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Último dia do Festival Internacional Los Improvisadores, no Teatro Oriente, em Santiago. E  cheio. Com 4 eventos no mesmo dia.

Meio dia, começamos com a Charla (bate papo). O convidado foi Rodrigo Malbrán Contre, diretor e fundador da Escuela Internacional del Gesto y la Imagen LA MANCHA.

Malbrán utilizou o espaço para fazer uma mostra de uma hora e meia, dos diversos estágios que passam os alunos durante os dois anos de formação da sua escola, que tem como base a metodologia de Lecoq. Seus graduandos mostraram cenas de utilização de máscara neutra, clown, commedia dell’ arte e por fim o que ele chama de Os Vinte Movimentos.

O trabalho dos alunos é preciso e rigoroso, a construção de cenas primorosa. O trabalho de Malbrán, que muito influenciou a formação dos improvisadores do Colectivo Teatral Mamut, nessa charla, mais do que didático foi umas das melhores possibilidades de entreterimento desse festival.

Seguiu-se às 16 horas a segunda apresentação do espetáculo Teatruras, do Impromadrid da Espanha.

Ignacio Lopez, Ignacio Soriano, Jorge Rueda e o músico Nacho Mastretta novamente fizeram um espetáculo primoroso na construção de estórias, leve, descontraido, ainda mais agradável com a participação das crianças da plateia. Mais sobre Teatruras no post anterior.

O espetáculo com maior sucesso de público do festival, seguiu-se a noite com Súper Escena, do Colectivo Teatral Mamut.

Com Monica Moya, Nico Belmar e Sergio Panqueque Molina, o Colectivo Teatral Mamut mostra a seu público chileno, um espetáculo de improvisação inspirado no cinema.

São propostas três cenas, em três estilos cinematográficos distintos. Os temas são sugeridos pela plateia. Cada uma dessas cenas se inicia e pára num ponto, na qual somente duas delas são eleitas para terem uma continuação. Depois de mais um pouco de desenvolvimento de cada uma das duas estórias, mais uma delas é eliminada, conhecendo o público somente um dos finais.

Espetáculo muito leve, divertido, bem ambientalizado tanto pela luz como pelo seu músico Francisco “Foco”. Os atores têm uma atuação muito forte pela caracterização de seus personagens e pelo seu carisma com o público. Um espetáculo belíssimo.

Fechou-se o festival com uma enorme festa. Teatro de Gorilas. Cada um dos músicos de suas companhias (Francisco “Foco” Cerda-Mamut, Cristiano Meirelles-Jogando no Quintal, Leonardo Prieto-Complot Escena, Nacho Mastretta-Impromadrid e Sebastian Rodrigues-La Gata Impro) e a banda do Teatro de Gorilas, fizeram a trilha sonora e os efeitos sonoros do espetáculo.

Foram 6 os diretores convidados: Ignacio Soriano (do Impromadrid da Espanha), Rodrigo Bello (do Improcrash da Argentina), Carlos Alberto Urrea Lasprilla (do La Gata Impro da Colômbia), Sergio Panqueque Molina (do Colectivo Teatral Mamut do Chile), Marcio Ballas (do Jogando no Quintal do Brasil) e Frank Totino (do Loose Moose do Canadá).

Os jogadores convidados foram:

– Florian Toperngpong e Nadine Antler da Alemanha.

– Charo Lopes, Luciano Barreda, Luciano Cohen, Marcelo Savignone, Omar Argentino Galván e Pau Farias da Argentina.

– Mateus Bianchim do Brasil.

-Monica Moya e Nico Belmar do Chile.

– Daniel Orrantia, Felipe Ortiz, Juan Gabriel Turbay e Mabel Moreno da Colômbia.

-Jorge Rueda da Espanha.

-José Luis Saldaña, Juan Carlos Medellín e Omar Medina do México.

A oportunidade de ver cenas propostas por aqueles que certamente estavam entre os maiores nomes da improvisação mundial, tornaram esse último espetáculo uma torre de babel de atuações, propostas, divertimento em cena e aprendizagem. Destaco, sem querer absolutamente desmerecer ninguém, o encontro antológico de parte do Sucesos Argentinos (Marcelo Savignone e Omar Argentino) que foi das grandes inspirações da improvisação latino americana com a nova geração de talentosos improvisadores argentinos (Improcrash) em cena nesse espetáculo. Memorável e emocionante.

