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Último dia do Festival Internacional Los Improvisadores, no Teatro Oriente, em Santiago. E  cheio. Com 4 eventos no mesmo dia.

Meio dia, começamos com a Charla (bate papo). O convidado foi Rodrigo Malbrán Contre, diretor e fundador da Escuela Internacional del Gesto y la Imagen LA MANCHA.

Malbrán utilizou o espaço para fazer uma mostra de uma hora e meia, dos diversos estágios que passam os alunos durante os dois anos de formação da sua escola, que tem como base a metodologia de Lecoq. Seus graduandos mostraram cenas de utilização de máscara neutra, clown, commedia dell’ arte e por fim o que ele chama de Os Vinte Movimentos.

O trabalho dos alunos é preciso e rigoroso, a construção de cenas primorosa. O trabalho de Malbrán, que muito influenciou a formação dos improvisadores do Colectivo Teatral Mamut, nessa charla, mais do que didático foi umas das melhores possibilidades de entreterimento desse festival.

Seguiu-se às 16 horas a segunda apresentação do espetáculo Teatruras, do Impromadrid da Espanha.

Ignacio Lopez, Ignacio Soriano, Jorge Rueda e o músico Nacho Mastretta novamente fizeram um espetáculo primoroso na construção de estórias, leve, descontraido, ainda mais agradável com a participação das crianças da plateia. Mais sobre Teatruras no post anterior.

O espetáculo com maior sucesso de público do festival, seguiu-se a noite com Súper Escena, do Colectivo Teatral Mamut.

Com Monica Moya, Nico Belmar e Sergio Panqueque Molina, o Colectivo Teatral Mamut mostra a seu público chileno, um espetáculo de improvisação inspirado no cinema.

São propostas três cenas, em três estilos cinematográficos distintos. Os temas são sugeridos pela plateia. Cada uma dessas cenas se inicia e pára num ponto, na qual somente duas delas são eleitas para terem uma continuação. Depois de mais um pouco de desenvolvimento de cada uma das duas estórias, mais uma delas é eliminada, conhecendo o público somente um dos finais.

Espetáculo muito leve, divertido, bem ambientalizado tanto pela luz como pelo seu músico Francisco “Foco”. Os atores têm uma atuação muito forte pela caracterização de seus personagens e pelo seu carisma com o público. Um espetáculo belíssimo.

Fechou-se o festival com uma enorme festa. Teatro de Gorilas. Cada um dos músicos de suas companhias (Francisco “Foco” Cerda-Mamut, Cristiano Meirelles-Jogando no Quintal, Leonardo Prieto-Complot Escena, Nacho Mastretta-Impromadrid e Sebastian Rodrigues-La Gata Impro) e a banda do Teatro de Gorilas, fizeram a trilha sonora e os efeitos sonoros do espetáculo.

Foram 6 os diretores convidados: Ignacio Soriano (do Impromadrid da Espanha), Rodrigo Bello (do Improcrash da Argentina), Carlos Alberto Urrea Lasprilla (do La Gata Impro da Colômbia), Sergio Panqueque Molina (do Colectivo Teatral Mamut do Chile), Marcio Ballas (do Jogando no Quintal do Brasil) e Frank Totino (do Loose Moose do Canadá).

Os jogadores convidados foram:

– Florian Toperngpong e Nadine Antler da Alemanha.

– Charo Lopes, Luciano Barreda, Luciano Cohen, Marcelo Savignone, Omar Argentino Galván e Pau Farias da Argentina.

– Mateus Bianchim do Brasil.

-Monica Moya e Nico Belmar do Chile.

– Daniel Orrantia, Felipe Ortiz, Juan Gabriel Turbay e Mabel Moreno da Colômbia.

-Jorge Rueda da Espanha.

-José Luis Saldaña, Juan Carlos Medellín e Omar Medina do México.

A oportunidade de ver cenas propostas por aqueles que certamente estavam entre os maiores nomes da improvisação mundial, tornaram esse último espetáculo uma torre de babel de atuações, propostas, divertimento em cena e aprendizagem. Destaco, sem querer absolutamente desmerecer ninguém, o encontro antológico de parte do Sucesos Argentinos (Marcelo Savignone e Omar Argentino) que foi das grandes inspirações da improvisação latino americana com a nova geração de talentosos improvisadores argentinos (Improcrash) em cena nesse espetáculo. Memorável e emocionante.

Ao fim do espetáculo, todas as companhias foram merecidamente chamadas ao palco para serem homenageadas e a noite se seguiu com uma grande festa reunindo público, banda e atores num dos eventos mais fantásticos e audaciosos que a Improvisação mundial já assistiu.

Meus parabéns e muito obrigada a todos os amigos chilenos, a produção (meu especial a Andreia e a Loreto), equipe técnica do teatro, aos queridos amigos Monica, Nico, Panqueque e Francisco “Foco” Cerda do Colectivo Teatral Mamut pela hospitalidade, generosidade e iniciativa tão incrível de reunir as grandes companhias e pensadores da Improvisação Mundial da atualidade.

Meus parabéns  e muitíssimo obrigada também a todos os amigos e mestres Frank Totino, Angélica Rogel, José Luis Saldaña, Juan Carlos Medellín, Leonardo Prieto, Omar Medina, Carlos Alberto Urrea Asprilla, Daniel Orrantia, Felipe Ortiz, Juan Gabriel Turbay, Mabel Moreno, Sebastian Rodrigues, Allan Benatti, Cristiano Meirelles, Ernani Sanchez, Marcio Ballas, Marco Gonçalves, Rhena de Faria, Guilherme Tomé, Mario Escobar Olea, Mateus Bianchim, Charo Lopes, Luciano Barreda, Rodrigo Bello, Luciano Cohen, Marcelo Savignone, Omar Argentino GalvánFlorian Toperngpong, Nadine Antler, Ignacio Lopez, Ignacio Soriano e Jorge Rueda, Nacho Mastretta, Suso33. Vocês tornaram essa semana uma grande festa da improvisação mundial, pelas suas capacidades de viver verdadeiramente os conceitos da improvisação por estarem sempre presentes e afirmarem honesta e generosamente a amizade, aumentando e engrandecendo essa enorme corrente da Impro mundial.

Não devo esquecer dos amigos Adonis Camelato (do Olaria GB) e Rafael Protzner (do UMA Companhia) que compartilharam comigo diversão e aprendizagem.

Vimos atuações surpreendentes e impactantes como X- ha Muerto do Complot Escena e  propostas inovadoras como Corten do Impromadrid, que ao final, destacaram-se nesse festival. Mas nos entusiasmamos com o ritmo jovem, talentoso e coeso do Links do Improcrash. Admiramos a habilidade corporal dos colombianos no TellAraña do La Gata Impro. Nos emocionamos com as atuações solo impressionantes dos genios argentinos Omar Argentino Galván e Marcelo Savignone. Chilenos entusiasmados aplaudiram de pé por quase cinco minutos ao final do espetáculo dos nossos mestres brasileiros do Jogando no Quintal com o Caleidoscópio. Casa quase totalmente cheia de espectadores-fãs que ensurdeceram o Teatro Oriente para ver o espetáculo leve, descontraído e conciso com Colectivo Mamut com o Súper Escena.

