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Ontem foi dia de Brasil no Festival Los Improvisadores, no Teatro Oriente, Santiago, Chile.

Apresentou-se Caleidoscópio, do Jogando no Quintal. Allan Benatti, Marco Gonçalves, Marcio Ballas, Rhena de Faria, Cristiano Meirelles e Ernani Sanchez (iluminação) fizeram um trabalho belíssimo, como de costume, nos orgulhando muitíssimo brasileiros, nesse festival.

Para quem não conhece seu formato, o espetáculo inicia com pequenos depoimentos de lembranças vividas nas vidas pessoais de cada um dos improvisadores. Cada estória leva a perguntar para plateia plataformas que vem também de suas vivências pessoais. As cinco plataformas colhidas do público servirão de inspiração para a criação de cinco estórias, que em meio ao espetáculo se entrelaçam.

Mais uma vez me impressionou a beleza das estórias contadas, o poder da criação de imagens, o carisma que ganha facilmente o público e por fim a capacidade de contruir a interligação das estórias de forma tão concisa e ao mesmo tempo tão suave.

A noite se seguiu com o espetáculo Mosaico.

Formato de improvisação em que são solicitadas plataformas ao público que serão utilizadas como inspiração para todas as diversas cenas criadas por grupos distintos de atores que estarão em cena, sob direção de Sergio Panqueque Molina, do Colectivo Teatral Mamut. Foram pedidos uma frase, um lugar, um sentimento, um objeto e algo que caracterizava uma cultura.

Foram convidados 20 jogadores de distintos países.

Alemanha: Nadine Antler e Florian Toperngpong (Die Kaktussen).

Argentina: Omar Argentino Galván (Improtour), Pau Farias e Rodrigo Bello (Improcrash).

Brasil: Guilherme Tomé (É Tudo Improviso e Olaria GB), Marcio Ballas (Jogando no Quintal e É Tudo Improviso), Mateus Bianchim e Rhena de Faria (Jogando no Quintal).

Chile: Mali (Los Improvisadores), Mario Escobar Olea, Monica Moya e Nico Belmár (Colectivo Teatral Mamut e Los Improvisadores).

Colômbia: Daniel Orrantia, Juan Gabriel Turbay e Mabel Moreno (La Gata Impro).

Espanha: Ignácio Lopez e Ignacio Soriano (Impromadrid).

México: Angélica Rogel, José Luis Saldaña e Juan Carlos Medellín (Complot Escena).

 

Hoje é dia de Corten, do Impromadrid da Espanha e Más Menos com participação de integrantes do mundo todo.

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Tive a felicidade de conhecer Débora Vieira há poucos dias.  Vi pessoalmente, a mesma atriz que imaginava tão apaixonada pelas artes, em particular pela Improvisação Teatral. E é com essa mesma paixão, que ela relata aqui suas impressões sobre esse mundo da Improvisação Teatral e a luta para erguer seu espetáculo Dos Gardenias.

1)      Gostaria que vc começasse resumindo os trabalhos com os quais vc está envolvida hoje.

Eu faço parte da UMA Companhia, de Belo Horizonte, de cuja formação fiz parte. Trabalhamos com improvisação desde 2006, e temos 3 espetáculos em repertório, o Match de Improvisação, no qual eu atuo como jogadora e como juíza, e o Sobre Nós, do qual eu não faço parte, porque, quando da montagem, eu estava montando um outro trabalho de teatro, o espetáculo Cortiços, junto à Companhia de Teatro Luna Lunera, de Belo Horizonte. E, também, nosso último trabalho, que acabou de estrear, o Dos Gardenias Social Club (clipping), trabalho de minha concepção e direção, e no qual também atuo.

Além disso, também ajudo a coordenar as atividades da UMA Escola de Impro, aqui em Belo Horizonte. Oferecemos cursos regulares para pessoas com e sem experiência em teatro, e realizamos, com os alunos, aulas abertas e o espetáculo Mister Impro, na conclusão do semestre.

Minha dissertação de mestrado, em desenvolvimento no Poslit da UFMG, também é sobre improvisação. Eu estudo a dramaturgia da improvisação, propondo um estudo comparativo entre a comédia dell’arte e os espetáculos improvisados na atualidade, mais especificamente o Humor Mierda, do grupo mexicano Complot Escena, e também o Caleidoscópio, do Jogando no Quintal.

2) O que é Improvisação Teatral? Quais são os princípios em que se embasa?
Acho que a improvisação é um banquete composto de comida para todos os gostos… e eu ainda estou desfrutando a entrada. Há todo um mundo a ser descoberto no campo da impro, mas o que mais me instiga é a certeza de que, mesmo quando já estivermos saboreando a sobremesa, isso deve ser feito com os mesmos princípios do começo: a tranqüilidade, a generosidade com o que se experimenta e também com aqueles que compartilham da mesma mesa, a capacidade de degustar cada pedaço de cada prato. Vendo os grupos mais experientes, que muito me inspiram, percebo que toda a perícia e virtuose deles só é possível porque eles se aprofundaram nas premissas básicas da impro: a cumplicidade com o companheiro de cena, a sinceridade consigo mesmo e a disposição para desfrutar do trabalho que se realiza. A partir disso, o que mudam são os desejos artísticos de cada grupo, de cada artista, e é o que vai dar o tom de cada trabalho…


3) Como surgiu a Improvisação na sua carreira?

Surgiu em 2006, sem eu ter necessariamente escolhido isso. A Mariana Muniz, que há pouco havia voltado da Espanha, onde trabalhou durante anos com o Impromadrid, postulou uma vaga para dirigir a montagem do curso profissionalizante de teatro que eu fazia, no Centro de Formação Artística (CEFAR), do Palácio das Artes. Ela nos apresentou a linguagem, o treinamento, e dirigiu o Match de Improvisação. No meu caso, foi uma experiência cheia de altos e baixos, já que eu de cara me defrontei com muitos bloqueios. Mas eu resolvi agarrar o boi pelo chifre, já que tem muitas coisas que me atraem na impro. A impro vicia, não? A sensação de que se pode tudo (ainda que saibamos que não é bem assim…), de que se pode celebrar um encontro a cada cena… Isso é mágico!
Considero, também, que em 2009 a impro surgiu na minha vida por uma segunda vez, quando eu fiz uma oficina com o canadense Shawn Kinley. Na época eu morava no Chile, estudava a impro junto ao Colectivo Mamut, e acho que o encontro com o Shawn mudou todas as minhas perspectivas a respeito dessa linguagem.

4) Recentemente Allan Benatti comentava comigo a dúvida que tinha com relação à escassez de mulheres no Improviso. A que você acha que se deve essa constatação? Quais as contribuições diferentes que a mulher pode trazer para a Impro?

Bom, é uma pergunta curiosa, porque no começo do nosso grupo, éramos 10 atores, dos quais 7 eram mulheres. Quando participamos do nosso primeiro festival internacional, a convite do Jogando no Quintal, vários grupos comentavam o quão feminino era o nosso grupo! No Fimpro, que realizamos em 2008, e depois no Improfestin (Chile), tive contato com inúmeros outros grupos, e pude perceber que, de fato, a impro ainda é uma linguagem predominantemente masculina, e eu penso muito sobre isso. A questão de gênero é algo que me toca profundamente, tenho inclusive uma simpatia muito forte por algumas pensadores e artistas que atuam no campo do feminismo. E, nesse sentido, me coloco sempre a pergunta sobre qual seria uma expressão feminina na impro. Às vezes eu acho que, puxa, temos toda uma história do teatro construída por homens… os diretores, dramaturgos, encenadores, atores… Daí me questiono até que ponto a inserção das mulheres na produção cênica não se fez, também, por uma via masculina. Como se nós tivéssemos entrado para um jogo com as regras já mais ou menos estabelecidas, e não nos restasse muito a não ser seguir essas regras. Claro que falando assim a coisa parece muito rígida, e eu sei que os processos, sobretudo os artísticos, são mais dinâmicos…

Mas nesse campo entra a impro… a maioria imensa das cenas que eu assisto e que tratam, por exemplo, dos padrões de comportamento sexual, o fazem sob uma ótica masculina. E, quando há uma inversão, sinto que trata-se simplesmente de uma inversão que tem como ponto de partida o discurso anterior, ou seja, é uma inversão apenas caricatural, ilustrativa.

E isso me inquieta muito… No primeiro semestre de 2010, inclusive, comecei a desenvolver um trabalho de investigação nesse sentido, aqui em Belo Horizonte, com várias meninas interessadas no tema… 4 atrizes improvisadoras, dentre as quais 2 são palhaças, e uma bailarina. Os encontros foram poucos (a famosa agenda…), mas a vontade de ver qual é ainda é muita.
5) Quem são os improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?
Todos os meninos da UMA Companhia, por seguirmos juntos apesar da falta de recursos; o Assis Vidigal, parceiro na UMA, pela inteligência e generosidade; a Angélica Rogel, do Complot Escena, pela delicadeza forte, pela inteligência dramatúrgica; O Marcio Ballas, do Jogando, e o Panqueque, do Colectivo Mamut, pela eterna capacidade de me surpreender e me fazer sorrir; o Gustavo Miranda, do Acción Impro, pela versatilidade; o Marcelo Savignone, pela inteligência e pela técnica e, finalmente, o Shawn Kinley, mestre em todos os sentidos!
6) Quais companhias no mundo você acredita que hoje fazem os trabalhos mais incríveis?
Atualmente eu ando muito encantada com o trabalho do grupo Complot Escena. Acho que eles têm um domínio técnico incrível, e utilizam essa potencialidade sem abrir mão da diversão e da subversão da própria técnica. Poderia também citar grupos como Loose Moose e Second City, mas acho que prefiro escolher uma inspiração mais acessível, rs.
7) O que mais tem te trazido interesse na Improvisação hoje? Jogos de Improvisação ou Espetáculos mais LongForm?

Long Form. Os espetáculos de jogo – que ainda são a maioria nos repertórios dos grupos da América Latina – me cansaram um pouco, fico com a sensação de que é quase tudo muito igual. Acho que há muitos grupos acomodados com a grande receptividade do público para com essa modalidade. Eu até acho positivo, gosto muito do trabalho de diversos grupos, continuo achando um fenômeno muito significativo para o teatro. Mas no meu caso, já estou a fim de investigar outros matizes da impro…

8) Pra onde vai a Impro? (o futuro)

Acho que ela já está num caminho muito bacana… vejo muita gente se apropriando da técnica e fazendo dela um ponto de partida para investigações de outra ordem, e eu acho que é isso que vai manter essa linguagem viva e sempre interessante!

9) Quais são as dificuldades executivas de um grupo no mercado da  Improvisação? Como a UMA Companhia tem conseguido se estabelecer nesse mercado? Quais são as perspectivas e projetos do seu grupo?

No caso de Belo Horizonte, somos o único grupo que realiza uma pesquisa contínua no campo da improvisação. E acho que, pela nossa formação, e também por nossos anseios artísticos, sempre tentamos nos inserir no mercado teatral em sentido amplo. Nunca pensamos em criar um mercado (de produção ou de público) específico para a impro, o que tem suas vantagens e desvantagens, porque nos vemos num não-lugar criativo e também mercadológico: não realizamos um teatro “comercial” o bastante para termos sempre casa cheia e vivermos de bilheteria, tampouco um teatro “experimental” o suficiente para conseguirmos manter o trabalho do grupo via leis de incentivo.