Ao fim do espetáculo, todas as companhias foram merecidamente chamadas ao palco para serem homenageadas e a noite se seguiu com uma grande festa reunindo público, banda e atores num dos eventos mais fantásticos e audaciosos que a Improvisação mundial já assistiu.

Meus parabéns e muito obrigada a todos os amigos chilenos, a produção (meu especial a Andreia e a Loreto), equipe técnica do teatro, aos queridos amigos Monica, Nico, Panqueque e Francisco “Foco” Cerda do Colectivo Teatral Mamut pela hospitalidade, generosidade e iniciativa tão incrível de reunir as grandes companhias e pensadores da Improvisação Mundial da atualidade.

Meus parabéns  e muitíssimo obrigada também a todos os amigos e mestres Frank Totino, Angélica Rogel, José Luis Saldaña, Juan Carlos Medellín, Leonardo Prieto, Omar Medina, Carlos Alberto Urrea Asprilla, Daniel Orrantia, Felipe Ortiz, Juan Gabriel Turbay, Mabel Moreno, Sebastian Rodrigues, Allan Benatti, Cristiano Meirelles, Ernani Sanchez, Marcio Ballas, Marco Gonçalves, Rhena de Faria, Guilherme Tomé, Mario Escobar Olea, Mateus Bianchim, Charo Lopes, Luciano Barreda, Rodrigo Bello, Luciano Cohen, Marcelo Savignone, Omar Argentino GalvánFlorian Toperngpong, Nadine Antler, Ignacio Lopez, Ignacio Soriano e Jorge Rueda, Nacho Mastretta, Suso33. Vocês tornaram essa semana uma grande festa da improvisação mundial, pelas suas capacidades de viver verdadeiramente os conceitos da improvisação por estarem sempre presentes e afirmarem honesta e generosamente a amizade, aumentando e engrandecendo essa enorme corrente da Impro mundial.

Não devo esquecer dos amigos Adonis Camelato (do Olaria GB) e Rafael Protzner (do UMA Companhia) que compartilharam comigo diversão e aprendizagem.

Vimos atuações surpreendentes e impactantes como X- ha Muerto do Complot Escena e  propostas inovadoras como Corten do Impromadrid, que ao final, destacaram-se nesse festival. Mas nos entusiasmamos com o ritmo jovem, talentoso e coeso do Links do Improcrash. Admiramos a habilidade corporal dos colombianos no TellAraña do La Gata Impro. Nos emocionamos com as atuações solo impressionantes dos genios argentinos Omar Argentino Galván e Marcelo Savignone. Chilenos entusiasmados aplaudiram de pé por quase cinco minutos ao final do espetáculo dos nossos mestres brasileiros do Jogando no Quintal com o Caleidoscópio. Casa quase totalmente cheia de espectadores-fãs que ensurdeceram o Teatro Oriente para ver o espetáculo leve, descontraído e conciso com Colectivo Mamut com o Súper Escena.

Mas por fim, o que se destaca são as possibilidades de intercâmbio de conhecimento, discussões, propostas distintas, novas idéias de concepção, formatos, exercícios, teorias,  que foram pipocando aqui e ali entre uma taça de Sauvignon Blanc, uma cerveja Guayacan, um ceviche, uma salada de palta, um sorvete de lucuman, um poema de Pablo Neruda ou uma simples pausa para curtir o sol brando e o vento fresco. A tão inspiradora cidade de Santiago, se tornou cenário para o desenvolvimento dessas idéias que certamente plantaram a semente que desenvolverá, nesse solo fértil de tantos talentos humildemente ainda ávidos por ainda mais conhecimento e exercício da arte, a revolução proposta por essa grande escola e filosofia de vida que é a Improvisação Teatral.

Que esse post seja, mais que uma mera descrição do que foi esse festival, meus sinceros sentimentos a respeito dos oito dias mais emocionantes e edificantes que vivi desde que decidi me aventurar pelo curioso e instigante mundo da Impro.