Mas por fim, o que se destaca são as possibilidades de intercâmbio de conhecimento, discussões, propostas distintas, novas idéias de concepção, formatos, exercícios, teorias,  que foram pipocando aqui e ali entre uma taça de Sauvignon Blanc, uma cerveja Guayacan, um ceviche, uma salada de palta, um sorvete de lucuman, um poema de Pablo Neruda ou uma simples pausa para curtir o sol brando e o vento fresco. A tão inspiradora cidade de Santiago, se tornou cenário para o desenvolvimento dessas idéias que certamente plantaram a semente que desenvolverá, nesse solo fértil de tantos talentos humildemente ainda ávidos por ainda mais conhecimento e exercício da arte, a revolução proposta por essa grande escola e filosofia de vida que é a Improvisação Teatral.

Que esse post seja, mais que uma mera descrição do que foi esse festival, meus sinceros sentimentos a respeito dos oito dias mais emocionantes e edificantes que vivi desde que decidi me aventurar pelo curioso e instigante mundo da Impro.

Muito obrigada improvisadores de todo o mundo.

O Festival Los Improvisadores prossegue hoje com bastante atividade.

Começamos à tarde com o espetáculo Teatruras do Impromadrid, da Espanha.

Ignacio López, Ignacio Soriano e Jorge Rueda são desafiados pelo Senhor Teatro a mostrarem que tem condições de frequentar aquele espaço. Para isso, tem que passar por provas que ajudam didaticamente o público a conhecer quais são os elementos importantes que compõem um espetáculo de teatro: cenário, luz, personagens, estilos são algumas das cenas propostas cada uma delas, construídas por plataformas pedidas ao público.

No espetáculo, um telão nos apresenta o “Recadero” era chamado para dar explicações e também propor os desafios para os atores.

Contam também com a participação musical do maestro Nacho Mastretta.

Durante o espetáculo a platéia é convidada a participar da peça.

Um espetáculo belíssimo, delicado e com a já conhecida execução impecável do grupo.

Segue-se a noite com o espetáculo Vivo, solo de Marcelo Savignone.

Um cheiro inebriante de Palo Santo (madeira sagrada) e uma música com inspiração parte eletrônica, parte oriental nos convida a adentrar a atmosfera proposta por Marcelo Savignone.

Através de um exercício de extrema concentração e de adentrar-se dentro desse clima que  Marcelo Savignone escolhe uma a uma as máscaras que comporão seus personagens.

Num dado momento, após uma consecutiva viagem por cada um dos seus personagens, construindo estórias baseadas em temas propostos pelo público, Marcelo Savignone abandona sua máscara e mergulha nos seus personagens sobre uma quase penumbra, entrelaçando as estórias e seus personagens.

É um espetáculo de execução impressionante e que nos leva a lugares absolutamente desconhecidos de nós mesmos. Absolutamente inesquecível.

Segue-se a noite, com Stage Time.

Nesse formato se propõe que cada um dos três times, cada time esse composto por jogadores distintos de cada país, iniciem uma cena, que a qualquer momento pode ser interrompida pelo outro time até que se complete sua estória, dentro de um tempo pré estabelecido.

O espetáculo foi apresentado por Mateus Bianchim.

Equipe 1:

Florian Toperngpong, do Die Kaktussen da Alemanha.

José Luis Saldaña, do Complot Escena do México.

Nico Belmár, do Colectivo Teatral Mamut do Chile.

Pau Farias, do Improcrash da Argentina.

Rhena de Faria, do Jogando no Quintal do Brasil.

Equipe 2:

Charo Lopez, do Improcrash da Argentina.

Ignacio López, do Impromadrid da Espanha.

Mabel Moreno, do La Gata Impro da Colômbia.

Omar Argentino Galván, do Improtour da Argentina.

Omar Medina, do Complot Escena do México.

Equipe 3:

Daniel Orrantia, do La Gata Impro da Colômbia.

Luciano Barreda, do Improcrash da Argentina.

Marcio Ballas, do Jogando no Quintal do Brasil.

Monica Moya, do Colectivo Teatral Mamut do Chile.

Rodrigo Bello, do Improcrash da Argentina.

Amanhã no último dia do Festival, Charla (com Rodrigo Malbán e Frank Totino), Teatruras do Impromadrid, Super Escena do Colectivo Teatral Mamut e encerra-se o festival com o Teatro de Gorilas (com seis diretores de cenas).

Tive a felicidade de conhecer Débora Vieira há poucos dias.  Vi pessoalmente, a mesma atriz que imaginava tão apaixonada pelas artes, em particular pela Improvisação Teatral. E é com essa mesma paixão, que ela relata aqui suas impressões sobre esse mundo da Improvisação Teatral e a luta para erguer seu espetáculo Dos Gardenias.

1)      Gostaria que vc começasse resumindo os trabalhos com os quais vc está envolvida hoje.

Eu faço parte da UMA Companhia, de Belo Horizonte, de cuja formação fiz parte. Trabalhamos com improvisação desde 2006, e temos 3 espetáculos em repertório, o Match de Improvisação, no qual eu atuo como jogadora e como juíza, e o Sobre Nós, do qual eu não faço parte, porque, quando da montagem, eu estava montando um outro trabalho de teatro, o espetáculo Cortiços, junto à Companhia de Teatro Luna Lunera, de Belo Horizonte. E, também, nosso último trabalho, que acabou de estrear, o Dos Gardenias Social Club (clipping), trabalho de minha concepção e direção, e no qual também atuo.

Além disso, também ajudo a coordenar as atividades da UMA Escola de Impro, aqui em Belo Horizonte. Oferecemos cursos regulares para pessoas com e sem experiência em teatro, e realizamos, com os alunos, aulas abertas e o espetáculo Mister Impro, na conclusão do semestre.

Minha dissertação de mestrado, em desenvolvimento no Poslit da UFMG, também é sobre improvisação. Eu estudo a dramaturgia da improvisação, propondo um estudo comparativo entre a comédia dell’arte e os espetáculos improvisados na atualidade, mais especificamente o Humor Mierda, do grupo mexicano Complot Escena, e também o Caleidoscópio, do Jogando no Quintal.

2) O que é Improvisação Teatral? Quais são os princípios em que se embasa?
Acho que a improvisação é um banquete composto de comida para todos os gostos… e eu ainda estou desfrutando a entrada. Há todo um mundo a ser descoberto no campo da impro, mas o que mais me instiga é a certeza de que, mesmo quando já estivermos saboreando a sobremesa, isso deve ser feito com os mesmos princípios do começo: a tranqüilidade, a generosidade com o que se experimenta e também com aqueles que compartilham da mesma mesa, a capacidade de degustar cada pedaço de cada prato. Vendo os grupos mais experientes, que muito me inspiram, percebo que toda a perícia e virtuose deles só é possível porque eles se aprofundaram nas premissas básicas da impro: a cumplicidade com o companheiro de cena, a sinceridade consigo mesmo e a disposição para desfrutar do trabalho que se realiza. A partir disso, o que mudam são os desejos artísticos de cada grupo, de cada artista, e é o que vai dar o tom de cada trabalho…


3) Como surgiu a Improvisação na sua carreira?

Surgiu em 2006, sem eu ter necessariamente escolhido isso. A Mariana Muniz, que há pouco havia voltado da Espanha, onde trabalhou durante anos com o Impromadrid, postulou uma vaga para dirigir a montagem do curso profissionalizante de teatro que eu fazia, no Centro de Formação Artística (CEFAR), do Palácio das Artes. Ela nos apresentou a linguagem, o treinamento, e dirigiu o Match de Improvisação. No meu caso, foi uma experiência cheia de altos e baixos, já que eu de cara me defrontei com muitos bloqueios. Mas eu resolvi agarrar o boi pelo chifre, já que tem muitas coisas que me atraem na impro. A impro vicia, não? A sensação de que se pode tudo (ainda que saibamos que não é bem assim…), de que se pode celebrar um encontro a cada cena… Isso é mágico!
Considero, também, que em 2009 a impro surgiu na minha vida por uma segunda vez, quando eu fiz uma oficina com o canadense Shawn Kinley. Na época eu morava no Chile, estudava a impro junto ao Colectivo Mamut, e acho que o encontro com o Shawn mudou todas as minhas perspectivas a respeito dessa linguagem.