De qualquer forma, o que eu posso dizer a respeito da realidade do mercado relaciona-se mais com o cenário das artes cênicas do que especificamente da improvisação teatral.

Acho que as políticas públicas para a cultura no Brasil ainda engatinham. No caso de Minas Gerais, engatinham usando patinete: são tímidas e inconstantes. Acho que falta conscientização da classe artística a respeito do potencial mercadológico da produção cultural, e falta também competência aos gestores públicos para perceber que o investimento na cultura gera empregos, circulação de capital, além de uma imensa gama de valores agregados, tudo isso com um baixo impacto ambiental. Paralelamente à escassez de recursos, a demanda por financiamento tem crescido muito… Tudo isso dificulta bastante o nosso trabalho.

No caso específico da impro, eu não disponho de dados concretos para fazer uma análise do mercado da improvisação no Brasil. Acho que poucos grupos conseguem sobreviver do trabalho com a impro atualmente no Brasil.

Nós temos quatro anos de trajetória, e até hoje, posso afirmar que pagamos para fazer o que fazemos. Fizemos neste segundo semestre uma temporada de um mês [sexta a domingo] em um teatro daqui de BH, começamos com uma média super pequena de público e encerramos a temporada com casa lotada. No fim das contas, só conseguimos cobrir as despesas com teatro, divulgação, direção, produção…

Além disso, custeamos um investimento constante em nossa formação: oficinas, participação em festivais nacionais e internacionais (ressalte-se que 4 membros do grupo realizam pesquisas acadêmicas a respeito da impro).

E ainda pagamos aluguel de espaço para ensaiar e financiamos com nosso próprio esforço e dinheiro nossos dois longforms.

A realização do Dos Gardenias Social Club só foi possível porque fomos aprovados em um edital da Cia Clara, de BH, que nos ofereceu local de ensaio e de apresentação, além do material de divulgação.

Conseguimos um apoio de R$2.000,00 e realizamos, na cara de pau, uma vaquinha virtual, pedindo aos amigos que contribuíssem. A vaquinha nos rendeu a grata surpresa de R$1000,00, e com isso pagamos o cenário. Então, com R$3000,00, somados à imensurável dedicação de improvisadores, professores de dança, iluminadores e músicos (que também trabalharam sem receber nada, nem ajuda de custos), conseguimos erguer um trabalho do qual eu tenho muito orgulho… não apenas pelo resultado, mas pelo que significa, hoje, trabalhar com teatro e com impro no Brasil.

Estamos trabalhando incessantemente para reverter este quadro, e temos ótimas perspectivas para o ano de 2011. Evoé, impro!

No Festival IberoAmericano de Bogotá também haverá espetáculos não desportivos. São os outros diversos formatos de Improvisação em que trabalham as companhias teatrais do evento. Eles acontecerão todos os dias às 19h, entre os dias 29/03 a 3/4   no Zona Verde CUR  Coliseo Cubierto Polideportivo do Compensar Ciudad Teatro.

São esses:

HUMOR MIERDA (COMPLOT/ESCENA – MÉXICO)

Dia 29 de março

Quatro elegantes atores interpretam um sem números de abjetos personagens, com o fim de incomodar/ satisfazer o telespectador com suas infames estórias improvisadas. Espetáculo de mau gosto onde as infames e incômodas situações geram reações opostas: nos covardes, risadas fugitivas; nos irrepreensíveis na saída imediata do teatro. Todas as estórias serão improvisadas a partir de respostas do espectador fazem às incômodas perguntas que previamente foram entregues. “Humor Mierda” é resultado da última investigação que o grupo Complot/ Escena realizou no campo da Impro e é a união de duas técnicas. Por um lado, e concernente à forma, o desenho espacial a partir de por em prática dos Viewpoints e composição. E por outro, concernente ao conteúdo, a Impro, onde temos centrado nossa exploração em um tom realista para comunicar os discursos que propomos dentro das 3 estórias que representam (1. O Sistema, 2. A Família e 3. A Intimidade): o abuso do poder nos distintos escalonares da estrutura social, a hipocrisia dentro dos laços familiares e o ridículo e o atroz da relação íntima.

Enquanto “Humor Merda” não tem como principal objetivo fazer rir, como sugere seu nome, abordamos estórias onde a prioridade é gerar situações improvisadas picantes e mordazes e, felizmente entre essas, sempre há quem ria.

CALEIDOSCÓPIO (JOGANDO NO QUINTAL – BRASIL)

Dia 30 de março

De que você se recorda? Como você se recorda? Qual é o gosto das suas lembranças? Por onde você as espreita? Em qual esconderijo sagrado você as conserva?

Caleidoscópio é um espetáculo de Improvisação Teatral que convida os atores do Jogando no Quintal a se debruçarem sobre uma nova empreitada: a construção de uma atmosfera completamente diferente daquela estabelecida em seu espetáculo Jogando no Quintal – Jogo de Improvisação de Palhaços, em cenas não competitivas, de longa duração e sem o uso da “máscara”, o nariz de palhaço que tanto caracteriza o espetáculo de maior sucesso da companhia. O espetáculo, porém, se serve do humor e do distanciamento característico da linguagem clownesca para brincar de construir cenas e viver estórias.

BOTONES (ACCIÓN IMPRO/ COLÔMBIA)

Dia 31 de março

Novo espetáculo de improvisação do grupo de maior reconhecimento no seu país na linguagem.

UN SALTO AL BALDIO (IMPROCRASH! – ARGENTINA)
Dia 1 de abril

Quatro atores criam estórias a partir de frases, títulos e gêneros teatrais ou cinematográficos propostos no momento e pela viva voz dos convidados.Assim, por exemplo, se poderá viver estórias que irão desde o cinema de terror até um filme europeu com tradução simultânea, ou uma improvisação em que não se pode repetir nenhuma palavra ou só se possa falar rimando. Os atores sofrerão ao melhor estilo dos dramas almodovarianos ou das telenovelas venezuelanas, mas todos sob o mesmo risco do imediato e do único, do aqui e agora e, claro, onde o humor é a base de tudo.

IMPROVISTO (LA GATA IMPRO – COLÔMBIA)

Dia 2 de abril

Improvisto é um espetáculo de long form, uma versão do La Gata sobre Harold. Começa com três estórias com informações dadas pelo público que se seguem até que os atores possam fazer com que elas façam parte de um mesmo mundo ou da mesma estória.

EFECTO IMPRO (COLECTIVO TEATRAL MAMUT – CHILE)

Dia 3 de abril

A improvisação levada à sua essência teatral,uma estória em um ato improvisado de uma hora. Cinco atores e um músico se movem no terreno do imprevisível para criar uma comédia do inesperado. A trama vai se tecendo passo a passo por meio dos atores, que apenas com o estímulo do público criam em um espaço vazio um argumento improvisado hilariante e poético. Ao serviço da estória se encontra a música, a qual é improvisada e interpretada ao vivo.

Marco Gonçalves é plural. Músico, palhaço e improvisador. Atualmente é o palhaço atleta Fonseca do Jogando no Quintal, acabou de cumprir a primeira temporada do programa É Tudo Improviso da Band (aguardando resoluções para uma continuação do programa na grade horária da emissora) e faz parte do elenco rotativo do espetáculo Improvável da Cia. Barbixas de Humor. Nessa entrevista, gentilmente concedida entre suas correrias de apresentações, treinamentos e reuniões, Marco Gonçalves fala um pouco de suas filosóficas impressões a respeito da Improvisação e da vida.

Pode-se saber mais de Marco através do seu twitter. Também, para quem tem uma formação básica de improvisação ou clown, ele iniciará um curso extensivo de Impro no Quintal de Criação às segundas feiras a partir de 12 de abril.

Improvisando: Gostaria que você iniciasse contando um pouco dos caminhos que o trouxeram para a Improvisação Teatral. Sua biografia.

Marco Gonçalves: A verdade é que tenho alguns curriculuns espalhados por aí. Eu digo isso realmente pela lista de coisas que eu fiz. Como estudei pouco o teatro, eu muitas vezes  inventei coisas que eu fiz para conseguir pegar um emprego, para pagar aulas de música. Na verdade minha formação qual é: eu estudo música desde pré adolescente, com professor particular. Na pré adolescência e adolescência eu estudei música de uma forma bem firme na sina de ser um músico mesmo. Daí fiz publicidade mas parei no primeiro semestre. Tinha aquele desejo de ser um criador e tinha a ilusão de que a faculdade de publicidade ia propiciar isso. Descobri na faculdade que não era essa a pegada da publicidade que nela a criação era uma coisa bem pontual e direcionada. Aí me dediquei a ser músico profissional. Saí do Rio Grande do Sul para vir estudar música aqui em São Paulo no Conservatório e não passei. A verdade é que não tava bem preparado, tecnicamente não estava preparado. Bem próximo das provas pro Conservatório descobri que (esse é um dado importante lá na frente eu acho)  não era isso o que eu queria fazer, porque eu não tinha prazer em estudar aquilo. Tinha prazer em trampar em tocar, mas ir pra casa e ficar treinando a parte técnica era uma coisa que não gostava.

Com relação ao palhaço e a Improvisação, entre meus primeiros professores, eu já encontrei meu mestre que é o Marcio Ballas.  Comecei a fazer aula no Galpão do Circo, com uma bolsa conseguida com muita cara de pau. Disse: “Quero muito estudar palhaço, você me dá uma bolsa?” E o Marcio, muito generoso, me deu uma bolsa. Comecei a fazer bastante aula de palhaço com o Marcio e tinha, nos momentos da aula, meus momentos mais bonitos da minha semana em São Paulo. Esperava a semana inteira para vivenciar a aula de palhaço. Sinceramente tinha um pouco de confiança de que aquilo era meu assunto. Fui fazendo outras coisas na vida porque precisava de dinheiro: trabalhei com música para ganhar dinheiro, dava aula em escolhinha para criança de música. Descobri que seria palhaço pela necessidade, precisava fazer grana com isso, o que é bem pouco romântico. Essa é  a parte pouco romântica. Também não tinha família aqui, então entrei numa imersão: andava de palhaço pela Vila Madalena, levava meu nariz no bolso achando que a qualquer momento poderia sacar, como se fosse uma arma.

Eu já tinha uma admiração pelo Jogando no Quintal, eu já tinha assistido e pensava: é isso que eu quero fazer. Aí trabalhei num grupo amador, que por coincidência foi onde conheci a Rhena (de Faria) e a Lu Lopes, que passaram por lá, já profissionais.  Era o Sarau do Charles.

Eu tinha muitos sonhos. Quando me tornei palhaço eu pensava: eu quero ser do Doutores da Alegria para brincar com as criancinhas ou quero ser do Cirque de Soleil. Era o que eu queria muito, muito, muito. E o Marcio sacando minha vontade e usando da sua generosidade, começou a me convidar para acompanhá-lo como músico-palhaço. Tinha uma participação bem pequena, ia lá e tocava, era bem músico mesmo. Pra um músico eu era ruim, mas pra palhaço eu era pior ainda.

