o que eu entendi. Na verdade, na pequena convivência que tive com a base teórica do Match, também tive essa compreensão. Que os jogos no Match exigem muito a capacidade de contar uma boa estória…

Ricardo Behrens: E eu volto à questão do árbitro também. Quando o árbitro vê que não é construída uma estória, ele cobra uma falta, ele cobra a conclusão, se a improvisação é conjunta, se o jogo é demorado, se não se define, se não se avança na história, então…promove a estória.

Improvisando: Por fim, a última coisa que eu gostaria de conversar é sobre o futuro da improvisação. Porque eu acho que está tendo uma difusão maior, está tendo mais intercâmbio, inclusive com os Festivais e os Campeonatos de Match. Então daqui pra frente o que você acha que vai acontecer com a Improvisação? Você estava falando que a improvisação está tendendo a ser um gênero na América Latina…

Ricardo Behrens: Eu acho muito o bom o futuro, mas também acho que os grupos têm que pesquisar, têm que ir além do conhecido e testar, experimentar e arriscar. Aí nesse sentido está também o crescimento do gênero. Se ficamos fazendo as mesmas coisas que funcionam porque o público vai, eu acho que pode ficar medíocre. Tem que pensar em avançar na pesquisa.

Seguem alguns vídeos de Ricardo Behrens. Em entrevista ao  Canal 7 da Argentina, durante o Mundial de Match em Buenos Aires,  no programa É Tudo Improviso e no Improvável com os Barbixas.

Quando pedi a Mari Armellini uma entrevista sobre Improvisação Teatral, através de email, ela decidiu responder-me de forma bem particular.
Ela disse: “Vou ser bem sincera: eu engatinho na improvisação. Vou resumir a minha história com a impro e você veja o que dá pra fazer!”
Criativa e genial, essa que diz tão jovem improvisadora, mas com um histórico de anciã, me concedeu praticamente um artigo, que publico na íntegra, não querendo perder nenhum detalhe do seu raciocínio “palitante”. Lembro que quando concedeu a entrevista, Mari ainda não havia estreiado na televisão. Portanto, atualizando seu atual currículo, Mariana Armellini está em temporada com suas colegas As Olívias no espetáculo As Olivias Palitam e nas telas da rede Bandeirantes com o programa É Tudo Improviso. Também se mantém como uma das principais convidadas do espetáculo de Improvisação Improvável da Cia. Barbixas de Humor. Pode-se também segui-la no Twitter.
“Eu sou atriz, formada pela Escola de Arte Dramática (EAD/ECA – USP).
Antes disso, fiz teatro amador por 8 anos (desde 1993).  Nesse período, os exercícios de improvisação da Viola Spolin eram muito utilizados, mas como exercícios para a atuação propriamente dita.
Dentro da EAD, tive aulas com a  Cristiane Paoli Quito, que trabalhava a improvisação dentro dos espetáculos, como um exercício coletivo – nós ensaiávamos as cenas, criávamos os personagens, mas as “costuras”, a dramaturgia do espetáculo era criado na hora, pelos atores. Com essa técnica, fizemos “Hamlet” (de William Shakespeare), em 2002 e “O Inspetor Geral”  (de Nikolai Gógol), em 2003. A Quito é uma profissional muito reconhecida por seu trabalho com palhaços e também com a improvisação. Cheguei a fazer 6 meses do curso dela de palhaço – muito difícil mas extremamente importante.
Ainda na EAD, tive um professor – que depois dirigiu meu espetáculo de formatura – chamado Antônio Januzelli, o Janô. Ele é considerado um mestre de improvisação, mas não como você conhece – exercícios de cena. As aulas dele priorizavam as relações, nós criávamos relações por horas, sem falas, só trabalhando sensações e corpo. O trabalho dele consiste em levar o ator a chegar em um “estado”, a partir do qual ele seria capaz de realizar qualquer coisa. Esse “estado” é a base da pesquisa dele, e acabou gerando em minha turma um desejo enorme de continuar esse estudo – o que nos levou ao espetáculo “Oito”, dirigido pelo Janô e pela Juliana Jardim, que foi, como eu disse, nosso espetáculo de formatura na EAD.
Depois disso, a improvisação só existia para mim para criar as cenas das Olívias, grupo que formei ainda dentro da EAD. Dentro de nosso espetáculo, As Olívias Palitam, temos um momento de improviso diferente: nós conversamos com o público a partir de temas da atualidade dados por eles.
Quando os meninos dos Barbixas me chamaram para fazer o primeiro Improvável, em novembro de 2007, tudo o que eu tinha era essa formação e a referência do Whose Line, que eu assistia e admirava.
Não fiz nenhum treinamento extra para fazer o primeiro Improvável.
Depois disso, quando conversamos sobre a possibilidade deles continuarem com esse espetáculo e formarem um grupo de convidados preparados para esse tipo de improvisação, comecei a ter treinamentos com o Marcio Ballas – que hoje considero meu mestre dentro da impro.
Fiz workshops com Gustavo Miranda,   (do Acción Impro) da Colombia, e Shawn Kinley, (do  Loose Moose) do Canadá. E sigo treinando com o grupo que acabou se formando a partir do Improvável – que seriam os Barbixas, o Marcio Ballas, o Marco Gonçalves, a Cristiane Wersom, a Marcela Leal e Alan Benatti.
Portanto, não sei dizer quais são os melhores grupos do mundo, não sei dizer o que me inspira (além dos espetáculos Jogando no Quintal e do Caleidoscópio) e não sei definir as bases da improvisação! Apesar de estar nessa há 2 anos, eu engatinho!
O que posso dizer é que o treinamento de impro tem refletido de maneira muito positiva no meu trabalho como atriz – nos longas que eu fiz, em outros espetáculos e mesmo dentro das Olívias.
Por enquanto, ainda estou debruçada no estudo das cenas curtas e jogos de “tiro”, mas adoraria um dia estudar e ser capaz de realizar um long form.
Para terminar, só para te situar no que ando fazendo: continuo com As Olívias – realizando nosso espetáculo As Olívias Palitam e fazendo vídeos curtos para a intenet (uma websérie chamada As Olívias Queimam o Filme). Faço o Improvável como convidada. Em 2009, fui atriz convidada do Grupo XIX de Teatro, para realizar viagens com o espetáculo Hysteria. Na TV, fiz alguns comerciais e participações em programas e no cinema, participei de alguns longa-metragens.”
Seguem dois vídeos: um da websérie das  Olívias, no seu canal do You Tube e mais uma de suas muitas participações geniais no Improvável.