4) Recentemente Allan Benatti comentava comigo a dúvida que tinha com relação à escassez de mulheres no Improviso. A que você acha que se deve essa constatação? Quais as contribuições diferentes que a mulher pode trazer para a Impro?

Bom, é uma pergunta curiosa, porque no começo do nosso grupo, éramos 10 atores, dos quais 7 eram mulheres. Quando participamos do nosso primeiro festival internacional, a convite do Jogando no Quintal, vários grupos comentavam o quão feminino era o nosso grupo! No Fimpro, que realizamos em 2008, e depois no Improfestin (Chile), tive contato com inúmeros outros grupos, e pude perceber que, de fato, a impro ainda é uma linguagem predominantemente masculina, e eu penso muito sobre isso. A questão de gênero é algo que me toca profundamente, tenho inclusive uma simpatia muito forte por algumas pensadores e artistas que atuam no campo do feminismo. E, nesse sentido, me coloco sempre a pergunta sobre qual seria uma expressão feminina na impro. Às vezes eu acho que, puxa, temos toda uma história do teatro construída por homens… os diretores, dramaturgos, encenadores, atores… Daí me questiono até que ponto a inserção das mulheres na produção cênica não se fez, também, por uma via masculina. Como se nós tivéssemos entrado para um jogo com as regras já mais ou menos estabelecidas, e não nos restasse muito a não ser seguir essas regras. Claro que falando assim a coisa parece muito rígida, e eu sei que os processos, sobretudo os artísticos, são mais dinâmicos…

Mas nesse campo entra a impro… a maioria imensa das cenas que eu assisto e que tratam, por exemplo, dos padrões de comportamento sexual, o fazem sob uma ótica masculina. E, quando há uma inversão, sinto que trata-se simplesmente de uma inversão que tem como ponto de partida o discurso anterior, ou seja, é uma inversão apenas caricatural, ilustrativa.

E isso me inquieta muito… No primeiro semestre de 2010, inclusive, comecei a desenvolver um trabalho de investigação nesse sentido, aqui em Belo Horizonte, com várias meninas interessadas no tema… 4 atrizes improvisadoras, dentre as quais 2 são palhaças, e uma bailarina. Os encontros foram poucos (a famosa agenda…), mas a vontade de ver qual é ainda é muita.
5) Quem são os improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?
Todos os meninos da UMA Companhia, por seguirmos juntos apesar da falta de recursos; o Assis Vidigal, parceiro na UMA, pela inteligência e generosidade; a Angélica Rogel, do Complot Escena, pela delicadeza forte, pela inteligência dramatúrgica; O Marcio Ballas, do Jogando, e o Panqueque, do Colectivo Mamut, pela eterna capacidade de me surpreender e me fazer sorrir; o Gustavo Miranda, do Acción Impro, pela versatilidade; o Marcelo Savignone, pela inteligência e pela técnica e, finalmente, o Shawn Kinley, mestre em todos os sentidos!
6) Quais companhias no mundo você acredita que hoje fazem os trabalhos mais incríveis?
Atualmente eu ando muito encantada com o trabalho do grupo Complot Escena. Acho que eles têm um domínio técnico incrível, e utilizam essa potencialidade sem abrir mão da diversão e da subversão da própria técnica. Poderia também citar grupos como Loose Moose e Second City, mas acho que prefiro escolher uma inspiração mais acessível, rs.
7) O que mais tem te trazido interesse na Improvisação hoje? Jogos de Improvisação ou Espetáculos mais LongForm?

Long Form. Os espetáculos de jogo – que ainda são a maioria nos repertórios dos grupos da América Latina – me cansaram um pouco, fico com a sensação de que é quase tudo muito igual. Acho que há muitos grupos acomodados com a grande receptividade do público para com essa modalidade. Eu até acho positivo, gosto muito do trabalho de diversos grupos, continuo achando um fenômeno muito significativo para o teatro. Mas no meu caso, já estou a fim de investigar outros matizes da impro…

8) Pra onde vai a Impro? (o futuro)

Acho que ela já está num caminho muito bacana… vejo muita gente se apropriando da técnica e fazendo dela um ponto de partida para investigações de outra ordem, e eu acho que é isso que vai manter essa linguagem viva e sempre interessante!

9) Quais são as dificuldades executivas de um grupo no mercado da  Improvisação? Como a UMA Companhia tem conseguido se estabelecer nesse mercado? Quais são as perspectivas e projetos do seu grupo?

No caso de Belo Horizonte, somos o único grupo que realiza uma pesquisa contínua no campo da improvisação. E acho que, pela nossa formação, e também por nossos anseios artísticos, sempre tentamos nos inserir no mercado teatral em sentido amplo. Nunca pensamos em criar um mercado (de produção ou de público) específico para a impro, o que tem suas vantagens e desvantagens, porque nos vemos num não-lugar criativo e também mercadológico: não realizamos um teatro “comercial” o bastante para termos sempre casa cheia e vivermos de bilheteria, tampouco um teatro “experimental” o suficiente para conseguirmos manter o trabalho do grupo via leis de incentivo.

De qualquer forma, o que eu posso dizer a respeito da realidade do mercado relaciona-se mais com o cenário das artes cênicas do que especificamente da improvisação teatral.

Acho que as políticas públicas para a cultura no Brasil ainda engatinham. No caso de Minas Gerais, engatinham usando patinete: são tímidas e inconstantes. Acho que falta conscientização da classe artística a respeito do potencial mercadológico da produção cultural, e falta também competência aos gestores públicos para perceber que o investimento na cultura gera empregos, circulação de capital, além de uma imensa gama de valores agregados, tudo isso com um baixo impacto ambiental. Paralelamente à escassez de recursos, a demanda por financiamento tem crescido muito… Tudo isso dificulta bastante o nosso trabalho.

No caso específico da impro, eu não disponho de dados concretos para fazer uma análise do mercado da improvisação no Brasil. Acho que poucos grupos conseguem sobreviver do trabalho com a impro atualmente no Brasil.

Nós temos quatro anos de trajetória, e até hoje, posso afirmar que pagamos para fazer o que fazemos. Fizemos neste segundo semestre uma temporada de um mês [sexta a domingo] em um teatro daqui de BH, começamos com uma média super pequena de público e encerramos a temporada com casa lotada. No fim das contas, só conseguimos cobrir as despesas com teatro, divulgação, direção, produção…

Além disso, custeamos um investimento constante em nossa formação: oficinas, participação em festivais nacionais e internacionais (ressalte-se que 4 membros do grupo realizam pesquisas acadêmicas a respeito da impro).

E ainda pagamos aluguel de espaço para ensaiar e financiamos com nosso próprio esforço e dinheiro nossos dois longforms.

A realização do Dos Gardenias Social Club só foi possível porque fomos aprovados em um edital da Cia Clara, de BH, que nos ofereceu local de ensaio e de apresentação, além do material de divulgação.