A verdade é que os palhaços não sabem fazer nada direito no Brasil. É uma coisa bem brasileira. O prazer de fazer as coisas que é bom para um palhaço, às vezes podem impedir que você se desenvolva. Você sabe mesmo usar sua habilidade? Às vezes não. Mas num palhaço isso cabe. Os palhaços gringos eles tem essa coisa da técnica, os americanos e os europeus, a gente não. A gente não sabe fazer nada. E somos palhaços incríveis.

Eu fui aprendendo a tocar sendo palhaço, não maduro. Aí fui ganhando espaço. E o Marcio (eu vou falar muitas vezes do Marcio porque na verdade ele é minha escola) tinha uma coisa muito legal comigo.  Ele me chamava para as apresentações e dizia assim: Rouba a cena, hein? Quero ver você roubar sua cena. Eu vivia também essa generosidade com o Alessandro (o Charles).

Aí entrei no Jogando, quando o Manjericão (Eugênio La Salvia) foi gravar um curta. Eu fui lá, entrei e nunca mais saí. E achei uma família, uma coisa maior até que o trabalho. É a família que não tinha aqui presente.

Mas falando de sala, e minhas primeiras vivências foi de palhaço, um dos  primeiros palhaços que admirei foi  o Paulo (Federal). E via os treinamentos de  improvisação dele. E eu achava que  eu não consegueria fazer isso. Até porque quando se está do lado dos heróis, você pensa: não serei um herói.

Com o tempo a banda, dentro do espetáculo, começou a ganhar  um tamanho muito grande, e a gente começou a fazer palhaço fora do Jogando. Com a Banda Gigante, que é a banda do Jogando no Quintal, que começou a ter um espetáculo paralelo. Daí comecei a experimentar o que é ser um palhaço e ter o foco, porque no Jogando eu só apoiava. Daí vem a segunda grande pessoa na minha vida que é a Lu Lopes: a gente passou a fazer música como palhaço, o que era incrível. E eu ainda namorava  a coisa de jogar.

Pra encurtar a estória, fiz a banda Gigante alguns anos, e aí num determinado momento, a banda começou a ganhar um caráter de  não ser exatamente o que eu queria. Tocar na banda do Jogando não era mais exatamente o que eu queria. Eu comecei a ter uma demanda de criação. Que pra mim é o assunto do improvisador. A escola de improvisação gera ferramentas para algumas coisas. E eu comecei a ter uma demanda de criação: comecei a não dormir para escrever, comecei a querer mais espaço na Banda, no Jogando, queria mais, queria mais. E era uma coisa que não era vaidade batendo, era uma demanda. Aí decidi que ia ser um ator.

Comecei a estudar improvisação e descobri que é uma coisa que me leva pra sala. Eu vou pra uma sala estudar improvisação e fico horas, sem problemas, amo fazer isso. Estudei com toda essa turma aí, com o Ricardo Behrens, com a Mariana Muniz. Estudei com todo mundo que o Marcio e o Jogando trouxe, recentemente o Shawn (Kinley).

Veio então o Caleidoscópio, e foi aí que experimentei minha primeira criação de um espetáculo. Isso tudo é o que está aos olhos do mundo.

Internamente, que pra mim é o mais importante. Aquilo que sempre me encantou e que o palhaço sempre me propôs que é a busca da liberdade, estou vivendo agora num momento de profunda paixão e amor por essa ferramenta que é pedir um tema, escutar e mandar ver.

A minha escola se confunde com a estória com o Jogando. E hoje com os Barbixas. Eu sou um cara muito da espiritualidade. Eu tive alguns mestres de uma outra área, que falavam muito pra mim: você tem que enxergar o mestre nas coisas do mundo. Eu enxergo nos Barbixas grandes mestres mas não porque eles tem essa postura, ou porque a gente estabeleceu uma relação, mas porque eles criaram uma coisa importante que é o Improvável. Eles trouxeram a mim isso e a um grande público. E eu vivo com eles também hoje essa coisa a que sou grato eternamente.

Falar do meu curriculo, que já tá acabando, é falar de gratidão. Gratidão por onde eu passei, a um monte de gente.

Improvisando: O que para você significa a Improvisação Teatral?

Marco Gonçalves: O que é Improvisação teatral é uma pergunta profunda e difícil. Eu considero uma coisa que me rege, é uma linguagem que consegue colocar a espontaneidade na frente. A espontaneidade é o que rege esse trabalho. Estou dizendo muito mais de sensação. Enfim, mas é algo que tenho prazer em fazer. Vou falar uma frase feita que traduz o que é a improvisação para mim: “Produzir vibrações, rotações, girações, danças, palcos, gravitações, inventar novas metas, e setas que vão disparar novos corações”. Isso pra mim me fala da improvisação hoje.

E também outra coisa que me fala do que é improvisação é o sentido que as mandalas tem. É um trabalho muito preparado e termina no desapego para abrir espaço para outra coisa. E enxergar nesse movimento o sentido da coisa e não o produto em si. A gente produz um número de cenas muito grande e a maioria são geniais e elas se vão.

Enfim, improvisação teatral pra mim é uma coisa que toca os mistérios da vida.

Improvisando: E quais são os princípios da Improvisação que você considera importantes?

Marco Gonçalves: Fundamental são alguns. Como diz a Rhena, escuta, aceitação são coisas profundas. Sou obrigado a repetir. Mas uma coisa que a própria Rhena me trouxe na relação próxima que a gente tem, é que quando a gente fica tratando da improvisação como ferramenta e como jogo, talvez a gente siga estritamente o que as escolas falam (escuta, aceitação). Fica uma coisa puramente técnica. Pra mim o buraco é mais embaixo e a Rhena me chama a atenção pra isso. Ela tem uma imaginação muito grande para a loucura, não a patologia, a doença, mas aquele olhar que é capaz de traduzir de uma forma muito diferente uma coisa que é lugar comum. Eu sempre tento ver a improvisação muito mais como uma arte que como uma linguagem técnica.  Nesse sentido, isso é uma coisa fundamental para o palhaço: o que você está falando para o mundo, aí?

Acho que estou querendo aliar um conceito que é a aceitação, escuta e um desejo de voar, uma certa loucura.

Lembrei agora do Chacovachi, que não foi um mestre, foi um dos professores que passou por aqui. Ele é um mestre para todo mundo, mas pessoal não. Ele diz: “El Payaso tiene que ter hambre”. O palhaço tem que ter sangue “nozoio”, que não necessariamente é ter uma agressividade, pode ser uma coisa bem infantil, ingênua, inocente. Mas é quente, potente, uma combustão.

É isso: escuta, aceitação e combustão.

Mas também tem outra coisa que é: “Quem está improvisando?”

A real é que escutar, aceitar, estar com o corpo pronto, saber jogar os jogos, saber a proposta coletiva de cada grupo e de cada espetáculo é fundamental mas são FERRAMENTAS. O conteúdo que você trará para a cena é uma coisa importante e ao mesmo tempo só pode ser gerado com organicidade, ou seja: quem você é, o que pensa, o que sente e como sente constrói sua fantasia. O que você lê, assiste ou o que te inspira como espectador geram bagagem para criar. O formato Improvável dá espaço para os comediantes, o Jogando para os palhaços, o Tríptico da Colômbia dá espaço a excelentes atores .

Improvisando: Gostaria que você falasse um pouco dessa conexão entre o clown e o improviso. E também da relação entre improviso e a música, que é a sua origem.

Marco Gonçalves: A música me ajudou muito. Conceitos que a música tem como muito fundamentais como linguagem, como ferramentas muito conhecidas, são fundamentais no improviso. Por exemplo, você não enaltece a escuta, ela é uma ferramenta tão básica na música: você não aprecia música sem escuta, você não dança sem escuta e não toca bem com um colega sem escuta, você não aprende a tocar um instrumento sem escuta. A escuta na música é uma perna para um jogador de futebol. Por isso, escutar os colegas era uma coisa muito orgânica pra mim. Quando entrei na escola da improvisação, a escuta já estava ali comigo.

Uma outra coisa que considero importante, a qual o Marcio é bem cuidadoso com esse aspecto na cena é o timing. O Marcio tem muito controle sobre o gráfico da cena: um começo que deixa ela clara, uma apresentação da situação e dos personagens, uma inclinação, um problema, e de repente uma aceleração, uma virada e um fim. A música respeita, seja improvisada ou ensaiada, um gráfico. A música tem uma parte A, B, refrão, AB e um refrão no final.

A música me ajudou no improviso, na escuta e no timing.

O palhaço já me ajuda um pouco a viver, mais que a trabalhar. Fica um pouco fácil fazer uma criação excêntrica, interessante aos olhos do público, quando você vivenciou isso. Só o palhaço tem essa levada, ele é a loucura, ele é o personagem. A gente não faz o palhaço a gente é o palhaço. A gente não é melhor ou pior que nada, a gente simplesmente é.

Quando eu estou fazendo, por exemplo, o Improvável (que é um espetáculo de tiro, de piada), muitas vezes estou fazendo essa piada com o lugar comum. Mas quando estou em cena eu invariavelmente uso o palhaço, mexo no dimer da intensidade mais ou menos.

Por exemplo: O que não fazer numa sorveteria? Eu me reporto a aquele lugar e penso no que espontaneamente seria gostoso fazer. Aí eu junto um pouco com a estória dos meninos que é elaborar uma piada com isso e mato. Pego a matéria prima e coloco o olhar de palhaço em tudo.

O que eu não deveria fazer está casado com o que eu poderia fazer e é proibido. Que é a base do Cenas Improváveis e no programa (É Tudo Improviso) é o Cenas Absurdas.

Outro exemplo: O que não se fazer num velório? Uma mente livre, uma mente não ressentida, que é a mente de um palhaço, uma mente desapegada de padrões e regras,  não faz muita força para  pensar o que não fazer. Ele simplesmente vai lá e faz. Ele cumprimenta o morto, vai lá tira uma com o morto. É como já falei com minha mãe e com meu pai. Na ocasião a gente vai se divertir na brincadeira, vamos beber o morto.

Improvisando: Quem são os Improvisadores que o inspiram na realização do seu trabalho?

Marco Gonçalves: Poxa, aí vem muitas coisas na cabeca. E vem um desejo de ser político…

Improvisando: Eu penso em termos de referência…

Marco Gonçalves: Hum… Paulo Federal, Marcelo Savignone, Marcio Ballas (sempre), Rhena de Faria. Fora do improviso, esses dias vi o Pedro Cardoso, achei arrebatador. Dos mexicanos, o José (Luis Saldaña), acho sensacional. Mas de todos, o último que me impressionou mais foi o Marcelo Savignone porque ele é o cara que toca, canta. Ele é desesperador, ele é multi, você conversa o cara, ele conta que  estuda diariamente horas, e é um maluco.

Enfim, eu deixaria essas pessoas, mas isso vale pra hoje. Respeitando o agora.

Improvisando: E com relação às companhias teatrais?

Marco Gonçalves: Todas. De improvisação, eu gosto de todas. Das ruins e das boas.