Esse blog abre aspas, dentro do Ciclo de Entrevistas, pedindo licença para falar de Allan Benatti.

Allan Benatti é o palhaço-atleta Chabilson do Jogando no Quintal. Também integra o elenco de Caleidoscópio, Long Form de Impro da trupe, juntamente com Márcio Ballas, Marco Gonçalves e Rhena de Faria. Compõe a seleção brasileira de Impro, juntamente com a mesma equipe do Caleidoscópio, campeã do mundial no Peru e terceiro lugar no mundial do México. Por diversas vezes jogador convidado do espetáculo Improvável da Cia. Barbixas de Humor. Já participou de diversas montagens dentre as mais importantes, pode-se destacar: O Assassinato do Anão do Caralho Grande, O Chá de Alice e O Auto da Compadecida. Trabalha com a linguagem do Clown há mais de dez anos, tendo sido aluno de Léo Bassi, Bete Dorgan e Cristiane Paoli Quito. É professor de Clown e Improviso.

Durante 2 workshops e um curso de 4 meses nesse ano, tive a oportunidade de ter curiosidade, aprender e me entusiasmar pela Improvisação Teatral, convivendo com um professor por natureza. Aliás, creio que algumas qualidades na vida fazem o professor: logicamente o conhecimento adquirido, mas principalmente a curiosidade em continuar a buscar conhecimento e o entusiasmo e a generosidade com que lida com o aprendizado dos alunos. Talvez o professor seja um dos principais personagens em construção de Allan Benatti. Aliás, é bem interessante vê-lo, aqui, falar sobre seu entusiasmo sobre máscaras, construção de personagens e relações. Porque tão interessante quanto conhecer suas opiniões a respeito da Improvisação Teatral, na qual é um de seus personagens principais, é conhecer a própria trajetória de sua vida, que o trouxe por esses caminhos, entremeada por muitos improvisos e muitos personagens.