Conseguimos um apoio de R$2.000,00 e realizamos, na cara de pau, uma vaquinha virtual, pedindo aos amigos que contribuíssem. A vaquinha nos rendeu a grata surpresa de R$1000,00, e com isso pagamos o cenário. Então, com R$3000,00, somados à imensurável dedicação de improvisadores, professores de dança, iluminadores e músicos (que também trabalharam sem receber nada, nem ajuda de custos), conseguimos erguer um trabalho do qual eu tenho muito orgulho… não apenas pelo resultado, mas pelo que significa, hoje, trabalhar com teatro e com impro no Brasil.

Estamos trabalhando incessantemente para reverter este quadro, e temos ótimas perspectivas para o ano de 2011. Evoé, impro!

Marco Gonçalves é plural. Músico, palhaço e improvisador. Atualmente é o palhaço atleta Fonseca do Jogando no Quintal, acabou de cumprir a primeira temporada do programa É Tudo Improviso da Band (aguardando resoluções para uma continuação do programa na grade horária da emissora) e faz parte do elenco rotativo do espetáculo Improvável da Cia. Barbixas de Humor. Nessa entrevista, gentilmente concedida entre suas correrias de apresentações, treinamentos e reuniões, Marco Gonçalves fala um pouco de suas filosóficas impressões a respeito da Improvisação e da vida.

Pode-se saber mais de Marco através do seu twitter. Também, para quem tem uma formação básica de improvisação ou clown, ele iniciará um curso extensivo de Impro no Quintal de Criação às segundas feiras a partir de 12 de abril.

Improvisando: Gostaria que você iniciasse contando um pouco dos caminhos que o trouxeram para a Improvisação Teatral. Sua biografia.

Marco Gonçalves: A verdade é que tenho alguns curriculuns espalhados por aí. Eu digo isso realmente pela lista de coisas que eu fiz. Como estudei pouco o teatro, eu muitas vezes  inventei coisas que eu fiz para conseguir pegar um emprego, para pagar aulas de música. Na verdade minha formação qual é: eu estudo música desde pré adolescente, com professor particular. Na pré adolescência e adolescência eu estudei música de uma forma bem firme na sina de ser um músico mesmo. Daí fiz publicidade mas parei no primeiro semestre. Tinha aquele desejo de ser um criador e tinha a ilusão de que a faculdade de publicidade ia propiciar isso. Descobri na faculdade que não era essa a pegada da publicidade que nela a criação era uma coisa bem pontual e direcionada. Aí me dediquei a ser músico profissional. Saí do Rio Grande do Sul para vir estudar música aqui em São Paulo no Conservatório e não passei. A verdade é que não tava bem preparado, tecnicamente não estava preparado. Bem próximo das provas pro Conservatório descobri que (esse é um dado importante lá na frente eu acho)  não era isso o que eu queria fazer, porque eu não tinha prazer em estudar aquilo. Tinha prazer em trampar em tocar, mas ir pra casa e ficar treinando a parte técnica era uma coisa que não gostava.

Com relação ao palhaço e a Improvisação, entre meus primeiros professores, eu já encontrei meu mestre que é o Marcio Ballas.  Comecei a fazer aula no Galpão do Circo, com uma bolsa conseguida com muita cara de pau. Disse: “Quero muito estudar palhaço, você me dá uma bolsa?” E o Marcio, muito generoso, me deu uma bolsa. Comecei a fazer bastante aula de palhaço com o Marcio e tinha, nos momentos da aula, meus momentos mais bonitos da minha semana em São Paulo. Esperava a semana inteira para vivenciar a aula de palhaço. Sinceramente tinha um pouco de confiança de que aquilo era meu assunto. Fui fazendo outras coisas na vida porque precisava de dinheiro: trabalhei com música para ganhar dinheiro, dava aula em escolhinha para criança de música. Descobri que seria palhaço pela necessidade, precisava fazer grana com isso, o que é bem pouco romântico. Essa é  a parte pouco romântica. Também não tinha família aqui, então entrei numa imersão: andava de palhaço pela Vila Madalena, levava meu nariz no bolso achando que a qualquer momento poderia sacar, como se fosse uma arma.

Eu já tinha uma admiração pelo Jogando no Quintal, eu já tinha assistido e pensava: é isso que eu quero fazer. Aí trabalhei num grupo amador, que por coincidência foi onde conheci a Rhena (de Faria) e a Lu Lopes, que passaram por lá, já profissionais.  Era o Sarau do Charles.

Eu tinha muitos sonhos. Quando me tornei palhaço eu pensava: eu quero ser do Doutores da Alegria para brincar com as criancinhas ou quero ser do Cirque de Soleil. Era o que eu queria muito, muito, muito. E o Marcio sacando minha vontade e usando da sua generosidade, começou a me convidar para acompanhá-lo como músico-palhaço. Tinha uma participação bem pequena, ia lá e tocava, era bem músico mesmo. Pra um músico eu era ruim, mas pra palhaço eu era pior ainda.

A verdade é que os palhaços não sabem fazer nada direito no Brasil. É uma coisa bem brasileira. O prazer de fazer as coisas que é bom para um palhaço, às vezes podem impedir que você se desenvolva. Você sabe mesmo usar sua habilidade? Às vezes não. Mas num palhaço isso cabe. Os palhaços gringos eles tem essa coisa da técnica, os americanos e os europeus, a gente não. A gente não sabe fazer nada. E somos palhaços incríveis.

Eu fui aprendendo a tocar sendo palhaço, não maduro. Aí fui ganhando espaço. E o Marcio (eu vou falar muitas vezes do Marcio porque na verdade ele é minha escola) tinha uma coisa muito legal comigo.  Ele me chamava para as apresentações e dizia assim: Rouba a cena, hein? Quero ver você roubar sua cena. Eu vivia também essa generosidade com o Alessandro (o Charles).

Aí entrei no Jogando, quando o Manjericão (Eugênio La Salvia) foi gravar um curta. Eu fui lá, entrei e nunca mais saí. E achei uma família, uma coisa maior até que o trabalho. É a família que não tinha aqui presente.

Mas falando de sala, e minhas primeiras vivências foi de palhaço, um dos  primeiros palhaços que admirei foi  o Paulo (Federal). E via os treinamentos de  improvisação dele. E eu achava que  eu não consegueria fazer isso. Até porque quando se está do lado dos heróis, você pensa: não serei um herói.

Com o tempo a banda, dentro do espetáculo, começou a ganhar  um tamanho muito grande, e a gente começou a fazer palhaço fora do Jogando. Com a Banda Gigante, que é a banda do Jogando no Quintal, que começou a ter um espetáculo paralelo. Daí comecei a experimentar o que é ser um palhaço e ter o foco, porque no Jogando eu só apoiava. Daí vem a segunda grande pessoa na minha vida que é a Lu Lopes: a gente passou a fazer música como palhaço, o que era incrível. E eu ainda namorava  a coisa de jogar.

Pra encurtar a estória, fiz a banda Gigante alguns anos, e aí num determinado momento, a banda começou a ganhar um caráter de  não ser exatamente o que eu queria. Tocar na banda do Jogando não era mais exatamente o que eu queria. Eu comecei a ter uma demanda de criação. Que pra mim é o assunto do improvisador. A escola de improvisação gera ferramentas para algumas coisas. E eu comecei a ter uma demanda de criação: comecei a não dormir para escrever, comecei a querer mais espaço na Banda, no Jogando, queria mais, queria mais. E era uma coisa que não era vaidade batendo, era uma demanda. Aí decidi que ia ser um ator.