Pode parecer uma prepotência, mas tenho muito respeito por quem trabalha. Gosto dos Barbixas, Jogando no Quintal, . Em termos de Brasil ainda tem o pessoal de Belo Horizonte, o Imprópria, o Protótipo. Eu tenho muito respeito por você.

Improvisando: Eu não pertenço a nenhuma companhia…

Marco Gonçalves: Mas não digo em termos institucionais, eu tenho respeito por quem tá dando um gás pelo assunto. Quem tá afirmando a Improvisação.

Falando do programa, por exemplo,tentar pegar essa linguagem e torná-la mais popular. Deixar mais gente afim de fazer. Isso poderia ficar como um desejo individual do Marcio, que quer a improvisação no Brasil, ou os Barbixas. Mas é um desejo de muitos, uma força que se espalha.

Fora isso  Impromadrid, Complot/Escena, Loose Moose, LPI Argentina.Vou acabar esquecendo alguém, enfim…

Improvisando: Gostaria que você falasse um pouco com relação a seu interesse em formatos de improvisação. Você hoje tem uma preferência entre formatos longos ou formatos desportivos de improvisação?

Marco Gonçalves: Eu acho tudo importante. Os espetáculos que tem como base jogos de improviso e espetáculos de long form que tenha uma premissa e a improvisação. É que em termos de jogos já existe o Improvável, o Jogando, outras trupes, o programa e acaba meio que virando lugar comum.

O long form acaba virando um desafio hoje em dia. A gente tem pretensões muito altas: não quer ter uma estória boa porque é improvisada, mas uma estória que seja digna de ser encenada várias vezes.

Fora de cena é bacana você ser bem pé no chão, mostrar que o que estou fazendo qualquer um que queira muito poderia fazer. Mas quando digo muito, queira muito mesmo, se dedique.

Em cena acho essa coisa da pretensão bem legal. Às vezes a gente tem uma coisa no long form, em que a gente desafia um ao outro, causando uma sensação ímpar na platéia. Imagina criar uma atmosfera, uma estória que tenha uma trama que de repente possa ser sensual para a platéia. Uma arte transformadora que pode te levar a outro lugar.

Hoje os espetáculos de jogos buscam a piada, um lirismo e na verdade, já tem bastante missão só nisso.

O horizonte do long form é outro. Talvez ele me seja mais atraente, mas ele nao é melhor que o curto, talvez ele até seja um pouco pior. Pro grande público ele talvez seja menos divertido. O público tá afim de ver um desafio mais cirúrgico.

O long form só está mais atraente, mais sedutor pra mim hoje em dia.

Improvisando: Em termos futuros, o que você espera da Improvisação?

Marco Gonçalves: De forma prática,  um número maior de grupos fazendo, uma disseminação mesmo. Eu acho que vai acabar acontecendo, tomara a Deus. Com isso, irão surgir novas formas de fazer, grupos com identidade cada vez mais única, com trabalhos cada vez mais autorais. Isso do ponto de vista comercial.

Do ponto de vista filosófico, que é o que me pega mesmo.  Eu sinto que tem uma coisa que amarga a vida um pouco que é a própria diversão que é trocada pela obrigação. E a vida cheia de obrigações é dificil . Ela é dificil para qualquer um. Mesmo para aquele que gosta, que faz determinadas coisas porque gosta de cumprir aquela obrigação.  Mas tem outras possibilidades e é esse que é o barato.

Não estou falando que a improvisação tenha a ver com descompromisso. A improvisação tem a ver com dar vazão a espontaneidade. E a espontaneidade é o contrário da obrigação. E quando você gera mais espaço para dar vazão a essa espontaneidade, você tem uma ferramenta prática, potente e verdadeira e não uma falácia. Você ouve: temos que melhorar o mundo. Mas como se faz isso?

Mas respondendo à sua pergunta, quando eu vejo meu pai altamente envolvido com a piada, não porque riu, pelo interesse na piada em si…  As pessoas me ligam, me procuram, projetando um desejo de fazer a mesma coisa. Tenho recebido muito email,  muito twitter dizendo: você poderia ter feito aquilo tal hora. Eu procuro responder: então vamos fazer, eu quero fazer isso com você. Esse convite tem a ver com um chamado: vamos brincar!  Isso pra mim tem a ver com a missão da improvisação. Que passe a trazer essa força da espontaneidade com o tempo.

A seguir, Marco Gonçalves em 3 momentos incríveis: Improvável, É Tudo Improviso e Jogando no Quintal.

Quando pedi a Mari Armellini uma entrevista sobre Improvisação Teatral, através de email, ela decidiu responder-me de forma bem particular.
Ela disse: “Vou ser bem sincera: eu engatinho na improvisação. Vou resumir a minha história com a impro e você veja o que dá pra fazer!”
Criativa e genial, essa que diz tão jovem improvisadora, mas com um histórico de anciã, me concedeu praticamente um artigo, que publico na íntegra, não querendo perder nenhum detalhe do seu raciocínio “palitante”. Lembro que quando concedeu a entrevista, Mari ainda não havia estreiado na televisão. Portanto, atualizando seu atual currículo, Mariana Armellini está em temporada com suas colegas As Olívias no espetáculo As Olivias Palitam e nas telas da rede Bandeirantes com o programa É Tudo Improviso. Também se mantém como uma das principais convidadas do espetáculo de Improvisação Improvável da Cia. Barbixas de Humor. Pode-se também segui-la no Twitter.
“Eu sou atriz, formada pela Escola de Arte Dramática (EAD/ECA – USP).
Antes disso, fiz teatro amador por 8 anos (desde 1993).  Nesse período, os exercícios de improvisação da Viola Spolin eram muito utilizados, mas como exercícios para a atuação propriamente dita.
Dentro da EAD, tive aulas com a  Cristiane Paoli Quito, que trabalhava a improvisação dentro dos espetáculos, como um exercício coletivo – nós ensaiávamos as cenas, criávamos os personagens, mas as “costuras”, a dramaturgia do espetáculo era criado na hora, pelos atores. Com essa técnica, fizemos “Hamlet” (de William Shakespeare), em 2002 e “O Inspetor Geral”  (de Nikolai Gógol), em 2003. A Quito é uma profissional muito reconhecida por seu trabalho com palhaços e também com a improvisação. Cheguei a fazer 6 meses do curso dela de palhaço – muito difícil mas extremamente importante.
Ainda na EAD, tive um professor – que depois dirigiu meu espetáculo de formatura – chamado Antônio Januzelli, o Janô. Ele é considerado um mestre de improvisação, mas não como você conhece – exercícios de cena. As aulas dele priorizavam as relações, nós criávamos relações por horas, sem falas, só trabalhando sensações e corpo. O trabalho dele consiste em levar o ator a chegar em um “estado”, a partir do qual ele seria capaz de realizar qualquer coisa. Esse “estado” é a base da pesquisa dele, e acabou gerando em minha turma um desejo enorme de continuar esse estudo – o que nos levou ao espetáculo “Oito”, dirigido pelo Janô e pela Juliana Jardim, que foi, como eu disse, nosso espetáculo de formatura na EAD.
Depois disso, a improvisação só existia para mim para criar as cenas das Olívias, grupo que formei ainda dentro da EAD. Dentro de nosso espetáculo, As Olívias Palitam, temos um momento de improviso diferente: nós conversamos com o público a partir de temas da atualidade dados por eles.
Quando os meninos dos Barbixas me chamaram para fazer o primeiro Improvável, em novembro de 2007, tudo o que eu tinha era essa formação e a referência do Whose Line, que eu assistia e admirava.
Não fiz nenhum treinamento extra para fazer o primeiro Improvável.
Depois disso, quando conversamos sobre a possibilidade deles continuarem com esse espetáculo e formarem um grupo de convidados preparados para esse tipo de improvisação, comecei a ter treinamentos com o Marcio Ballas – que hoje considero meu mestre dentro da impro.
Fiz workshops com Gustavo Miranda,   (do Acción Impro) da Colombia, e Shawn Kinley, (do  Loose Moose) do Canadá. E sigo treinando com o grupo que acabou se formando a partir do Improvável – que seriam os Barbixas, o Marcio Ballas, o Marco Gonçalves, a Cristiane Wersom, a Marcela Leal e Alan Benatti.
Portanto, não sei dizer quais são os melhores grupos do mundo, não sei dizer o que me inspira (além dos espetáculos Jogando no Quintal e do Caleidoscópio) e não sei definir as bases da improvisação! Apesar de estar nessa há 2 anos, eu engatinho!
O que posso dizer é que o treinamento de impro tem refletido de maneira muito positiva no meu trabalho como atriz – nos longas que eu fiz, em outros espetáculos e mesmo dentro das Olívias.
Por enquanto, ainda estou debruçada no estudo das cenas curtas e jogos de “tiro”, mas adoraria um dia estudar e ser capaz de realizar um long form.
Para terminar, só para te situar no que ando fazendo: continuo com As Olívias – realizando nosso espetáculo As Olívias Palitam e fazendo vídeos curtos para a intenet (uma websérie chamada As Olívias Queimam o Filme). Faço o Improvável como convidada. Em 2009, fui atriz convidada do Grupo XIX de Teatro, para realizar viagens com o espetáculo Hysteria. Na TV, fiz alguns comerciais e participações em programas e no cinema, participei de alguns longa-metragens.”
Seguem dois vídeos: um da websérie das  Olívias, no seu canal do You Tube e mais uma de suas muitas participações geniais no Improvável.

Rhena de Faria tem sangue e alma de artista. É filha de artista plástico e  livreira-tradutora-escritora, ainda irmã do escritor Santiago Nazarian. Nasceu em Olinda, na casa onde hoje mora Alceu Valença, mas veio para São Paulo ainda bem criança. Começou a estudar comunicação na FAAP com 19 anos, mas abandonou a faculdade pelo grupo teatral TAPA. Também ministrou aulas de sapateado por dez anos, ofício que ensinou a atores e grupos como Bonecos Urbanos, Circo Navegador e TAPA.  Em 1996, mudou de rumos ao começar a estudar Geografia na USP. Mas 2 anos depois acabou se descobrindo mesmo no picadeiro.

Trabalhou com Circo Escola Picadeiro e com a Família Medeiros.  Participou de Oficinas do Odin Teatret com seu diretor Eugenio Barba. Também com Leo Bassi, Ricardo Puccetti e Léris Colombaioni.

Com Silvia Leblon fez inúmeros espetáculos como dupla Blanche & Spirulina.

Mademoiselle Blanche

 

Participou do documentário Palhaço – O Ser em Transgressão. Em  2009  participou do filme “O Contador de Histórias” premiado com o selo da UNESCO.

É palhaça atleta do Jogando no Quintal desde 2004, e além desse espetáculo, dentro da Companhia participou de outros espetáculos como a concepção e atuação juntamente com Marcio Ballas no espetáculo de palhaços “O Eterno Retorno”, que teve pré estréia na Colômbia e dirigiu o solo de Cesar Gouvêa In Memorian, ambos em 2007.

Eterno Retorno no Improfestin Chile

 

Ainda dentro do Jogando no Quintal, participa da Seleção Brasileira de Impro e do espetáculo Caleidoscópio (direção e dramaturgia Marcio Ballas), um dos primeiros espetáculos long form do Brasil.