Improvisando: Queria primeiramente te perguntar sobre como começou sua carreira como ator.

Allan: Eu comecei na verdade, assim, por acaso. Eu comecei a estudar no colegial numa escola técnica que era o Liceu de Artes e Ofício. E aí no segundo ano eu jubilei, fui expulso do Liceu e fiquei perdidinho, sem saber o que fazer.

Foi engraçado porque tinha uma tia minha que quando eu pequeno, tinha dez, onze anos de idade, eu tinha comentado com ela que eu queria fazer teatro. E aí eu já tava com dezesseis para dezessete anos, por aí, nessa época. E ela me vendo perdido chegou pra mim e falou assim: “Ó, você não queria fazer teatro? Vai ter um curso, uma oficina grátis na Oficina Cultural Mazzaropi que eu vi na televisão. Porque você não vai lá fazer? É aqui pertinho.” No primeiro momento quando ela falou, putz, me veio um: “Teatro? Mas por que ela veio me falar de teatro?” Como eu tava mesmo sem saber o que eu ia fazer da vida, pensei: “Vou fazer isso aí.” Aí cheguei lá, tinha uma baita fila enorme para fazer a inscrição e eu passei por acaso.

E foi assim transformador! Porque aí eu descobri um novo mundo e me apaixonei de um jeito que eu comecei a fazer tudo que eu podia ao mesmo tempo em todas as oficinas gratuitas: na Três rios (Oficina Cultural Oswald de Andrade), na Mazzaropi, no Engenho Teatral. E aí no final desse primeiro ano que eu tava fazendo esses cursos eu fui ver um espetáculo que chamava NegraBox que se não me engano era organizado pela Célia Helena. Esse espetáculo era uma co-produção francesa e espanhola. Era uma caixa enorme montada no Ipiranga que devia ter uns cinco por cinco metros de altura. Eu achei um espetáculo incrível e eu sabia que era palhaço, mas só que eles não usavam máscara de palhaço, era um outro tipo de linguagem de palhaço que não era a que eu tinha como referência como o de circo ou de picadeiro. E foi impressionante que eu tinha certeza que era palhaço mesmo com pouco conhecimento e eu pensei: “Meu, eu quero fazer um curso de palhaço.”

No semestre seguinte, em janeiro, abriu turma para fazer curso com a Cida Almeida, que é uma palhaça super clássica. Só que olha as coincidências da vida, que não são coincidências, na verdade. Acabou que a Cida tava grávida de gêmeos, uma gravidez frágil, e tinha que ficar em repouso e não pode dar o curso. Então convidou a Bete (Dorgam) pra ir dar o curso no lugar dela. E aí foi paixão à primeira vista, de imediato, e fiquei quatro anos seguidos estudando com a Bete de janeiro a dezembro. Os primeiros anos foram bem de estudo e o grupo (eu, o Denis (Goyos) , a Gabi (Argento) e a Karin (Frutig)) convidou ela para dirigir um espetáculo. No primeiro momento ela falou: “não, não quero.” A gente continuou trabalhando porque a gente queria montar um espetáculo juntos e dois meses depois ela falou: “Olha, eu topo, se vocês toparem ser minha tese de doutorado.” E aí a gente começou todo um processo, né? Ficamos dois anos em cima de muitos elementos que ela dava a partir do capítulo sete do Alice no País das Maravilhas que é o Chá Muito Louco e aí o resultado foi o Chá de Alice que é um espetáculo completamente inspirado nesse capítulo.