Comecei a estudar improvisação e descobri que é uma coisa que me leva pra sala. Eu vou pra uma sala estudar improvisação e fico horas, sem problemas, amo fazer isso. Estudei com toda essa turma aí, com o Ricardo Behrens, com a Mariana Muniz. Estudei com todo mundo que o Marcio e o Jogando trouxe, recentemente o Shawn (Kinley).

Veio então o Caleidoscópio, e foi aí que experimentei minha primeira criação de um espetáculo. Isso tudo é o que está aos olhos do mundo.

Internamente, que pra mim é o mais importante. Aquilo que sempre me encantou e que o palhaço sempre me propôs que é a busca da liberdade, estou vivendo agora num momento de profunda paixão e amor por essa ferramenta que é pedir um tema, escutar e mandar ver.

A minha escola se confunde com a estória com o Jogando. E hoje com os Barbixas. Eu sou um cara muito da espiritualidade. Eu tive alguns mestres de uma outra área, que falavam muito pra mim: você tem que enxergar o mestre nas coisas do mundo. Eu enxergo nos Barbixas grandes mestres mas não porque eles tem essa postura, ou porque a gente estabeleceu uma relação, mas porque eles criaram uma coisa importante que é o Improvável. Eles trouxeram a mim isso e a um grande público. E eu vivo com eles também hoje essa coisa a que sou grato eternamente.

Falar do meu curriculo, que já tá acabando, é falar de gratidão. Gratidão por onde eu passei, a um monte de gente.

Improvisando: O que para você significa a Improvisação Teatral?

Marco Gonçalves: O que é Improvisação teatral é uma pergunta profunda e difícil. Eu considero uma coisa que me rege, é uma linguagem que consegue colocar a espontaneidade na frente. A espontaneidade é o que rege esse trabalho. Estou dizendo muito mais de sensação. Enfim, mas é algo que tenho prazer em fazer. Vou falar uma frase feita que traduz o que é a improvisação para mim: “Produzir vibrações, rotações, girações, danças, palcos, gravitações, inventar novas metas, e setas que vão disparar novos corações”. Isso pra mim me fala da improvisação hoje.

E também outra coisa que me fala do que é improvisação é o sentido que as mandalas tem. É um trabalho muito preparado e termina no desapego para abrir espaço para outra coisa. E enxergar nesse movimento o sentido da coisa e não o produto em si. A gente produz um número de cenas muito grande e a maioria são geniais e elas se vão.

Enfim, improvisação teatral pra mim é uma coisa que toca os mistérios da vida.

Improvisando: E quais são os princípios da Improvisação que você considera importantes?

Marco Gonçalves: Fundamental são alguns. Como diz a Rhena, escuta, aceitação são coisas profundas. Sou obrigado a repetir. Mas uma coisa que a própria Rhena me trouxe na relação próxima que a gente tem, é que quando a gente fica tratando da improvisação como ferramenta e como jogo, talvez a gente siga estritamente o que as escolas falam (escuta, aceitação). Fica uma coisa puramente técnica. Pra mim o buraco é mais embaixo e a Rhena me chama a atenção pra isso. Ela tem uma imaginação muito grande para a loucura, não a patologia, a doença, mas aquele olhar que é capaz de traduzir de uma forma muito diferente uma coisa que é lugar comum. Eu sempre tento ver a improvisação muito mais como uma arte que como uma linguagem técnica.  Nesse sentido, isso é uma coisa fundamental para o palhaço: o que você está falando para o mundo, aí?

Acho que estou querendo aliar um conceito que é a aceitação, escuta e um desejo de voar, uma certa loucura.

Lembrei agora do Chacovachi, que não foi um mestre, foi um dos professores que passou por aqui. Ele é um mestre para todo mundo, mas pessoal não. Ele diz: “El Payaso tiene que ter hambre”. O palhaço tem que ter sangue “nozoio”, que não necessariamente é ter uma agressividade, pode ser uma coisa bem infantil, ingênua, inocente. Mas é quente, potente, uma combustão.

É isso: escuta, aceitação e combustão.

Mas também tem outra coisa que é: “Quem está improvisando?”

A real é que escutar, aceitar, estar com o corpo pronto, saber jogar os jogos, saber a proposta coletiva de cada grupo e de cada espetáculo é fundamental mas são FERRAMENTAS. O conteúdo que você trará para a cena é uma coisa importante e ao mesmo tempo só pode ser gerado com organicidade, ou seja: quem você é, o que pensa, o que sente e como sente constrói sua fantasia. O que você lê, assiste ou o que te inspira como espectador geram bagagem para criar. O formato Improvável dá espaço para os comediantes, o Jogando para os palhaços, o Tríptico da Colômbia dá espaço a excelentes atores .

Improvisando: Gostaria que você falasse um pouco dessa conexão entre o clown e o improviso. E também da relação entre improviso e a música, que é a sua origem.

Marco Gonçalves: A música me ajudou muito. Conceitos que a música tem como muito fundamentais como linguagem, como ferramentas muito conhecidas, são fundamentais no improviso. Por exemplo, você não enaltece a escuta, ela é uma ferramenta tão básica na música: você não aprecia música sem escuta, você não dança sem escuta e não toca bem com um colega sem escuta, você não aprende a tocar um instrumento sem escuta. A escuta na música é uma perna para um jogador de futebol. Por isso, escutar os colegas era uma coisa muito orgânica pra mim. Quando entrei na escola da improvisação, a escuta já estava ali comigo.

Uma outra coisa que considero importante, a qual o Marcio é bem cuidadoso com esse aspecto na cena é o timing. O Marcio tem muito controle sobre o gráfico da cena: um começo que deixa ela clara, uma apresentação da situação e dos personagens, uma inclinação, um problema, e de repente uma aceleração, uma virada e um fim. A música respeita, seja improvisada ou ensaiada, um gráfico. A música tem uma parte A, B, refrão, AB e um refrão no final.

A música me ajudou no improviso, na escuta e no timing.

O palhaço já me ajuda um pouco a viver, mais que a trabalhar. Fica um pouco fácil fazer uma criação excêntrica, interessante aos olhos do público, quando você vivenciou isso. Só o palhaço tem essa levada, ele é a loucura, ele é o personagem. A gente não faz o palhaço a gente é o palhaço. A gente não é melhor ou pior que nada, a gente simplesmente é.

Quando eu estou fazendo, por exemplo, o Improvável (que é um espetáculo de tiro, de piada), muitas vezes estou fazendo essa piada com o lugar comum. Mas quando estou em cena eu invariavelmente uso o palhaço, mexo no dimer da intensidade mais ou menos.

Por exemplo: O que não fazer numa sorveteria? Eu me reporto a aquele lugar e penso no que espontaneamente seria gostoso fazer. Aí eu junto um pouco com a estória dos meninos que é elaborar uma piada com isso e mato. Pego a matéria prima e coloco o olhar de palhaço em tudo.

O que eu não deveria fazer está casado com o que eu poderia fazer e é proibido. Que é a base do Cenas Improváveis e no programa (É Tudo Improviso) é o Cenas Absurdas.

Outro exemplo: O que não se fazer num velório? Uma mente livre, uma mente não ressentida, que é a mente de um palhaço, uma mente desapegada de padrões e regras,  não faz muita força para  pensar o que não fazer. Ele simplesmente vai lá e faz. Ele cumprimenta o morto, vai lá tira uma com o morto. É como já falei com minha mãe e com meu pai. Na ocasião a gente vai se divertir na brincadeira, vamos beber o morto.

Improvisando: Quem são os Improvisadores que o inspiram na realização do seu trabalho?