Caleidoscópio no Improfestin Chile

 

Seleção Brasileira do Jogando no Quintal Mundial do Peru

 

No ano de 2009,  fez a sonoplastia e direção do espetáculo solo “Sobre Tomates, Tamancos e Tesouras”, dramaturgia concebida junto com Andrea Macera (solista do espetáculo). O espetáculo teve excelentes críticas, inclusive como espetáculo recomendado pela revista Bravo de junho/2009.

Tive felicidade de estar em dois workshops de improvisação dessa incrível professora, sendo cada uma delas uma experiência excepcional . E é com essa alma inspirada e doce de palhaça, dançarina, dramaturga, diretora e uma das mais talentosas improvisadoras do mundo, que conversei um pouquinho sobre as impressões da Improvisação Teatral.

Improvisando:  Gostaria que vc começasse resumindo os trabalhos nos quais vc está envolvida hoje.

Rhena: Sou palhaça atleta do espetáculo “Jogando no Quintal – Jogo de Improvisação de palhaços” (é assim mesmo que a gente se nomeia: palhaços-atletas!)

Integro o novo espetáculo de Improvisação do grupo Jogando no Quintal chamado “Caleidoscópio”, nosso primeiro long-form, dirigido por Marcio Ballas.

Junto com a seleção brasileira do Jogando no Quintal conquistei o Terceiro Lugar no Match de Improvisação entre países, disputado em Lima, no Peru (2009), e o Primeiro Lugar no mundial de Match de Improvisação em Bogotá, na Colômbia (2008).

Improvisando: O que é Improvisação Teatral? Quais são os princípios em que se embasa?

Rhena: Improvisação Teatral para mim é a arte do jogo, a arte de estar aberto às possibilidades. Eu diria que os princípios mais básicos da Improvisação são a ESCUTA e a ACEITAÇÃO. Para mim, sem dúvida são o bê-a-bá, a lição número 1. Depois com a maturidade, um improvisador pode até desconstruir estes princípios. Mas num primeiro momento eles são fundamentais para que se crie uma cultura comum de jogo entre os atores.

Improvisando:  Como surgiu a Improvisação na sua carreira?

Rhena: Surgiu junto com o meu trabalho de palhaça, no final de 2000. Ser palhaça é entre outras coisas, viver em cena o aqui e o agora. É ser permeável ao meu público e a tudo o que ele me dá. E isto também é improvisar, porque trata da vivência de uma relação verdadeira, como na vida. Agora a improvisação como técnica, mais aprofundadamente, eu só fui descobrir quando fui convidada a integrar o Jogando no Quintal, em 2004. Entrei no Jogando no Quintal porque já era palhaça e boa parte dos integrantes conhecia o meu trabalho. Mas foi com o Jogando no Quintal que passei a ter contato com outros grupos, com mestres da Improvisação, e a me aprofundar em todos os seus princípios.

Improvisando:  Sabemos que o Jogando tem uma vertente singular na Impro em todo mundo, que é a aplicação de técnicas de Clown junto ao Improviso. De que maneiras se encontram o Clown e a Impro? Em que aspectos elas se diferenciam?

Rhena: Embora o palhaço crie relações reais com o público, e os improvisadores por meio de personagens, criem relações fictícias entre eles, ainda assim, nos dois casos é preciso reacionar a estes jogos com prontidão e verdade. Ambos fazem um teatro vivo diretamente relacionado às suas inquietações mais imediatas. E ambos os trabalhos são, sobretudo, trabalhos autorais.

O desafio de fazer Impro com o clown consiste na tentativa de conciliar algo que é de natureza generosa – no caso a Improvisação, com uma figura que é naturalmente egoísta – no caso o palhaço. E não se trata de ver generosidade como algo “bonzinho” e egoismo como algo “nocivo”. É muito mais simples: o improvisador serve  a cena, está a serviço de algo maior do que ele. Já o palhaço serve em primeiro lugar ao que lhe dá prazer, ao que lhe entretém e lhe diverte. Por isso ele é capaz de sacrificar uma estória em andamento em prol de uma boa piada, na tentiva de ganhar o público. Daí o seu egoismo. Acho que o Jogando existe há tanto tempo porque juntar estas duas coisas com facilidade é uma meta inalcançável.

Improvisando: Quem são os Improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?

Rhena: O argentino Marcelo Savignone, que faz um trabalho impressionante de improvisação com máscaras balinesas.

O colombiano Gustavo Miranda Angel, do grupo Acción Impro, pela presença de espírito e humor genial e que ele tem.

Gosto muito do Omar Argentino Galvan também, porque é um cara extremamente poético e inteligente. Um cara que faz um solo de Impro bastante verbal, como se fosse uma espécie de contador de estórias.
Improvisando: Quais companhias no mundo você acredita que hoje fazem os trabalhos mais incríveis?

Rhena: O grupo Acción Impro, de Medellin-Colômbia, que posui um dos espetáculos de longo formato mais bonitos que eu já vi: Tríptico. São bons atores, sempre se desafiam criando coisas novas, além de representarem para mim um ideal de grupo.

Gosto muito também do grupo espanhol Impromadrid, sempre poético e sofisticado em suas improvisações.

E citaria também os mexicanos do grupo Complot Escena. Me agradam suas idéias, são simples e carismáticos.
Improvisando: O que mais tem te trazido interesse em Improvisação hoje? Jogos de Improvisação ou espetáculos mais long form?

Já não me atraio por jogos de improvisação hoje em dia. O que me prende ao espetáculo Jogando no Quintal é muito mais o desafio de fazer impro entre palhaços e pela relação incrivelmente revolucionária que o espetáculo estabelece com o público, do que propriamente o desafio dos jogos. Prefiro os espetáculos de longo formato, os chamados long-forms. Eles me dão a possibilidade de criar boas estórias e, sobretudo, de me aprofundar nas relações entre os personagens, coisa que os jogos curtos não possibilitam.
Improvisando:  Qual é o princípio da Improvisação que é hoje mais motivo de investimento e pesquisa hoje no mundo?

Rhena: O que vejo como trajetória comum de pesquisa entre todos os grupos que conheço, não é um princípio, e sim, um formato: um início de vida por meio de jogos curtos de desafio que culmina, depois de anos de prática, na vontade e na necessidade quase vital de fazer um long-form. Então estas companhias partem para aquilo que consideram um desafio maior: criar estrórias de longa duração ou estórias únicas que durem todo o espetáculo. Quando isto aconteceu com o Accion Impro, da Colômbia, eles criaram “Triptico”. A LPI, da Argentina, criou o espetáculo “Circulo”. A LPI de Belo Horizonte, dirigida por Mariana Muniz, criou  “Sobre Nós”, o Colectivo Teatral Mamut, do Chile, criou o “Efecto Impro”, o Jogando no Quintal criou  “Caleidoscópio”. E com tantos outros grupos se passou o mesmo.
Improvisando:  Para onde vai a Impro (o futuro)?

Rhena: Acho que a Impro caminha para sair da marginalidade e se firmar como mais um gênero teatral. Acho que os espetáculos de Impro que fazem sucesso no Brasil têm impulsionado novos grupos a fazerem Impro também. E aos poucos a quantidade de grupos de improvisação vai aumentando, no Brasil e no mundo.

A seguir vídeos de Rhena de Faria com a Seleção do Jogando e como Mademoiselle Blanche no Jogando no Quintal.

Apesar de saber que a biografia dos Barbixas é sempre uma incógnita, vou me ater à informações contidas em um longo bate papo concedido à UOL e entrevistas. Outra entrevista interessante foi concedida ao Vírgula.

Daniel Nascimento teria feito faculdade de Rádio e TV, já sendo amigo de Anderson Bizzocchi e tendo uma inclinação ao humor, se apresentavam em bares. Em uma viagem à Paris, Andy teria conhecido Elídio Sanna. Entre eles havia uma grande afinidade pelo gosto no mesmo estilo de humor e resolveram fazer pesquisas em torno de trabalhos como Umbilical Brothers, Rowan Atkinson (e seu personagem Mr. Bean) e Monty Phyton, entre outros.

A estréia dos Barbixas teria ocorrido em 01/07/2004 no Teatro Jardim São Paulo com o espetáculo Onde Está o Riso?

Em novembro do mesmo ano, se apresentaram com o espetáculo Em Lata. Seria o primeiro espetáculo integralmente de sua própria autoria.

Em junho de 2005, se apresentaram com o espetáculo 3, na qual havia também vídeos. Nesse momento a trupe se tornou a Cia. Barbixas de Humor, em que não só faziam textos de teatro como esquetes de vídeo e áudio, disponíveis no site.

Em 2008, estrelam o espetáculo Em Breves que também é um espetáculo de esquetes de humor. No mesmo ano, estréiam o absoluto sucesso que é o espetáculo de jogos de improvisação, o Improvável.

Em 2009, os Barbixas levam para a TV, o mesmo formato do espetáculo Improvável, no programa Quinta Categoria, junto com Marcos Mion.

Em 2010, aguardamos ansiosos a estréia, logo mais dia 11 de janeiro, do É Tudo Improviso, na Band. O programa de jogos de improvisação teatral é apresentado por Márcio Ballas e conta ainda com Marco Gonçalves  (ambos do Jogando no Quintal) e as Olívias Cris Wersom e Mari Armellini.

Improvisando: Gostaria que vc começasse falando dos trabalhos nos quais  está envolvido hoje.

O que faço atualmente é trabalhar com a Cia. Barbixas do Humor. Este é o meu trabalho principal. É nisso que fico pensando o tempo inteiro.
Recentemente criamos um espetáculo chamado “Improvável” que ficou muito grande. Virou a maior e mais famosa websérie do Brasil e é um dos canais mais vistos do mundo no Youtube. Por essa razão estamos viajando com o espetáculo e apresentando o nosso trabalho em outros estados em sessões esgotadas antes mesmo da gente chegar na cidade.
O Improvável nasceu de uma vontade do Andy de fazer algo parecido com o Whose Line is it Anyway?. Era para ser uma brincadeira! E é até hoje, se você for parar pra pensar…
A websérie das Olívias foi um presente que elas me deram. Eu sou formado em Rádio e TV e gosto muito de dirigir. Comentando isso com elas recebi o convite de dirigir os textos que elas tinham (que eu acho ótimos) e transformar numa websérie.
O Quinta Categoria é o primeiro programa de jogos de improviso da tv brasileira. Foi uma tentativa meio torta de passar o Improvável para a tv.

Improvisando: O que é Improvisação Teatral? Quais são os princípios em que se embasa?

Improvisação no teatro é algo bem comum em outros países no mundo. Da mesma forma que se pode improvisar na música, na pintura (OBS do entrevistador: “A execução na pintura deve sempre ter improvisação.”  – Eugène Delacroix), pode-se improvisar no teatro também.
Como todos sabem, nada acontece no improviso sem escuta, proposta e fruta do conde.
Improvisando: Como surgiu a Improvisação na sua carreira?
Foi completamente do nada. Era para ser só um projeto baseado no Whose Line para a gente apresentar para amigos e familiares. Do nada reparamos que estavamos popularizando o improviso no Brasil e pensamos “Eita… tá na hora de aprender a fazer!”.
Chamamos o mestre no assunto, Marcio Ballas, e ele abriu uma porta para um universo que a gente não sabia que existia! Agora é correr atras!
Improvisando: De que forma aconteceu a transição do trabalho dos Barbixas que faziam esquetes no estilo Monty Phyton para a Improvisação Teatral?