Nessa época, enquanto a gente tava fazendo o Chá de Alice, o Márcio (Ballas) voltou e eu prestei o teste para os Doutores da Alegria. Foi aí que eu conheci o Márcio, foi a primeira vez que a gente se viu. E foi uma afinidade muito grande de primeiro momento. Aí eu não passei, ele passou, a gente continuou as coisas da vida…

Depois de um ano e pouco, o Chá de Alice tava bombando, a todo vapor ainda. Nós ficamos com ele uns 4 anos, tudo bem espaçado: era uma apresentação em janeiro, outra em setembro. Tivemos uma temporada mais longa…

Nessa época ele me convidou: ele já estava treinando com o César (Gouvêa) e com a Paulinha (Paola Musatti) e estavam começando a testar o Jogando no Quintal. O primeiro time a ser convidado para fazer os testes do Jogando no Quintal foi eu, a Gabi e o Dênis. E a partir desse jogo, eles perceberam que não dava pra fazer o espetáculo sem treinar, sem ensaiar. E aí eles começaram a chamar as pessoas para começar a treinar, mais ou menos em março. Quando foi em setembro, nós fizemos a primeira apresentação aberta, se não me engano a gente nem cobrou, foi bem para amigos, umas 30 a 50 pessoas. A gente começou a cobrar no mês seguinte. Então acho que o aniversário do Jogando se não me engano é em outubro, por aí. E aí toda a estória do Jogando que de um quintal foi para um quintal maior, um quintal maior, um quintal maior. Então, toda minha pesquisa acabou se criando dentro da máscara do palhaço mesmo.

De teatro eu cheguei a fazer algumas coisas, espetáculos como O Assassinato do Anão do Caralho Grande, que também como experiência foi fundamental. Porque como era muita gente em cena, eu também consegui degustar a possibilidade de você viver uma máscara, não fazer uma máscara. Porque o Marcão (Marco Antônio Rodrigues) era muito exigente. E foi muito gostoso fazer isso, também estudando junto com o palhaço.

Então, eu comecei a perceber que eu gosto desses personagens, de viver personagens, e acho que to criando uma relação da improvisação da máscara, da vivência da improvisação. A gente acaba trabalhando muito mais na relação propriamente dita, no como eu me relaciono, do que em qualquer outra teoria da improvisação. Quando a gente (Márcio Ballas, Marco Gonçalves e Rhena de Faria) começou a estudar o Caleidoscópio, isso ficou ainda mais acentuado. Porque antes eu já fazia personagens, mas a possibilidade de você, num long form, viver um mesmo personagem por 5 minutos, me trouxe experiências muito boas de palco, de cena, de compreensão da máscara, de compreensão do personagem, da relação, do caminho do respeito, né?

Porque é isso que a gente procura. Se eu to procurando a relação na improvisação também eu imagino, pelo menos para mim, não ser possível eu me relacionar de outra maneira na vida. Então em tudo: desde com minha namorada, com meus amigos com tudo, eu procuro me relacionar com a verdade que eu procuro me relacionar quando eu visto uma máscara na cena. Pra mim esse é o mistério que eu to investigando ainda mais que eu acho que é, pra mim, o que me dá mais prazer e é mais essencial.

Improvisando: Fale um pouquinho sobre os trabalhos com que você está envolvido no momento. Você falou do Jogando no Quintal, do Caleidoscópio…

Allan: Sim, estou trabalhando com o Jogando, o Caleidoscópio. Eu também dou aulas. Eu faço bastantes trabalhos em empresas também, que na verdade são trabalhos que eu pego um briefing específico de uma coisa e desenvolvo numa cena. Então eu também crio roteiros nos quais não faço textos fechados nunca, sempre me baseando na improvisação. Eu pego o briefing, chamo algumas pessoas para trabalhar que são do Jogando e a gente faz a cena inspirado nesse roteiro para seguir um pouco do que eles desejam. Por exemplo, a empresa diz: “Ah, a gente precisa trabalhar a venda.“ Então a gente trabalha com o humor, e geralmente, disassocia da relação com a empresa, levando para uma relação cotidiana, com palavras-chave, com justamente os pontos que eles precisam trabalhar.

Improvisando: E como a Improvisação entrou na sua carreira?