Muito obrigada improvisadores de todo o mundo.

César Gouvea é reconhecidamente uma lenda na Improvisação brasileira. É ator formado pela EAD (Escola de Artes Dramática) da ECA/USP. Trabalhou com Cristiane Paoli Quito, Chacovacchi e Léo Bassi.

O dr. Palhaço Cizar Parker integrou a equipe dos Doutores da Alegria (http://www.doutoresdaalegria.com.br)  inclusive fazendo parte do filme de 2005, vencedor do prêmio de melhor filme do Festival de Cinema de Nova Iorque e dos Prêmios Especial do Júri e Júri Popular na 33a Edição do Festival de Gramado.

Nos Doutores da Alegria, em 2001,  em conjunto com Márcio Ballas (dr. João Grandão), teve a idéia de criar mecanismos de treino e pesquisa de duas de suas grandes paixões (Clown e Improviso). Após sete meses de investigação e formatação de um espetáculo, passaram a chamar outros colegas palhaços interessados na mesma pesquisa. Começaram a organizar pequenos eventos no quintal de sua casa, até hoje localizada à rua Cotoxó, 337, em São Paulo. Assim nasce o Jogando no Quintal (http://www.jogandonoquintal.com.br), espetáculo de Improvisação de Palhaços.

Atualmente, César Gouvea mantém-se como o palhaço-atleta Cizar Parker do Jogando no Quintal. Também é diretor, dramaturgo e ator da peça de Improvisação Infantil O Mágico de Nós.

Na entrevista que se segue, César Gouvea discorre um pouco sobre a trajetória de sua carreira e suas impressões a respeito da Improvisação Teatral, em seus conceitos e rumos. Impressiona a generosidade com que divide sua sabedoria  e a empolgação com que busca novas compreensões e novos rumos para a Impro.

Improvisando:  Gostaria que vc começasse resumindo os trabalhos nos quais vc está envolvido hoje.

César: Estou envolvido com o Jogando no Quintal, o Mágico de Nós, e aí tem um espetáculo que eu estou fazendo com o Gustavo (Miranda Angél) do Acción Impro, mas na verdade todo o processo que a gente fez foi através da Improvisação. Só que a gente não sabe se o espetáculo no fim, vai ser improvisado ou a improvisação foi apenas o veículo para a gente ter formatado numa estrutura, num texto. Então a gente ainda tem mais um mês de ensaio para a estréia esse ano para saber isso. A princípio nos nossos dois encontros, a improvisação serviu como um veículo pra chegar num determinado texto. Outra coisa que eu quero começar a fazer na verdade, que foi uma criação junto com o Jorge (Rueda) do Impromadrid,  é o tabuleiro 13 que na verdade a gente já fez numa apresentação numa empresa, mas no ano que vem eu quero fazer com que ele exista uma vez por semana, uma vez por mês, que é um jogo de Improvisação em forma de tabuleiro, sem usar o nariz de palhaço. Então esses seriam meus 4 projetos.

Improvisando:  O que é Improvisação Teatral? Quais são os princípios em que se embasa?

César: Então, o Jogando, durante nossos primeiros 3 anos, foi muito  intuitivo, porque a única base que a gente tinha de Improvisação era pelo Nova Dança ( da Cristiane Paoli Quito) http://www.novadanca.com.br. O Nova Dança é uma Improvisação que não tinha como objetivo a dramaturgia. Então a gente tentou pegar os princípios do Nova Dança que era muito trabalho de conexão ( uma conexão extremamente corporal) e a partir da aí a gente intuitivamente ia pro lado da dramaturgia, porque a nossa intenção sempre foi fazer uma improvisação teatral. E para mim a Improvisação teatral é onde o palco está na dramaturgia, na construção de estória e na construção de personagem. Só depois de 4 anos trabalhando, que através de festivais de improvisação que a gente viu que muitas dúvidas que a gente tinha, quando essas pessoas vieram pra cá, trouxeram as respostas pra gente. E a gente conheceu que existia pessoas que desenvolviam essa coisa de Improvisação Teatral. Então a gente não tem uma formação muito de estudo de textos, a técnica veio muito empiricamente, através da ação, do fazer e só depois que a gente foi pondo um pouco a teoria. Então o que eu acho o que é a Improvisação Teatral, é uma improvisação em que o grande foco é você construir uma cena na hora, mas que haja uma dramaturgia, haja um começo, meio e fim. E tem esses princípios básicos da Improvisação que é a escuta, dizer sim pro parceiro, você trabalhar o momento presente, você trabalhar a espontaneidade. E a partir daí dependendo da estrutura que você cria da sua improvisação há pesquisas diferentes.