Em fade mesmo. Page peel é meio brega.

Improvisando: Quem são os Improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?
No Brasil eu tive um leve empurrão do Caruso (Fernando Caruso) (do Zenas Emprovisadas) mesmo sem ele saber.
Mas no começo mesmo, quando ainda não tinha nada disso, a gente gostava mesmo do elenco do Whose Line.
Mais para frente conhecemos o Marcio Ballas, que é o nosso treinador. Ele é, na minha opinião, a pessoa mais importante do mundo da improvisação no Brasil. Ele está na ponta do processo puxando todo mundo. Tem dois espetáculos de improviso: um que influenciou muito a gente (o Jogando no Quintal) e um de long form que é impressionante, o Caleidoscópio.
Os improvisadores do Jogando e do Caleidoscópio são grandes fontes de inspiração pra gente. Assim como os convidados do Improvável.
Recentemente tivemos contato com grupos da América Latina (México, Colômbia, Chile, Argentina, Uruguai) que estão muito na nossa frente em matéria de técnica e dramaturgia.

Improvisando: Quais companhias no mundo você acredita que hoje fazem os trabalhos mais incríveis?

Cada grupo que conheci tem um trunfo. Os Mexicanos mostraram um trabalho baseado em relações com dramaturgia complexa, mostrando a negação como inclinação para uma cena. Os Colombianos são extremamente rápidos e vertiginosos. Conseguem em milésimos de segundo construir personagens incríveis. Os Chilenos são extremamente criativos e leves em cena (se parecem muito com os brasileiros, aliás!). E assim vai e vai….

O que mais impressiona é que todos tem um trabalho incrível em algum aspecto e constantemente fazem pesquisas com o seu estilo. É muito bom saber que quem faz não está parado achando que já sabe tudo. Estão em constante movimento e aprendizado.

Improvisando: O que mais tem te trazido interesse em Improvisação hoje? Jogos de Improvisação ou espetáculos mais long form?

Quero muito mais pra frente montar um long form. Mas gosto muito dos dois estilos. Me divirto sempre.

Improvisando: Quais os princípios da Improvisação que são hoje mais motivo de investimento e pesquisa no mundo?
Como?
Improvisando: Para onde vai a Impro? (O Futuro)

Espero que apareçam vários grupos fazendo vários espetáculos e que ela fique mais e mais popularizada no Brasil e no mundo!
Se os principios básicos de impro estiverem presentes em todos esses grupos, o movimento vai fazer crescer a vontade de consumir bons espetáculos e muitos bons atores vão aparecer por aí.

Apesar da escolha difícil, publico aqui dois vídeos prediletos: o primeiro o Merchan do espetáculo Improvável e o Restaurante de Quinta do programa Quinta Categoria.

Durante sua formação na EAD/ USP, Cris Werson se reuniu a outras três “magrelas” Mari Armellini, Renata Augusto e Sheila Friedhofer também donas de um “humor fino” (como elas mesmo se autodenominam) e fundaram a As Olívias Soluções em Comédia. Seu primeiro espetáculo As Olívias Palitam estreiou no N.Ex.T Cabaré em 2005, onde rapidamente ganhou o público. Em 2006, fizeram temporadas no Teatro Folha, no Espaço Parlapatões e no Teatro Tim (Campinas). O espetáculo é composto de esquetes variadas, dentre elas paródias musicais como Longelíneas Demais.

Também se destaca o quadro que dá nome ao espetáculo, no qual assuntos importantes da semana, são improvisados na interação com a platéia.

Em 2006, foram convidadas para participar do Projeto Nunca se Sábado, um projeto no qual, semanalmente, três companhias de comédia disputavam os votos do público. As duas melhores companhias voltavam na semana seguinte. As Olívias permaneceram o tempo máximo de oito semanas e ainda foram convidadas para uma participação especial no fim da temporada.

Recentemente as Olívias fizeram participações excelentes no Farsas de Natal e no Missa do Galho, espetáculos de Natal dos Parlapatões.

Atualmente as Olívias se dedicam à websérie As Olívias Queimam o Filme, sob direção de Dani Nascimento (da Cia. Barbixas de Humor), com participações especiais de Rafinha Bastos, Rafael Cortez entre outros. Também tem um twitter (@asOlivias) com 6500 seguidores. Cada uma também tem seu twitter pessoal: Cris (@CrisWersom), Mari (@MariArmellini), Renata (@RenataAugusto) e Sheila (@SheFriedhofer).

Já Cris Wersom, e também a olívia Mari Armellini, vem desde o ano passado também fazendo participações como atriz improvisadora convidada dos Barbixas no espetáculo Improvável .

Dia 11 de janeiro, junto à Mari Armellini, os Barbixas e os palhaços atletas do Jogando no Quintal (Marco Gonçalves e Márcio Ballas), Cris estréia o Programa É Tudo Improviso, em princípio nas segundas às 22h15 na Band, cobrindo as férias do humorístico CQC.

Essa entrevista foi concedida, por email, em fins de novembro, ainda antes do lançamento da websérie e antes de oficializada informações sobre o programa da Band. Bastante divertida e honesta, Cris Wersom mostra, em suas respostas, um pouco de suas “palitadas” estridentes de “humor fino”.

Improvisando: Gostaria que você falasse dos trabalhos nos quais você está envolvida hoje.

Cris Wersom: Atualmente trabalho com As Olívias, na gravação e lançamento da nossa websérie (mais informações, www.asolivias.com.br ) além de apresentações no interior. Com o Improvável, estou envolvida em projetos que por enquanto não posso falar (Hoje um deles conhecido, relacionado ao programa É Tudo Improviso). Além disso estou montando uma peça baseada no livro A Felicidade Conjugal do Tolstói com estréia prevista para maio de 2010.

Improvisando: O que é Improvisação Teatral? Quais são os princípios em que se embasa?

Cris Wersom: Acredito que parte de um certo estado do ator. A improvisação cênica se dá a partir do momento em que o ator interage efetivamente com tudo ao seu redor, reagindo aos estímulos externos e internos. Isso pode acontecer tanto no Hamlet, quanto no Improvável  (obviamente tendo clara as propostas de cada peça).

Improvisando: Como surgiu a Improvisação na sua carreira?

Cris Wersom: Surgiu no terceiro ano da EAD (Escola de Arte Dramática da USP) quando tive aula com Cristiane Paoli Quito. Ela tem um trabalho de improvisação maravilhoso que associa a dança à interpretação.

Improvisando: Quem são os Improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?

Cris Wersom: São os improvisadores que estão trabalhando comigo no momento da Improvisação. O outro sempre me inspira!

Improvisando: Quais companhias no mundo você acredita que hoje fazem os trabalhos mais incríveis?

Cris Wersom: Sendo muito sincera, não tenho conhecimento de muitos grupos no exterior, mas tive um workshop com um canadense (Shawn Kinkey) que me deixou bastante impressionada.  Muitos estrangeiros admiram nossa forma de interpretar e confesso que trabalhos como o Caleidoscópio me fazem acreditar nisso.

Improvisando: O que mais tem te trazido interesse em Improvisação hoje? Jogos de Improvisação ou espetáculos long form?

Cris Wersom: Na verdade, meu interesse tem se voltado cada vez mais para a improvisação a partir de um texto teatral. Como o teatro tradicional pode “respirar” com a improvisação do ator.

Improvisando: Qual é o princípio (teórico) da Improvisação que é hoje mais motivo de investimento e pesquisa no mundo?

Cris Wersom: Pelo que percebo, existem vertentes bem distintas sendo difundidas por aí.

Improvisando: Para onde vai a Improvisação Teatral, ou seja, qual seu futuro?

Cris Wersom: Pra París, Dakar, Istambul, Praia Grande e aonde mais tiver gente!!

Confiram os vídeos de Cris Werson, em uma performance arrebatadora no Improvável e outra impagável na websérie das Olívias.

Esse blog abre aspas, dentro do Ciclo de Entrevistas, pedindo licença para falar de Allan Benatti.

Allan Benatti é o palhaço-atleta Chabilson do Jogando no Quintal. Também integra o elenco de Caleidoscópio, Long Form de Impro da trupe, juntamente com Márcio Ballas, Marco Gonçalves e Rhena de Faria. Compõe a seleção brasileira de Impro, juntamente com a mesma equipe do Caleidoscópio, campeã do mundial no Peru e terceiro lugar no mundial do México. Por diversas vezes jogador convidado do espetáculo Improvável da Cia. Barbixas de Humor. Já participou de diversas montagens dentre as mais importantes, pode-se destacar: O Assassinato do Anão do Caralho Grande, O Chá de Alice e O Auto da Compadecida. Trabalha com a linguagem do Clown há mais de dez anos, tendo sido aluno de Léo Bassi, Bete Dorgan e Cristiane Paoli Quito. É professor de Clown e Improviso.

Durante 2 workshops e um curso de 4 meses nesse ano, tive a oportunidade de ter curiosidade, aprender e me entusiasmar pela Improvisação Teatral, convivendo com um professor por natureza. Aliás, creio que algumas qualidades na vida fazem o professor: logicamente o conhecimento adquirido, mas principalmente a curiosidade em continuar a buscar conhecimento e o entusiasmo e a generosidade com que lida com o aprendizado dos alunos. Talvez o professor seja um dos principais personagens em construção de Allan Benatti. Aliás, é bem interessante vê-lo, aqui, falar sobre seu entusiasmo sobre máscaras, construção de personagens e relações. Porque tão interessante quanto conhecer suas opiniões a respeito da Improvisação Teatral, na qual é um de seus personagens principais, é conhecer a própria trajetória de sua vida, que o trouxe por esses caminhos, entremeada por muitos improvisos e muitos personagens.

Improvisando: Queria primeiramente te perguntar sobre como começou sua carreira como ator.

Allan: Eu comecei na verdade, assim, por acaso. Eu comecei a estudar no colegial numa escola técnica que era o Liceu de Artes e Ofício. E aí no segundo ano eu jubilei, fui expulso do Liceu e fiquei perdidinho, sem saber o que fazer.

Foi engraçado porque tinha uma tia minha que quando eu pequeno, tinha dez, onze anos de idade, eu tinha comentado com ela que eu queria fazer teatro. E aí eu já tava com dezesseis para dezessete anos, por aí, nessa época. E ela me vendo perdido chegou pra mim e falou assim: “Ó, você não queria fazer teatro? Vai ter um curso, uma oficina grátis na Oficina Cultural Mazzaropi que eu vi na televisão. Porque você não vai lá fazer? É aqui pertinho.” No primeiro momento quando ela falou, putz, me veio um: “Teatro? Mas por que ela veio me falar de teatro?” Como eu tava mesmo sem saber o que eu ia fazer da vida, pensei: “Vou fazer isso aí.” Aí cheguei lá, tinha uma baita fila enorme para fazer a inscrição e eu passei por acaso.