Allan: A partir do momento que eu entrei no Jogando no Quintal. Só que no início do Jogando no Quintal, o primeiro momento de improvisação foi a improvisação do Palhaço.

O Cris (Karnas) entrou e começou a ministrar contato-improvisação que é uma coisa que até hoje eu adoro e quero estudar mais também. A gente trabalhou bastante com essa técnica de ideokinesis nessa parte da improvisação, e trabalhou contato-improvisação. Essa técnica entra numa relação de improviso corporal que pra mim é importantíssimo também. Gosto muito do conhecimento corporal para poder improvisar corporalmente.

Com relação ao Improviso em si, no Brasil, a gente não conhecia ninguém. A única pessoa que a gente conhecia era a Vera (Achatkin) que dirigia um grupo de Teatro Esporte. No início nós tentamos entrar em contato com ela, tentamos nos oferecer de pesquisar com ela, mas não rolou.

E aí a primeira aula de improvisação foi com o Leon e com uma menina que eu não lembro o nome, que tinham recém voltado da Espanha após um curso com o Impromadrid e foram eles que deram as primeiras idéias de técnica de improvisação pra gente. Depois foi a Mariana Muniz. E daí com os festivais, estudamos com o Acción Impro, o Impromadrid… Esses intercâmbios foram fundamentais para começar a ter a compreensão do que é tudo isso.

Improvisando: E qual compreensão você tem de tudo isso hoje? O que é a Improvisação Teatral para você?

Allan: Pra mim na Improvisação o fundamental é a escuta. É você estar em cena livre e solto, sem peso, sem carga, sem pressão. Com uma escuta, porque se você tiver com a escuta você vai estar dentro do que o Shawn (Kinley) chama de Circulo de Possibilidades. E é muito importante também, pra mim, estar livre de qualquer ego, de qualquer coisa que te pressione também. Porque se você está cheio de ego, você tem uma autocrítica maior, você tem que cumprir uma meta que é fazer o público rir e tentar ser melhor até que seu parceiro que está em cena. Ou então quando você está em cena e riem do seu parceiro ,te dando uma trava porque “Riram de você? O que eu tenho que fazer para rirem de mim?” Então, pra mim, Improvisar é estar livre de ego e de qualquer tipo de pressão e ter escuta, pra poder brilhar junto, jogando junto.

Improvisando: Gostaria que você falasse um pouco sobre essa particularidade do Jogando no Quintal que é a relação do Improviso com o Palhaço. Como é vivenciar essa relação tão ambivalente? Como essas duas vertentes se aproximam, como se diferem? Como dar coesão a elas?

Allan: Esse é um pensamento que a gente procura exercitar sempre. O palhaço é improvisador por natureza, só que a improvisação dele é muito mais momentânea. Não tem uma preocupação com que estória eu vou contar, que linha dramatúrgica… Eu vou procurar uma linha dramatúrgica? Não existe isso, ele é mais do acontecimento. A gente ta aqui e acontece de uma latinha cair, por exemplo. Na improvisação, é muito melhor quando essa latinha cai porque precisava cair do que ser um acontecimento atrapalhado. No palhaço os acontecimentos atrapalhados tomam uma importância muito grande, na improvisação o acontecimento atrapalhado pode ser uma desculpa para alguma coisa. Pode ser a característica de um personagem, pode virar uma desculpa para a característica de um personagem. No palhaço não, esse personagem já é por natureza. Então ele pode voar muito mais, sem se preocupar com a lógica, porque a lógica já é dele. Ele já tem sua própria lógica. O improvisador, acredito, procura traçar uma lógica um pouquinho mais… Não realista, ela pode ser fantasiosa, mas que ela seja lógica em tempo integral. O palhaço não necessita disso. Uma outra diferença é que o palhaço é uma figura solitária por natureza, o improvisador pode ser uma figura solitária mas não necessariamente ele é uma figura solitária por natureza.