Marco Gonçalves: Poxa, aí vem muitas coisas na cabeca. E vem um desejo de ser político…

Improvisando: Eu penso em termos de referência…

Marco Gonçalves: Hum… Paulo Federal, Marcelo Savignone, Marcio Ballas (sempre), Rhena de Faria. Fora do improviso, esses dias vi o Pedro Cardoso, achei arrebatador. Dos mexicanos, o José (Luis Saldaña), acho sensacional. Mas de todos, o último que me impressionou mais foi o Marcelo Savignone porque ele é o cara que toca, canta. Ele é desesperador, ele é multi, você conversa o cara, ele conta que  estuda diariamente horas, e é um maluco.

Enfim, eu deixaria essas pessoas, mas isso vale pra hoje. Respeitando o agora.

Improvisando: E com relação às companhias teatrais?

Marco Gonçalves: Todas. De improvisação, eu gosto de todas. Das ruins e das boas.

Pode parecer uma prepotência, mas tenho muito respeito por quem trabalha. Gosto dos Barbixas, Jogando no Quintal, . Em termos de Brasil ainda tem o pessoal de Belo Horizonte, o Imprópria, o Protótipo. Eu tenho muito respeito por você.

Improvisando: Eu não pertenço a nenhuma companhia…

Marco Gonçalves: Mas não digo em termos institucionais, eu tenho respeito por quem tá dando um gás pelo assunto. Quem tá afirmando a Improvisação.

Falando do programa, por exemplo,tentar pegar essa linguagem e torná-la mais popular. Deixar mais gente afim de fazer. Isso poderia ficar como um desejo individual do Marcio, que quer a improvisação no Brasil, ou os Barbixas. Mas é um desejo de muitos, uma força que se espalha.

Fora isso  Impromadrid, Complot/Escena, Loose Moose, LPI Argentina.Vou acabar esquecendo alguém, enfim…

Improvisando: Gostaria que você falasse um pouco com relação a seu interesse em formatos de improvisação. Você hoje tem uma preferência entre formatos longos ou formatos desportivos de improvisação?

Marco Gonçalves: Eu acho tudo importante. Os espetáculos que tem como base jogos de improviso e espetáculos de long form que tenha uma premissa e a improvisação. É que em termos de jogos já existe o Improvável, o Jogando, outras trupes, o programa e acaba meio que virando lugar comum.

O long form acaba virando um desafio hoje em dia. A gente tem pretensões muito altas: não quer ter uma estória boa porque é improvisada, mas uma estória que seja digna de ser encenada várias vezes.

Fora de cena é bacana você ser bem pé no chão, mostrar que o que estou fazendo qualquer um que queira muito poderia fazer. Mas quando digo muito, queira muito mesmo, se dedique.

Em cena acho essa coisa da pretensão bem legal. Às vezes a gente tem uma coisa no long form, em que a gente desafia um ao outro, causando uma sensação ímpar na platéia. Imagina criar uma atmosfera, uma estória que tenha uma trama que de repente possa ser sensual para a platéia. Uma arte transformadora que pode te levar a outro lugar.

Hoje os espetáculos de jogos buscam a piada, um lirismo e na verdade, já tem bastante missão só nisso.

O horizonte do long form é outro. Talvez ele me seja mais atraente, mas ele nao é melhor que o curto, talvez ele até seja um pouco pior. Pro grande público ele talvez seja menos divertido. O público tá afim de ver um desafio mais cirúrgico.

O long form só está mais atraente, mais sedutor pra mim hoje em dia.

Improvisando: Em termos futuros, o que você espera da Improvisação?

Marco Gonçalves: De forma prática,  um número maior de grupos fazendo, uma disseminação mesmo. Eu acho que vai acabar acontecendo, tomara a Deus. Com isso, irão surgir novas formas de fazer, grupos com identidade cada vez mais única, com trabalhos cada vez mais autorais. Isso do ponto de vista comercial.

Do ponto de vista filosófico, que é o que me pega mesmo.  Eu sinto que tem uma coisa que amarga a vida um pouco que é a própria diversão que é trocada pela obrigação. E a vida cheia de obrigações é dificil . Ela é dificil para qualquer um. Mesmo para aquele que gosta, que faz determinadas coisas porque gosta de cumprir aquela obrigação.  Mas tem outras possibilidades e é esse que é o barato.

Não estou falando que a improvisação tenha a ver com descompromisso. A improvisação tem a ver com dar vazão a espontaneidade. E a espontaneidade é o contrário da obrigação. E quando você gera mais espaço para dar vazão a essa espontaneidade, você tem uma ferramenta prática, potente e verdadeira e não uma falácia. Você ouve: temos que melhorar o mundo. Mas como se faz isso?

Mas respondendo à sua pergunta, quando eu vejo meu pai altamente envolvido com a piada, não porque riu, pelo interesse na piada em si…  As pessoas me ligam, me procuram, projetando um desejo de fazer a mesma coisa. Tenho recebido muito email,  muito twitter dizendo: você poderia ter feito aquilo tal hora. Eu procuro responder: então vamos fazer, eu quero fazer isso com você. Esse convite tem a ver com um chamado: vamos brincar!  Isso pra mim tem a ver com a missão da improvisação. Que passe a trazer essa força da espontaneidade com o tempo.

A seguir, Marco Gonçalves em 3 momentos incríveis: Improvável, É Tudo Improviso e Jogando no Quintal.

Adriana Ospina é atriz profissional formada pela Universidade de Antioquia. Participou de montagens teatrais com diversos grupos, entre elas os do diretor e dramaturgo colombiano Henry Díaz Vargas, com quem participou do Primeiro Encontro Internacional de Escolas de Teatro em Quito/ Equador. Fez vários filmes curtametragens e participou de produções com Serviços Audiovisuais da Universidade de Antioquia. É locutora de comerciais em rádio, especializada em vozes instituicionais e personagens. É uma das primeiras mulheres improvisadoras da Colômbia e se destaca por seu domínio de formatos de improvisação no humor e a construção de personagens. É uma das fundadoras do Acción Impro, companhia de grande reconhecimento nacional e internacional na linguagem de Improvisação Teatral.

Nessa entrevista, gentilmente concedida através de email, Adriana Ospina transmite suas impressões a respeito da Improvisação Teatral.

Improvisando: ¿Qué es para usted la Improvisación Teatral? ¿Cuáles son sus conceptos más importantes?

Improvisando: O que é para você a Improvisação Teatral? Quais sus conceitos mais importantes?

Bueno, improvisar para mi es siempre una aventura, nunca se sabe que puede pasar en la escena y con el público por más claro que tengas la manera de hacer un espectáculo

Pienso que la improvisación te brinda un abanico de posibilidades inagotables y crea un puente de comunicación más directo con el público, convirtiéndose en parte importante del espectáculo y haciéndolo sentir un espectador activo ya que en la mayoría de los espectáculos de una u otra forma son ellos quienes dan los detonantes para improvisar.

Me gusta mucho lo efímero de la improvisación porque hay funciones con las que me siento muy bien, con mi trabajo, con las historias que voy construyendo con mis compañeros y las sorpresas que nos brindamos mutuamente en el escenario. Y pensar que nunca volverán a repetirse, que se quedan ahí en el mismo instante en que se realizan es un vértigo delicioso de sentir. Además que para la compñía Acción impro a la que pertenezco, la improvisación es nuestro sello , nuestra marca como compañía dentro de la ciudad, es mi herramienta de trabajo.

Los conceptos en los que nos basamos inicialmente fueron los propuestos en el libro la “Impro” de Keith Johnstone y posteriormente creo que la misma experiencia te ayuda a crear tus propios conceptos y que se van complementando con los de otras compañías cuando hay festivales e intercambio de ideas y experiencias. Pienso que no hay conceptos únicos y que aún se siguen construyendo más.