Improvisando: Bom, creio que você já respondeu parte dessa pergunta de como surgiu a Improvisação na sua carreira. Ela parece ter vindo posterior à uma experimentação intuitiva…

César: Foi depois. Interessante que a gente antes de construir uma estória, a gente não pensava num personagem, a gente não pensava em motores vocais, por exemplo. O único motor que a gente pensava se baseava nos motores do Nova Dança que era vamos começar nossa improvisação conectando nossa escápula, conectando nossa coluna, conectando nossa tíbia. E a partir daí nós construímos uma estória.

Improvisando: O que lembra bastante os exercícios de teatro físico do Augusto Boal.

César: E que nos trouxe também até hoje essa coisa física, de imagens. Essa conexão por si só nos traz para imagens, independente de você querer, então o corpo ele se torna um grande motor de imagens. É algo que particularmente mesmo conhecendo hoje mais amplamente a improvisação é algo que eu sinto que o Jogando ainda preserva porque gosta.

Improvisando:  Gostaria que você falasse um pouco sobre o Jogando no Quintal que tem essa vertente singular na Impro em todo mundo, que é a aplicação de técnicas de Clown junto ao Improviso. De que maneiras se encontram o Clown e a Impro? Em que aspectos elas se diferenciam?

César: É engraçado que assim, a gente também percebeu em toda essa nossa pesquisa pela América Latina e na Europa que tem poucos grupos que trabalham palhaço e improvisação. E é curioso porque quando a gente vai para um festival de palhaços eles nos dizem que nós somos bons improvisadores, e quando vamos num festival de improvisação dizem que nós somos bons palhaços. E que nós vivemos nessa linha tênue, que em todos esses 7 anos, tem anos que nós pesamos mais na questão da improvisação do que no palhaço, tem anos que a gente está mais palhaço que improvisador e tem ano que está mais equilibrado. E isso muda às vezes de espetáculo para espetáculo, dizemos: ” hoje nosso espetáculo estava muito palhacesco, esse espetáculo estava muito improvisação”. Então a gente hoje consegue lidar de uma maneira mais saudável com essa não resposta, com essa linha mesmo bem tênue entre o palhaço e improvisação. Porque muitas vezes essas linguagens se constrataram. Então às vezes a improvisação por exigir o raciocínio fez com que o palhaço sumisse e o palhaço por ser tão caótico, por deturpar tanto as coisas, levava a estória também para um caminho que não virava uma estória. Eles são bem contrastantes às vezes. Eu sinto que nas pessoas que não tem nenhuma experiência de palhaço a improvisação mexe com um estado de presença e de espontaneidade que também pode mexer com conceitos muito fortes do palhaço. Por exemplo, o grupo Accion Impro (http://www.accionimpro.com), eles acabam cada um tendo quase uma maneira arquetípica de improvisar seu personagem e isso poderia ser um bom ponto de partida para descobrir os palhaços de cada um deles. Na companhia do Chile (Companhia Teatral Mamut) (http://mamutaccion.blogspot.com) também. Então eu sinto que quando nós fazemos improvisações,  não é o ator que improvisa, e sim uma persona: essa persona criativa, essa persona espontânea e essa persona ela tem alguns pontos semelhantes do palhaço. Então às vezes a improvisação por si só usa algumas ferramentas semelhantes do palhaço, que faz com que você diga: “olha, esse seria um bom ponto de partida para se desenvolver um palhaço”.

Improvisando: Quais companhias no mundo você acredita que hoje fazem os trabalhos mais incríveis?