E foi assim transformador! Porque aí eu descobri um novo mundo e me apaixonei de um jeito que eu comecei a fazer tudo que eu podia ao mesmo tempo em todas as oficinas gratuitas: na Três rios (Oficina Cultural Oswald de Andrade), na Mazzaropi, no Engenho Teatral. E aí no final desse primeiro ano que eu tava fazendo esses cursos eu fui ver um espetáculo que chamava NegraBox que se não me engano era organizado pela Célia Helena. Esse espetáculo era uma co-produção francesa e espanhola. Era uma caixa enorme montada no Ipiranga que devia ter uns cinco por cinco metros de altura. Eu achei um espetáculo incrível e eu sabia que era palhaço, mas só que eles não usavam máscara de palhaço, era um outro tipo de linguagem de palhaço que não era a que eu tinha como referência como o de circo ou de picadeiro. E foi impressionante que eu tinha certeza que era palhaço mesmo com pouco conhecimento e eu pensei: “Meu, eu quero fazer um curso de palhaço.”

No semestre seguinte, em janeiro, abriu turma para fazer curso com a Cida Almeida, que é uma palhaça super clássica. Só que olha as coincidências da vida, que não são coincidências, na verdade. Acabou que a Cida tava grávida de gêmeos, uma gravidez frágil, e tinha que ficar em repouso e não pode dar o curso. Então convidou a Bete (Dorgam) pra ir dar o curso no lugar dela. E aí foi paixão à primeira vista, de imediato, e fiquei quatro anos seguidos estudando com a Bete de janeiro a dezembro. Os primeiros anos foram bem de estudo e o grupo (eu, o Denis (Goyos) , a Gabi (Argento) e a Karin (Frutig)) convidou ela para dirigir um espetáculo. No primeiro momento ela falou: “não, não quero.” A gente continuou trabalhando porque a gente queria montar um espetáculo juntos e dois meses depois ela falou: “Olha, eu topo, se vocês toparem ser minha tese de doutorado.” E aí a gente começou todo um processo, né? Ficamos dois anos em cima de muitos elementos que ela dava a partir do capítulo sete do Alice no País das Maravilhas que é o Chá Muito Louco e aí o resultado foi o Chá de Alice que é um espetáculo completamente inspirado nesse capítulo.

Nessa época, enquanto a gente tava fazendo o Chá de Alice, o Márcio (Ballas) voltou e eu prestei o teste para os Doutores da Alegria. Foi aí que eu conheci o Márcio, foi a primeira vez que a gente se viu. E foi uma afinidade muito grande de primeiro momento. Aí eu não passei, ele passou, a gente continuou as coisas da vida…

Depois de um ano e pouco, o Chá de Alice tava bombando, a todo vapor ainda. Nós ficamos com ele uns 4 anos, tudo bem espaçado: era uma apresentação em janeiro, outra em setembro. Tivemos uma temporada mais longa…

Nessa época ele me convidou: ele já estava treinando com o César (Gouvêa) e com a Paulinha (Paola Musatti) e estavam começando a testar o Jogando no Quintal. O primeiro time a ser convidado para fazer os testes do Jogando no Quintal foi eu, a Gabi e o Dênis. E a partir desse jogo, eles perceberam que não dava pra fazer o espetáculo sem treinar, sem ensaiar. E aí eles começaram a chamar as pessoas para começar a treinar, mais ou menos em março. Quando foi em setembro, nós fizemos a primeira apresentação aberta, se não me engano a gente nem cobrou, foi bem para amigos, umas 30 a 50 pessoas. A gente começou a cobrar no mês seguinte. Então acho que o aniversário do Jogando se não me engano é em outubro, por aí. E aí toda a estória do Jogando que de um quintal foi para um quintal maior, um quintal maior, um quintal maior. Então, toda minha pesquisa acabou se criando dentro da máscara do palhaço mesmo.

De teatro eu cheguei a fazer algumas coisas, espetáculos como O Assassinato do Anão do Caralho Grande, que também como experiência foi fundamental. Porque como era muita gente em cena, eu também consegui degustar a possibilidade de você viver uma máscara, não fazer uma máscara. Porque o Marcão (Marco Antônio Rodrigues) era muito exigente. E foi muito gostoso fazer isso, também estudando junto com o palhaço.

Então, eu comecei a perceber que eu gosto desses personagens, de viver personagens, e acho que to criando uma relação da improvisação da máscara, da vivência da improvisação. A gente acaba trabalhando muito mais na relação propriamente dita, no como eu me relaciono, do que em qualquer outra teoria da improvisação. Quando a gente (Márcio Ballas, Marco Gonçalves e Rhena de Faria) começou a estudar o Caleidoscópio, isso ficou ainda mais acentuado. Porque antes eu já fazia personagens, mas a possibilidade de você, num long form, viver um mesmo personagem por 5 minutos, me trouxe experiências muito boas de palco, de cena, de compreensão da máscara, de compreensão do personagem, da relação, do caminho do respeito, né?

Porque é isso que a gente procura. Se eu to procurando a relação na improvisação também eu imagino, pelo menos para mim, não ser possível eu me relacionar de outra maneira na vida. Então em tudo: desde com minha namorada, com meus amigos com tudo, eu procuro me relacionar com a verdade que eu procuro me relacionar quando eu visto uma máscara na cena. Pra mim esse é o mistério que eu to investigando ainda mais que eu acho que é, pra mim, o que me dá mais prazer e é mais essencial.

Improvisando: Fale um pouquinho sobre os trabalhos com que você está envolvido no momento. Você falou do Jogando no Quintal, do Caleidoscópio…

Allan: Sim, estou trabalhando com o Jogando, o Caleidoscópio. Eu também dou aulas. Eu faço bastantes trabalhos em empresas também, que na verdade são trabalhos que eu pego um briefing específico de uma coisa e desenvolvo numa cena. Então eu também crio roteiros nos quais não faço textos fechados nunca, sempre me baseando na improvisação. Eu pego o briefing, chamo algumas pessoas para trabalhar que são do Jogando e a gente faz a cena inspirado nesse roteiro para seguir um pouco do que eles desejam. Por exemplo, a empresa diz: “Ah, a gente precisa trabalhar a venda.“ Então a gente trabalha com o humor, e geralmente, disassocia da relação com a empresa, levando para uma relação cotidiana, com palavras-chave, com justamente os pontos que eles precisam trabalhar.

Improvisando: E como a Improvisação entrou na sua carreira?

Allan: A partir do momento que eu entrei no Jogando no Quintal. Só que no início do Jogando no Quintal, o primeiro momento de improvisação foi a improvisação do Palhaço.

O Cris (Karnas) entrou e começou a ministrar contato-improvisação que é uma coisa que até hoje eu adoro e quero estudar mais também. A gente trabalhou bastante com essa técnica de ideokinesis nessa parte da improvisação, e trabalhou contato-improvisação. Essa técnica entra numa relação de improviso corporal que pra mim é importantíssimo também. Gosto muito do conhecimento corporal para poder improvisar corporalmente.

Com relação ao Improviso em si, no Brasil, a gente não conhecia ninguém. A única pessoa que a gente conhecia era a Vera (Achatkin) que dirigia um grupo de Teatro Esporte. No início nós tentamos entrar em contato com ela, tentamos nos oferecer de pesquisar com ela, mas não rolou.

E aí a primeira aula de improvisação foi com o Leon e com uma menina que eu não lembro o nome, que tinham recém voltado da Espanha após um curso com o Impromadrid e foram eles que deram as primeiras idéias de técnica de improvisação pra gente. Depois foi a Mariana Muniz. E daí com os festivais, estudamos com o Acción Impro, o Impromadrid… Esses intercâmbios foram fundamentais para começar a ter a compreensão do que é tudo isso.

Improvisando: E qual compreensão você tem de tudo isso hoje? O que é a Improvisação Teatral para você?

Allan: Pra mim na Improvisação o fundamental é a escuta. É você estar em cena livre e solto, sem peso, sem carga, sem pressão. Com uma escuta, porque se você tiver com a escuta você vai estar dentro do que o Shawn (Kinley) chama de Circulo de Possibilidades. E é muito importante também, pra mim, estar livre de qualquer ego, de qualquer coisa que te pressione também. Porque se você está cheio de ego, você tem uma autocrítica maior, você tem que cumprir uma meta que é fazer o público rir e tentar ser melhor até que seu parceiro que está em cena. Ou então quando você está em cena e riem do seu parceiro ,te dando uma trava porque “Riram de você? O que eu tenho que fazer para rirem de mim?” Então, pra mim, Improvisar é estar livre de ego e de qualquer tipo de pressão e ter escuta, pra poder brilhar junto, jogando junto.

Improvisando: Gostaria que você falasse um pouco sobre essa particularidade do Jogando no Quintal que é a relação do Improviso com o Palhaço. Como é vivenciar essa relação tão ambivalente? Como essas duas vertentes se aproximam, como se diferem? Como dar coesão a elas?

Allan: Esse é um pensamento que a gente procura exercitar sempre. O palhaço é improvisador por natureza, só que a improvisação dele é muito mais momentânea. Não tem uma preocupação com que estória eu vou contar, que linha dramatúrgica… Eu vou procurar uma linha dramatúrgica? Não existe isso, ele é mais do acontecimento. A gente ta aqui e acontece de uma latinha cair, por exemplo. Na improvisação, é muito melhor quando essa latinha cai porque precisava cair do que ser um acontecimento atrapalhado. No palhaço os acontecimentos atrapalhados tomam uma importância muito grande, na improvisação o acontecimento atrapalhado pode ser uma desculpa para alguma coisa. Pode ser a característica de um personagem, pode virar uma desculpa para a característica de um personagem. No palhaço não, esse personagem já é por natureza. Então ele pode voar muito mais, sem se preocupar com a lógica, porque a lógica já é dele. Ele já tem sua própria lógica. O improvisador, acredito, procura traçar uma lógica um pouquinho mais… Não realista, ela pode ser fantasiosa, mas que ela seja lógica em tempo integral. O palhaço não necessita disso. Uma outra diferença é que o palhaço é uma figura solitária por natureza, o improvisador pode ser uma figura solitária mas não necessariamente ele é uma figura solitária por natureza.

Só que tem muitas outras coisas que coincidem muito, em muitos pontos. Por exemplo, a escuta no palhaço também é fundamental, acho que é o ponto mais fundamental nos dois. Você tem que estar presente e tem que estar vazio, estar livre de pressão de qualquer pensamento, deixar o pensamento vir. Os dois também trabalham bastante com a relação. Por exemplo, “como eu me relaciono com o outro palhaço?”

Improvisando: E quem são os Improvisadores que tem te inspirado na realização do seu trabalho? Lembro-me de você ter me dito algo sobre o Shawn (Kinley) e o Savignone (Marcelo Savignone)…

Allan: Justamente. Shawn (Kinley) foi pra mim catártico. Essa estória da inspiração, de jogar para o outro. Intuitivamente a gente já até tem essa característica, mas ele consegue verbalizar isso e tem um olhar muito específico, muito pontual. Então em muitos momentos, acontecem coisas durante uma improvisação que após a cena ele fala pontualmente pra você e te ajuda a conseguir detectar. A improvisação tem uma coisa muito boa que é o fato de que observar ensina bastante. Quando eu to dentro de uma improvisação é muito difícil eu conseguir me observar. Porém com o olhar de fora dele, quando ele me pontuava, eu puxava na minha mente a cena e conseguia visualizar esse momento. Então era como se eu tivesse vendo o que tinha acontecido. Foi extremamente didático, aprendi muito com o Shawn.