Só que tem muitas outras coisas que coincidem muito, em muitos pontos. Por exemplo, a escuta no palhaço também é fundamental, acho que é o ponto mais fundamental nos dois. Você tem que estar presente e tem que estar vazio, estar livre de pressão de qualquer pensamento, deixar o pensamento vir. Os dois também trabalham bastante com a relação. Por exemplo, “como eu me relaciono com o outro palhaço?”

Improvisando: E quem são os Improvisadores que tem te inspirado na realização do seu trabalho? Lembro-me de você ter me dito algo sobre o Shawn (Kinley) e o Savignone (Marcelo Savignone)…

Allan: Justamente. Shawn (Kinley) foi pra mim catártico. Essa estória da inspiração, de jogar para o outro. Intuitivamente a gente já até tem essa característica, mas ele consegue verbalizar isso e tem um olhar muito específico, muito pontual. Então em muitos momentos, acontecem coisas durante uma improvisação que após a cena ele fala pontualmente pra você e te ajuda a conseguir detectar. A improvisação tem uma coisa muito boa que é o fato de que observar ensina bastante. Quando eu to dentro de uma improvisação é muito difícil eu conseguir me observar. Porém com o olhar de fora dele, quando ele me pontuava, eu puxava na minha mente a cena e conseguia visualizar esse momento. Então era como se eu tivesse vendo o que tinha acontecido. Foi extremamente didático, aprendi muito com o Shawn.

O (Marcelo) Savignone, pra mim foi o click de que, eu quero fazer essa pesquisa das máscaras, não necessariamente utilizar a máscara como ele utiliza. Mas ele me inspira de lembrar, ele me inspira muito, porque ele é muito virtuoso. Desconstrução de máscaras, de personagens… Era uma pesquisa que já anterior a ele eu já tinha interesse em fazer. Daí quando eu chego, logo no primeiro festival, e vejo um espetáculo como o Sincro? Fiquei passado! Porque é uma habilidade de trocar o personagem e manter o mesmo personagem e você vê que não é uma interpretação, é uma vivência e que acontece na hora. E ele ainda junta o contato-improvisação que é uma coisa que eu adoro também. E música também. Improvisando em todas as áreas! Eu saí do espetáculo falando: “eu quero fazer uma coisa assim!” Sabe? Então é muito inspirador. O Vivo então é mais declarado ainda! Porque é a máscara, né? É a máscara e a relação. É um diálogo com a platéia e de repente acontece a cena. É como um contador de estórias também. E me fascinou, e me fascina e pretendo muito fazer um curso com ele em breve, mais tardar março.

Improvisando: E com relação a Companhias Teatrais no seu trabalho conjunto? Que companhias te agradam no seu trabalho?

Allan: Olha, dos que eu conheço… Españo hablantes a grande maioria, pra mim é parceira e só tem qualidade.

Os mexicanos (Complot/ Escena) tem uma agilidade, um poder de raciocínio. Nem sem como explicar. Eles conseguem abrir os cabos (de idéias), numa improvisação. Por exemplo, você ta numa linha dramatúrgica, você abre um cabo, geralmente você sente uma dificuldade de fazer linkar esses cabos que foram soltos com o cabo principal. Eles tem uma linha dramatúrgica inicial e abrem os cabos e vão conectando muito rápido. É como se eu abrisse um cabo aqui e na fala seguinte já estaria fechando o cabo. Então eles te supreendem a todo momento. Porque o cara fala alguma coisa e você pensa: “O quê?” Mas já na fala seguinte já: “Ah! Entendi.“ Já faz a lógica. E eles são muito bons nisso, são muito hábeis.

O Acción Impro tem uma expressão corporal que poucas companhias que eu conheço tem. Também são muito rápidos, são muito bons em estilos, são muito bons atores. Então o Tríptico é um espetáculo que me envolve de uma maneira… Cada vez que eu vejo me envolve mais, não é que nem um espetáculo de improvisação que você chega e você fala: “Ah, tá, tem essa estrutura, entendi essa estrutura.”  E depois de um tempo você vai falar: ”Ah, mas eu já conheço, já sei como é que é.” Como o próprio Jogando no Quintal acaba acontecendo. As pessoas vão assistir cinco, sete vezes e depois precisa dar um tempinho, só vai assistir de novo dali um ano, dois. Natural. O Tríptico não tem essa característica, é o oposto. Cada vez que eu assisto, me encanto mais pelo espetáculo.