César: Sem duvida é o Accion Impro, que é o grupo da Colômbia. Hoje eles me inspiram primeiro porque é um grupo que tem 5 ou 6 espetáculos de improvisações totalmente diferentes um do outro. Isso me impressionou bastante. A outra coisa é que vieram de uma experiência de um grupo de teatro que se encantou pela Improvisação. Então o lado teatral deles é muito forte, e eu venho do teatro. Então uma coisa que eu que eu gosto muito é dessa relação do teatro com a improvisação. Inclusive eu me identifico ainda mais hoje porque eles estão nessa, não uma crise, mas uma investigação diferente:  o último espetáculo que eles fizeram foi um espetáculo de um dramaturgo argentino, não foi um espetáculo de improvisação. Então eles estão questionando o que que a gente faz com toda essa linguagem de improvisação que nos serviu durante 7 anos? Qual será nosso próximo passo?  Será apenas criar mais um formato de espetáculo de improvisação ou transcender essa linguagem e nos surpreender com o próximo espetáculo? Isso me faz me identificar muito com eles porque quando eu vejo um espetáculo de improvisação eu não chego a me identificar com o espetáculo como um produto.  “Nossa, esse espetáculo eu gostaria de fazer!”  E sim, quase que eu acabo que, dentro de mim, montando um quebra-cabeça dos espetáculos que eu vejo e o que me encanta mais é a potência que a improvisação pode chegar, mais do que os formatos que são criados. Eu acho que a improvisação pode chegar num estado que é incrível que é ser criado na hora, mas que possa também ter a força de um texto que já foi criado há muitos anos. Porque a minha grande inquietação é que a improvisação possa gerar personagens tão bem construídos e textos tão geniais que o teatro te dá tempo pra isso. Você tendo dois meses para estudar um personagem e  uma vida inteira para construir um texto. Eu sinto que a improvisação pode chegar nesse lugar só que ela vai ter algo diferente do teatro porque vai ser tudo construído na hora e isso vai trazer uma magia que pode ser encantadora. Isso eu vejo muito no Accion Impro. Vejo que numa rapidez enorme, os personagens que são criados através da Improvisação são personagens riquíssimos em detalhes em que você fala: “Nossa, são personagens que é impossível eles não tenham estudado 2 meses para construir.” Então é algo que me encanta muito essa coisa desse diálogo que eles tem entre improvisação e teatro, que outros grupos tem suas outras virtudes, mas eles são realmente incríveis.

Improvisando: Em termos individuais, quem são os Improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?

César: Olha fiquei impressionado com o argentino, o Savignone (Marcelo Savignone) (http://www.marcelosavignone.com), né? Fiquei impressionado com ele. Ah, fico impressionado com os atores do Accion Impro, como já falei. E fico impressionado também com a maneira com que os atores do Impromadrid trabalham porque em todas as cenas por mais que seja um espetáculo cômico de cenas rápidas, tem conteúdo. Isso me impressiona. O que me impressiona também no Impromadrid  (http://impromadrid.com) é que você sai do espetáculo falando sobre as reflexões que as cenas construídas na hora foram geradas. Isso me identifico também. Por exemplo, o que eu não gosto muito é onde quando vou ver um espetáculo de improvisação, em que você fica apenas na virtuose da improvisação, que você termina e diz: “Nossa, você viu como ele fez isso,  como ele fez isso, como ele fez isso? ”  Eu acho que o teatro está a serviço a mais do que isso, então acho que você sair de um espetáculo de teatro e comentando “olha o ator fez isso” é limitador, ele é quase a arte egocêntrica. Ele não sai daquela dimensão “daquele ator capaz de realizar aquilo”. O que eu busco quando eu vou ver um espetáculo é que eu saia, não falando do ator e sim do que ele quis dizer. Sair e ponderar: “é um espetáculo que fala sobre morte” e me faça pensar sobre morte. É um espetáculo que fale sobre amor e não se limite à:  “nossa você viu aquela cena em que o cara veio para perdoar” . Não, o que me encanta é falar: “Nossa o amor, olha o amor hoje em dia!” E isso eu vejo muito no Impromadrid. Então, na verdade, o que me chama a atenção nos grupos são quase elementos que reforçam uma inquietude que eu tenho em relação ao que a improvisação pode chegar, mais que me encantar com formatos que já foram criados.