O (Marcelo) Savignone, pra mim foi o click de que, eu quero fazer essa pesquisa das máscaras, não necessariamente utilizar a máscara como ele utiliza. Mas ele me inspira de lembrar, ele me inspira muito, porque ele é muito virtuoso. Desconstrução de máscaras, de personagens… Era uma pesquisa que já anterior a ele eu já tinha interesse em fazer. Daí quando eu chego, logo no primeiro festival, e vejo um espetáculo como o Sincro? Fiquei passado! Porque é uma habilidade de trocar o personagem e manter o mesmo personagem e você vê que não é uma interpretação, é uma vivência e que acontece na hora. E ele ainda junta o contato-improvisação que é uma coisa que eu adoro também. E música também. Improvisando em todas as áreas! Eu saí do espetáculo falando: “eu quero fazer uma coisa assim!” Sabe? Então é muito inspirador. O Vivo então é mais declarado ainda! Porque é a máscara, né? É a máscara e a relação. É um diálogo com a platéia e de repente acontece a cena. É como um contador de estórias também. E me fascinou, e me fascina e pretendo muito fazer um curso com ele em breve, mais tardar março.

Improvisando: E com relação a Companhias Teatrais no seu trabalho conjunto? Que companhias te agradam no seu trabalho?

Allan: Olha, dos que eu conheço… Españo hablantes a grande maioria, pra mim é parceira e só tem qualidade.

Os mexicanos (Complot/ Escena) tem uma agilidade, um poder de raciocínio. Nem sem como explicar. Eles conseguem abrir os cabos (de idéias), numa improvisação. Por exemplo, você ta numa linha dramatúrgica, você abre um cabo, geralmente você sente uma dificuldade de fazer linkar esses cabos que foram soltos com o cabo principal. Eles tem uma linha dramatúrgica inicial e abrem os cabos e vão conectando muito rápido. É como se eu abrisse um cabo aqui e na fala seguinte já estaria fechando o cabo. Então eles te supreendem a todo momento. Porque o cara fala alguma coisa e você pensa: “O quê?” Mas já na fala seguinte já: “Ah! Entendi.“ Já faz a lógica. E eles são muito bons nisso, são muito hábeis.

O Acción Impro tem uma expressão corporal que poucas companhias que eu conheço tem. Também são muito rápidos, são muito bons em estilos, são muito bons atores. Então o Tríptico é um espetáculo que me envolve de uma maneira… Cada vez que eu vejo me envolve mais, não é que nem um espetáculo de improvisação que você chega e você fala: “Ah, tá, tem essa estrutura, entendi essa estrutura.”  E depois de um tempo você vai falar: ”Ah, mas eu já conheço, já sei como é que é.” Como o próprio Jogando no Quintal acaba acontecendo. As pessoas vão assistir cinco, sete vezes e depois precisa dar um tempinho, só vai assistir de novo dali um ano, dois. Natural. O Tríptico não tem essa característica, é o oposto. Cada vez que eu assisto, me encanto mais pelo espetáculo.

Os espanhóis (Impormadrid) pra mim são mestres. Mestres de uma tranqüilidade, de uma escuta. Aprender escuta com os espanhóis é a coisa mais incrível do mundo. Tem outro ritmo, por exemplo, dos mexicanos e dos colombianos. Eles tem agilidade, mas eu acho que não é o que é interessante para eles. Porque eles gostam de jogar junto com as pessoas, num tempo, num ritmo… Muito um pouco realista, às vezes. Mesmo num universo fantástico eles trazem para uma realidade possível para você.

E o Mamut (Colectivo Teatral Mamut) pra mim… No primeiro momento que eu conheci o Mamut eu tive a sensação de que, como com o Marcelo Savignone, eu precisava trabalhar com esses caras. E até hoje, pra mim, o Mamut também é uma companhia que… são muito generosos todos eles, eles tem uma coisa como todo chileno, muito política, muito ética de querer transformação. Mesmo dentro da improvisação ou fora da improvisação, eu acho que eles procuram uma transformação. Eles são muito politizados, todos eles. E isso me encanta! Os mexicanos também, mas acho que os chilenos ainda mais até pela História deles e tudo mais.  E eu e o Mário (Escobar)  a gente tem uma afinidade que é coisa de irmão. Sou irmão do Mário, do Panqueque (Sérgio Molina), do Nico (Nicolás Belmar), da Juanita (Urrejola), da Mônica (Moya)… Aí é uma outra relação, sabe? Me deu até saudade, me deu vontade de escrever para eles. (Sorri, bastante emocionado). Eu sou muito displicente com essas coisas…

Improvisando: Acho que de alguma forma você já falou bastante sobre isso, mas gostaria muito de saber qual seu atual interesse em termos de formatos de Improvisação. Você faz o Jogando no Quintal, o Improvável, com formato de jogos de Improvisação. Mas também está fazendo o Caleidoscópio que é um Long Form. O que te dá mais prazer em cena? O que te interessa mais em termos de pesquisa? Porque a questão da máscara que você ressaltou é um pouco diferente, né?

Allan: É, é uma outra coisa. Mas, é isso que eu falo. Assim como no Jogando que a gente mistura o Palhaço com a Improvisação, a máscara pra mim pode ser a máscara como na França, por exemplo. Quando você chega no Castelo, você tira a máscara, mas o personagem se mantém. Então a construção de um personagem, também acho que é uma máscara. E a máscara trabalha dentro da relação. Por isso acho que pra mim, está me instigando mais o Long Form hoje em dia, em que posso construir o personagem e a relação. É o que me da mais inspiração e prazer em estar em cena. É onde eu não preciso fazer piada, eu posso simplesmente fazer uma cena bonita, simplesmente fazer uma imagem que me dá prazer.

Acho que espetáculos de curto formato, jogos, outras coisas, me divertem muito, então eu gosto muito de fazer isso também, porque é o momento de criar piada, de se divertir, de não se preocupar muito com a dramaturgia… Às vezes você se perde no meio da improvisação e tudo bem. Perdeu a personagem no meio de uma improvisação, a luta é que não aconteça isso, mas dentro de um jogo curto, é menos impactante para a platéia.

Num Long Form isso é quase imperdoável, você cria um personagem que sai de cena, e não volta mais? Perde-se a resolução da coisa. Num espetáculo de formato curto não, se o jogo foi divertido, tudo bem, não tem problema, né?

Enfim, eu me divirto muito com formato curto, gosto de fazer formato curto, mas hoje em dia pra mim, o que me dá mais tesão é fazer Long Form.

Improvisando: Você falou muito em relação, fala-se muito na questão da relação na Improvisação.  É claro que todos os princípios da Improvisação são importantes, mas você acredita que a questão da relação é o princípio mais pesquisado na Improvisação hoje?

Allan: Não sei se diretamente isso, né? Acho que tem uma pesquisa na Improvisação com relação à Dramaturgia também muito forte. Essa questão que a Rhena (de Faria) levanta muito, e que eu acho fantástico que é um exercício que eu procuro fazer. Até porque tenho menos afinidade do que todo mundo do Caleidoscópio. A questão: “De que estória que eu to contando? De que to falando?” Então essa pesquisa vem em primeiro plano. Eu acho fundamental. Pra mim ela tem que correr paralela a isso que me dá mais prazer que é a relação e o personagem. Mas eu tenho mais prazer nessa pesquisa da relação.

Improvisando: Para terminar, o que você visualiza no futuro da Improvisação?. Um boom de espetáculo de Jogos? Um direcionamento para espetáculos long form? Outras pesquisas?

Allan: Bom é muito difícil falar sobre futuro, né? Mas em todos os países que a gente foi, todas as companhias começam com espetáculos de jogos e a partir deles, passaram para espetáculos de long form. Eu acho isso muito importante porque são nesses espetáculos de jogos que você consegue aplicar mais rapidamente os conceitos de escuta, de estar livre de estar em cena, de motor, de plataforma… Neles, você consegue inserir isso dentro de você, eu acho. Para enfim, quando você tiver num long form, isso sair naturalmente, isso aparecer, você não ter que fazer esforço, você não precisar pensar. Ao invés de pensar, você consegue identificar: “Está faltando mais plataforma… Putz, acho que o público está precisando mais de uma imagem… “

Às vezes acontece até o oposto. Depois do espetáculo, que é o que tem acontecido bastante no Caleidoscópio, você diz: “Nossa, hoje a gente foi muito imagético! Nossa hoje a gente ficou muito verbal e não criou muitas imagens!” Que é a escuta coletiva. É o que o Márcio (Ballas) diz, da consciência do grupo, do pensamento do grupo, que é um terceiro, um fator fora.

O que vai acontecer? Tenho a intuição de que ainda vai ter uma explosão bem grande de espetáculos de jogos, cada vez mais. Os Barbixas conseguiram abrir assim essa porta, pela porta da frente. Então surgiram muitos grupos e eu tenho trabalhado com alguns deles. Acho que é interessante que isso se multiplique mesmo, porque isso também apresenta a Improvisação para o público. Por mais que hoje já tenha espetáculos Long Form, ainda não é de conhecimento geral das pessoas a Improvisação, ainda existe muitas pessoas que não conhecem improvisação, existe muitas pessoas que nem sequer conhecem teatro. Não sabem nem o que é teatro, improvisação pior ainda. Então eu acho que é muito legal se acontecer de ter uma explosão de jogos de improvisação, para difundir isso de uma maneira astronômica, para aí então começar o surgimento desses outros espetáculos Long Form. Ainda é tudo muito igual para as pessoas a Improvisação, é muito próximo até de coisas de humor que não são relacionados à Improvisação como stand up ou então stand up de personagens também. As pessoas confundem com Improvisação e é compreensível, porque quem faz stand-up procura trazer o texto para uma naturalidade e a improvisação traz essa naturalidade porque tudo esta sendo criado na hora.

Enfim, acho que quando tiver essa profusão de espetáculos, vai começar a surgir diferentes formatos de long form, e aí o público vai conseguir entender o que é Improvisação e o que é long form. Porque quando o público que vai num espetáculo de jogo chega num long form, às vezes não vai se divertir tanto. Se for num long form tipo Tríptico, por exemplo, que é um espetáculo mais dramático, que é uma densidade de interpretação, que você pode até ao oposto de rir, chorar… O público que vai pra assistir um jogo quer rir e vai sair decepcionado disso!

Então acho que a Improvisação precisa ainda se difundir muito mais, para que as pessoas conheçam melhor, para surgir mais long forms, e quem sabe até surgir outras coisas por aí também.

Seguem dois vídeos: no Improvável e como o palhaço Chabilson no quadro do Jogando no Quintal no Programa Novo, que foi ao ar na TV Cultura entre 8 de setembro e 5 de novembro.