Os espanhóis (Impormadrid) pra mim são mestres. Mestres de uma tranqüilidade, de uma escuta. Aprender escuta com os espanhóis é a coisa mais incrível do mundo. Tem outro ritmo, por exemplo, dos mexicanos e dos colombianos. Eles tem agilidade, mas eu acho que não é o que é interessante para eles. Porque eles gostam de jogar junto com as pessoas, num tempo, num ritmo… Muito um pouco realista, às vezes. Mesmo num universo fantástico eles trazem para uma realidade possível para você.

E o Mamut (Colectivo Teatral Mamut) pra mim… No primeiro momento que eu conheci o Mamut eu tive a sensação de que, como com o Marcelo Savignone, eu precisava trabalhar com esses caras. E até hoje, pra mim, o Mamut também é uma companhia que… são muito generosos todos eles, eles tem uma coisa como todo chileno, muito política, muito ética de querer transformação. Mesmo dentro da improvisação ou fora da improvisação, eu acho que eles procuram uma transformação. Eles são muito politizados, todos eles. E isso me encanta! Os mexicanos também, mas acho que os chilenos ainda mais até pela História deles e tudo mais.  E eu e o Mário (Escobar)  a gente tem uma afinidade que é coisa de irmão. Sou irmão do Mário, do Panqueque (Sérgio Molina), do Nico (Nicolás Belmar), da Juanita (Urrejola), da Mônica (Moya)… Aí é uma outra relação, sabe? Me deu até saudade, me deu vontade de escrever para eles. (Sorri, bastante emocionado). Eu sou muito displicente com essas coisas…

Improvisando: Acho que de alguma forma você já falou bastante sobre isso, mas gostaria muito de saber qual seu atual interesse em termos de formatos de Improvisação. Você faz o Jogando no Quintal, o Improvável, com formato de jogos de Improvisação. Mas também está fazendo o Caleidoscópio que é um Long Form. O que te dá mais prazer em cena? O que te interessa mais em termos de pesquisa? Porque a questão da máscara que você ressaltou é um pouco diferente, né?

Allan: É, é uma outra coisa. Mas, é isso que eu falo. Assim como no Jogando que a gente mistura o Palhaço com a Improvisação, a máscara pra mim pode ser a máscara como na França, por exemplo. Quando você chega no Castelo, você tira a máscara, mas o personagem se mantém. Então a construção de um personagem, também acho que é uma máscara. E a máscara trabalha dentro da relação. Por isso acho que pra mim, está me instigando mais o Long Form hoje em dia, em que posso construir o personagem e a relação. É o que me da mais inspiração e prazer em estar em cena. É onde eu não preciso fazer piada, eu posso simplesmente fazer uma cena bonita, simplesmente fazer uma imagem que me dá prazer.

Acho que espetáculos de curto formato, jogos, outras coisas, me divertem muito, então eu gosto muito de fazer isso também, porque é o momento de criar piada, de se divertir, de não se preocupar muito com a dramaturgia… Às vezes você se perde no meio da improvisação e tudo bem. Perdeu a personagem no meio de uma improvisação, a luta é que não aconteça isso, mas dentro de um jogo curto, é menos impactante para a platéia.

Num Long Form isso é quase imperdoável, você cria um personagem que sai de cena, e não volta mais? Perde-se a resolução da coisa. Num espetáculo de formato curto não, se o jogo foi divertido, tudo bem, não tem problema, né?

Enfim, eu me divirto muito com formato curto, gosto de fazer formato curto, mas hoje em dia pra mim, o que me dá mais tesão é fazer Long Form.

Improvisando: Você falou muito em relação, fala-se muito na questão da relação na Improvisação.  É claro que todos os princípios da Improvisação são importantes, mas você acredita que a questão da relação é o princípio mais pesquisado na Improvisação hoje?