Improvisando:  O que mais tem te trazido interesse em Improvisação hoje? Jogos de Improvisação ou espetáculos mais longform?

César: Eu me encanto com espetáculos onde eu não veja o formato. É engraçado. Eu, para fazer, atualmente estou me divertido muito em jogos, mas não para assistir. É diferente. Para fazer me divirto muito em jogos , curtos, mas para assistir é quando eu não vejo o formato. É quando o formato não é o protagonista.  Você sai do espetáculo e perguntam: “você viu o formato desse?”  Não,  eu não vi o formato. Ele serviu apenas como ferramenta para chegar em algum lugar. Isso me encanta. É triste quando o que vejo  foi só o formato.

Improvisando: Qual é o princípio (teórico) da Improvisação que é hoje mais motivo de investimento e pesquisa no mundo?

César: Então, a principio, estuda-se muito a plataforma, dizer sim. Mas se você ver hoje, nesses grupos que estão há 8 anos juntos, esse dizer sim para o parceiro já é não cabe mais como conceito. É claro que tudo é estudado como tem que ser: não dá para você começar uma cena sem uma plataforma, sem uma construção, sem dizer sim para o parceiro. Mas se você vê um grupo de 8 a 10 anos, eles já transcenderam isso, e já estão buscando outras formas de improvisar sem seguir esse roteiro, que em princípio foi tão importante. E só podem chegar em outro estágio, porque a plataforma e o sim estão tão orgânicos, que já podem ir para novos vôos. No começo não, no começo de um curso que estou dando, você fala assim: “não é para dizer sim para o parceiro, mas contar o que você está sentindo”. Me lembro de  um curso do Improbable (http://www.improbable.co.uk) que foi muito bacana em que ele diz: “Vamos correr?” E aí  você tem que dizer sim e vai correr. Mas, e se você está com uma puta dor de barriga? Eu não vou correr, eu estou com uma dor de barriga. O não pode ser sim também. Mas isso é muito difícil, passar esse conceito no começo. A improvisação (só agora eu posso falar isso) tem que começar com regras bastante rígidas para você entender, para você iniciar, para depois essas regras se tornarem mais invisíveis. Acho que é um processo natural.

Improvisando: Para onde vai a Impro? (o futur0)

César: Interessante, acho que a improvisação, ela pode continuar existindo. Muitas pessoas vão ter acesso à improvisação. Então acho que ainda vai ter um tempo que a gente vai ver formatos parecidos, porque acho que gente tem que passar por eles. Para a gente transcender, para a gente ter nosso depoimento, é natural que a gente passe por jogos, pelo match. Todo grupo (a gente foi uma exceção com o Jogando) mas todo grupo fez o match, fez os jogos rápidos, é quase uma faculdade. Mas sabe? Talvez a improvisação faça com que você seja um ator que conheça muito bem a dramaturgia. E também uma questão de direção. Ele faz um ator-diretor-dramaturgo junto. Então às vezes uma pessoa por mais que conheça improvisação, possa se tornar um grande dramaturgo, começar a escrever texto. Possa se tornar um grande diretor. Porque a Improvisação te dá elementos que no teatro convencional como ator não te dá. Porque tem função de diretor, dramaturgo e o ator executa. O improvisador precisa ser ao mesmo tempo diretor e dramaturgo. Então a improvisação pode te dar ferramentas que te surpreenda e pense: “estou aprendendo, eu nunca pensei que soubesse escrever, mas estou pensando dramaturgicamente numa cena.” “Nossa, eu não consigo mais não pensar em termos de direção nessa cena.” Então eu acho que a improvisação vai sempre ter esses formatos, mas eu acho que pode surgir muitas coisas novas, às vezes até independentes da improvisação. Esse teste, um dia na improvisação, mas não necessariamente a vida inteira fazendo improvisação, mas ir para outros lugares.

Veja abaixo, a entrevista de César Gouvea, contando sobre a estória do Jogando no Quintal na estréia do Programa Novo na TV Cultura. O quadro perdurou entre 8 de setembro e 27 de outubro de 2009.