Bem, improvisar para mim é sempre uma aventura, você nunca sabe o que pode acontecer na cena e com o público por mais clara que seja a maneira de se fazer o espetáculo.
Eu acho que a improvisação te fornece um leque de possibilidades infinitas e cria uma ponte de comunicação mais direta com o público, tornando-se em uma parte importante do espetáculo e o fazendo sentir um espectador ativo já que na maioria dos espetáculos de uma forma ou de outra, são eles quem dão os gatilhos para a improvisação.
Eu amo a natureza efêmera de improvisação, pois há funções em que me sinto muito bem, com meu trabalho, com as histórias que vou construindo com meus companheiros e as surpresas que fornecemos uns aos outros no palco. E pensar que nunca voltarão a se repetir, que ficarão lá no momento em que se realizam, é  uma sensação de desequilíbrio deliciosa. Além de que, para a Cia. Acción Impro a que pertenço, a Improvisação é um selo, nossa marca como companhia dentro da cidade, é minha ferramenta de trabalho.

Os conceitos em que nós nos baseamos foram inicialmente os propostos no livro “Impro” de Keith Johnstone e posteriormente acho que a sua própria experiência ajuda a criar os seus próprios conceitos que vão se complementando com o de outras companhias quando há festivais e intercâmbios de idéias e experiências. Acho que não há conceitos únicos e ainda se seguem contruindo mais.


Improvisando: ¿Cuando la improvisación comenzó en su carrera?

Improvisando: Quando a Improvisação começou na sua carreira?

Yo hice mi carrera de actriz en la Universidad de Antioquia en Medellín- Colombia y desde los primeros semestres comencé a estudiar con mis compañeros del grupo con los que aún continúo, la técnica de la Impro de Keith Johnstone. Todos los días nos reuníamos sin falta después de nuestras clases a entrenar toda esta variedad de juegos y ejercicios que se proponen en este libro, como también las experiencias, que por aquellos días, comenzamos a compartiir con otros improvisadores de otras compañías como la Gata de Bogotá, Sucesos Argentinos y la LPI. Así que para mí la improvisación fue como una especialización que realicé al mismo tiempo que hacía mi carrera como actriz y obviamente esto influía a la hora de crear en los salones de clase de la universidad. Pienso que también la formación como actriz ha sido un complemento a la hora de improvisar. Acción impro se especializa en la improvisación pero todos los integrantes somos formados en escuela de teatro y esto hace que en los espectáculos tengamos siempre la búsqueda de hacer improvisaciones con humor o no, con una actuación creíble y depurada.
El último espectáculo de Acción impro fue una obra de texto llamada “La Escala Humana” después de 9 años de montar espectáculos de improvisación. Esta experiencia como improvisadores fue una de la herramientas fundamentales a la hora de realizar la puesta en escena y búsqueda de los personajes porque en lo personal me ha brindado la fescura y de cierta manera la seguridad a la hora de abordar un texto.

Eu fiz minha carreira de atriz na Universidade de Antioquia em Medellín, na Colômbia, e desde os primeiros semestres, comecei a estudar com os meus companheiros do grupo com o qual ainda continuo, a técnica de Impro de Keith Johnstone. Todos os dias nos reuníamos, sem falta, depois de nossas aulas para treinar toda esta variedade de jogos e exercícios sugeridos neste livro, como também as experiências, que naqueles dias, começamos a compartilhar com outros improvisadores de outras companhias como La Gata de Bogotá, Sucesos Argentinos e a LPI. Então, para mim a improvisação foi como uma especialização que fiz ao mesmo tempo em que fazia minha carreira como atriz e obviamente isso influenciava na hora de criar nas salas de aula da faculdade. Penso também que a formação como atriz tenha sido um complemento na hora de improvisar. Acción Impro se especializa na Improvisação, mas todos os integrantes são formados na escola de teatro e isso faz com que nos espetáculos tenhamos sempre a busca de fazer improvisações  com humor ou não, com uma atuação incrível e refinada.
O último espetáculo do Acción Impro foi uma obra de texto chamada “La Escala Humana“, após 9 anos de montagem de espetáculos de improvisação. Essa experiência como improvisadores foi uma das ferramentas fundamentais na hora de realizar realizar a encenação e a pesquisa dos personagens, porque, pessoalmente, me deu uma frescura e de uma certa maneira segurança na hora de abordar um texto.

Sua personagem Silvi no "La Escala Humana"

Improvisando: ¿Quiénes son los Improvisadores que inspiran usted a llevar a cabo su trabajo?

Improvisando: Quem são os Improvisadores que a inpiram na realização do seu trabalho?

En este momento me inspira Marcelo Savignone por su trabajo con máscaras, Impromadrid por que desde hace varios años nos han inspirado y nos llenan de inquietud, además de su buen humor negro y Jogando no Quntal de Brasil por su mezcla de Improvisación y payaso.

Nesse momento me inspira Marcelo Savignone por seu trabalho com máscaras, Impromadrid porque desde há vários anos nos tem inspirado e nos enchido de inquietação, além de seu bom humor negro e Jogando no Quintal do Brasil por sua mescla de Improvisação e Palhaço.

Improvisando: ¿Qué más ha traído su interés en la improvisación de hoy? Juegos de improvisación o los LongForm?

Improvisando: Que mas tem atraído seu interesse na Improvisação de hoje? Jogos de Improvisação ou os Long Form?

LongForm.


Improvisando: ¿Cuál es el principio de la improvisación que ahora más se está estudiando e investigando?

Improvisando: Qual é o princípio da Improvisação que agora está sendo mais estudado e investigado?

En mi experiencia creo la investigación apunta a no quedarse sólo en lo deportivo y competitivo de la improvisación sino encontar diferentes posibilidades y que es un camino inagotable.

Na minha experiência, acho que a investigação aponta a não ficar somente no desportivo e no competitivo da improvisação, mas encontrar as diferentes possibilidades e que é um caminho interminável.

Improvisando: ¿Dónde estará el impro? (el futuro)?

Improvisando: Para onde irá a Impro (o futuro)?

Pienso que en Latinoamerica, la improvisación como resultado final, es un género teatral que cada día se posiciona con más fuerza, cada vez aparecen nuevas compañías con diferentes búsquedas, se realizan encuentros y festivales más a menudo, como también se afianzan los lazos de amistad. Los formatos deportivos de improvisación como el Match, el catch y demás, son espectáculos que el público disfruta cada vez más y llenan los teatros, pero a la vez cada compañía quiere llevar la improvisación más allá de lo deportivo. No se exactamente como será en el futuro para la improvisación pero creo que comienza a verse destellos de lo que puede ser, y es la mezcla de otros lenguajes dentro de ésta como el cine, la música como improvisador activo dentro de la escena, utilizando recursos de última técnología o tal vez se quiera abordar desde lo más simple, desde lo teatral y que espectáculos de improvisación apunten a convertirse en verdaderas obras de arte.

Acho que na América Latina, a improvisação como resultado final, é um gênero teatral que cada dia se posiciona com mais força, cada vez aparecem novas companhias com diferentes pesquisas, se realizam encontros e reuniões e festivais  mais frequentemente, como também se reforçam os laços de amizade. Os formatos desportivos de Improvisação como o Match, o Catch e demais, são espetáculos que o público desfruta cada vez mais e enchem os teatros, mas por sua vez, cada companhia quer levar a improvisação mais além do desportivo.