Allan: Não sei se diretamente isso, né? Acho que tem uma pesquisa na Improvisação com relação à Dramaturgia também muito forte. Essa questão que a Rhena (de Faria) levanta muito, e que eu acho fantástico que é um exercício que eu procuro fazer. Até porque tenho menos afinidade do que todo mundo do Caleidoscópio. A questão: “De que estória que eu to contando? De que to falando?” Então essa pesquisa vem em primeiro plano. Eu acho fundamental. Pra mim ela tem que correr paralela a isso que me dá mais prazer que é a relação e o personagem. Mas eu tenho mais prazer nessa pesquisa da relação.

Improvisando: Para terminar, o que você visualiza no futuro da Improvisação?. Um boom de espetáculo de Jogos? Um direcionamento para espetáculos long form? Outras pesquisas?

Allan: Bom é muito difícil falar sobre futuro, né? Mas em todos os países que a gente foi, todas as companhias começam com espetáculos de jogos e a partir deles, passaram para espetáculos de long form. Eu acho isso muito importante porque são nesses espetáculos de jogos que você consegue aplicar mais rapidamente os conceitos de escuta, de estar livre de estar em cena, de motor, de plataforma… Neles, você consegue inserir isso dentro de você, eu acho. Para enfim, quando você tiver num long form, isso sair naturalmente, isso aparecer, você não ter que fazer esforço, você não precisar pensar. Ao invés de pensar, você consegue identificar: “Está faltando mais plataforma… Putz, acho que o público está precisando mais de uma imagem… “

Às vezes acontece até o oposto. Depois do espetáculo, que é o que tem acontecido bastante no Caleidoscópio, você diz: “Nossa, hoje a gente foi muito imagético! Nossa hoje a gente ficou muito verbal e não criou muitas imagens!” Que é a escuta coletiva. É o que o Márcio (Ballas) diz, da consciência do grupo, do pensamento do grupo, que é um terceiro, um fator fora.

O que vai acontecer? Tenho a intuição de que ainda vai ter uma explosão bem grande de espetáculos de jogos, cada vez mais. Os Barbixas conseguiram abrir assim essa porta, pela porta da frente. Então surgiram muitos grupos e eu tenho trabalhado com alguns deles. Acho que é interessante que isso se multiplique mesmo, porque isso também apresenta a Improvisação para o público. Por mais que hoje já tenha espetáculos Long Form, ainda não é de conhecimento geral das pessoas a Improvisação, ainda existe muitas pessoas que não conhecem improvisação, existe muitas pessoas que nem sequer conhecem teatro. Não sabem nem o que é teatro, improvisação pior ainda. Então eu acho que é muito legal se acontecer de ter uma explosão de jogos de improvisação, para difundir isso de uma maneira astronômica, para aí então começar o surgimento desses outros espetáculos Long Form. Ainda é tudo muito igual para as pessoas a Improvisação, é muito próximo até de coisas de humor que não são relacionados à Improvisação como stand up ou então stand up de personagens também. As pessoas confundem com Improvisação e é compreensível, porque quem faz stand-up procura trazer o texto para uma naturalidade e a improvisação traz essa naturalidade porque tudo esta sendo criado na hora.

Enfim, acho que quando tiver essa profusão de espetáculos, vai começar a surgir diferentes formatos de long form, e aí o público vai conseguir entender o que é Improvisação e o que é long form. Porque quando o público que vai num espetáculo de jogo chega num long form, às vezes não vai se divertir tanto. Se for num long form tipo Tríptico, por exemplo, que é um espetáculo mais dramático, que é uma densidade de interpretação, que você pode até ao oposto de rir, chorar… O público que vai pra assistir um jogo quer rir e vai sair decepcionado disso!

Então acho que a Improvisação precisa ainda se difundir muito mais, para que as pessoas conheçam melhor, para surgir mais long forms, e quem sabe até surgir outras coisas por aí também.

Seguem dois vídeos: no Improvável e como o palhaço Chabilson no quadro do Jogando no Quintal no Programa Novo, que foi ao ar na TV Cultura entre 8 de setembro e 5 de novembro.