Não sei exatamente como será o futuro para a improvisação, mas acho que começa a ser visto lampejos do que pode ser, e é uma mistura de outras linguagens dentro desta, como o cinema, a música como improvisador ativo dentro da cena, utilizando recursos tecnologia de ponta, ou talvez se queira abordar desde o mais simples, desde o teatral e que os espetáculos de Improvisação apontem a se converterem em verdadeiras obras de arte.

Na sequencia, dois vídeos. Adriana Ospina em ação no teaser do espetáculo “A Toda Prueba” e uma entrevista ao canal Shock sobre o espetáculo “La Escala Humana”.

Gustavo Miranda Ángel atua desde que tinha oito anos de idade em mais de cinqüenta produções. Fundador do Acción Impro e ator do Fundación Prolírica de Antioquia com quem representou importantes papéis nas temporadas anuais de Opereta e Zarzuela de Medellín. Ele também trabalhou para a Asociación Lírica Zoraida Salazar – Dionisio Riol e como artista convidado na temporada da Opereta de Cali. Além de sua experiência como um improvisador e treinador em mais seis países, tem atuado de várias produções e comerciais de televisão local, nacional e internacional. Ele tem participado de filmes de curta e médiametragens colombianos geralmente no papel principal e é locutor de voz para comerciais para rádio e televisão, especializado em vozes atuadas e dublagem de vozes para espetáculos e vídeos.

La Opereta

 

La Escala Humana

Entre nós, brasileiros, é conhecido por sua excelência como ator e como treinador de Improvisação Teatral, admirado por grandes nomes da Improvisação Teatral Brasileira.

Nessa entrevista, gentilmente concedida via email, Gustavo Miranda divide suas impressões a respeito da improvisação teatral, perspectivas atuais e futuras e suas visões particulares da técnica, tudo com uma lucidez, uma clareza e uma didática que somente grandes mestres poderiam ter.

Improvisando: Gostaria que fizesse um pequeno resumo das atividades em que se encontra envolvido hoje.

Gustavo Miranda: Soy Gustavo Miranda, Maestro en Artes Representativas de la Universidad de Antioquia. Fundador de la compañía Acción Impro, con la que trabajo desde hace 10 años. Actualmente además de actuar, dirijo y produzco espectáculos para mi compañía, he participado en festivales de improvisación en Argentina, México, España, Ecuador, Chile, Brasil y Colombia. Estoy haciendo una investigación en otros formatos de improvisación donde sea más importante la creación del personaje. Estoy dictando un taller de impro llamado “La Otra Percepción de la Improvisación” que estrené en Brasil en el 2008 y que recientemente hice en Chile. Presento un programa de televisión (nada relacionado con impro) y hago publicidad en radio.

Sou Gustavo Miranda, Mestre em Artes Cênicas na Universidade de Antioquia. O fundador da companhia Acción Impro, com quem trabalho há 10 anos. Atualmente, além de atuar, eu dirijo e produzo espetáculos com a minha companhia, participei de festivais de improvisação na Argentina, México, Espanha, Equador, Chile, Brasil e Colômbia. Estou fazendo pesquisa em outros formatos de improvisação em que a criação do personagem é o mais importante. Eu estou ensinando uma oficina de improvisação “A Outra Percepção da Improvisação”, que estreiei no Brasil em 2008 e recentemente fiz no Chile. Eu apresento um programa de televisão (nada relacionado a impro) e faço publicidade em rádio.

Improvisando: O que é a improvisação teatral? Em quais princípios ela se baseia?
Gustavo Miranda: La improvisación teatral es el medio, el puente que conecta la imaginación y creatividad del actor con la puesta en escena, es el método natural para llegar a una acción dramática y por consiguiente a uma situación y a una estructura dramáticas. La Impro, por otro lado, es la improvisación como resultado en sí misma, convirtiéndose así en la puesta en escena, sin puentes, sin textos ni ensayos. Esto técnicamente hablando, pero si respondo esta pregunta basado en mi posición personal, diría que la Impro es una filosofía de vida, los conceptos de aceptación, escucha, trabajo en equipo, juego y diversión son tan útiles en la vida que por momentos la impro cobra más importância fuera de escena. La impro te da la posibilidad de crear y no repetir, de ponerte a riesgo constantemente y por si fuera poco, de pasar momentos inolvidables y muy, muy divertidos.

O teatro de improviso é o meio, a ponte que liga a imaginação e a criatividade do ator com a encenação, é o caminho natural para alcançar a ação dramática e, consequentemente, a uma situação e uma estrutura dramáticas. A Impro, por outro lado, é a improvisação como um resultado em si mesmo, tornando-se a encenação, sem pontes, sem textos nem ensaios. Isso tecnicamente falando, mas se eu responder a essa questão com base na minha posição pessoal, eu diria que o Impro é uma filosofia de vida, os conceitos de aceitação, escuta, trabalho em equipe, jogos e diversão são tão úteis na vida que às vezes o impro, por momentos, reivindica mais importância fora de cena. A improvisação te dá a capacidade de criar e não repetir, de te por em risco constantemente e além de tudo, passar momentos memoráveis e muito, muito divertidos.

Improvisando:  Como a Impro foi introduzida dentro da sua carreira?

Gustavo Miranda: Yo estudiaba teatro en la universidad y un maestro que llegó de Itália nos dio un taller de Impro a mi y a un grupo de 20 personas más, más adelante vino una compañía Argentina llamada “Sucesos Argentinos” que llevaba muchos años investigando la Impro, recibimos un entrenamiento aún más detallado y un apoyo económico de parte de ellos, a partir de esse momento, cinco de los veinte que comenzamos los talleres seguimos trabajando constantemente la técnica, entrenamos durante un año seguido y comenzamos a presentarnos con gran éxito en nuestra ciudad, luego comenzamos a viajar a diferentes países y conocimos otras compañías, hasta que nos convertimos en una empresa, ahora la compañía nuevamente está integrada por más de veinte personas, entre artistas, personal operativo y administrativo, tenemos un teatro y una academia de Impro y nos proyectamos como la compañía joven de teatro con más proyección em nuestro país. Finalmente me convertí en actor – improvisador, una combinación muy buena que me ha traído exelentes resultados, recientemente Acción Impro montó su primera obra de texto (La Escala Humana), después de 9 años improvisando le dimos al público un montaje sin nada de improvisación, el resultado fue increíble. http://www.accionimpro.com/app/webroot/laescalahumana/escala_humana.html

Estudava teatro na faculdade e um professor que chegou da Itália nos deu uma oficina de Impro a mim e um grupo de 20 pessoas, depois veio uma empresa Argentina chamados “Sucesos Argentinos” que estava há muitos anos investigando o Impro, recebemos um treinamento ainda mais detalhado e apoio financeiro deles, e a partir desse momento, cinco dos vinte que começamos a Oficina seguimos trabalhando constantemente a técnica, treinamos por um ano seguido e começamos a nos apresentar com grande sucesso em nossa cidade, então começamos a viajar para diferentes países e conhecemos outras empresas, até que nos tornamos uma empresa, agora a companhia novamente está composta por mais de vinte pessoas, entre artistas, pessoal operacional e administrativo, temos um teatro e uma academia de Impro e nos projetamos como a companhia jovem de teatro com mais projecção em nosso país. Finalmente eu me tornei um ator-improvisador, uma combinação muito boa que me trouxe excelentes resultados, recentemente o Acción Impro montou sua primeira peça de texto (La escala Humana), depois de 9 anos improvisando, demos ao público uma montagem sem qualquer de improvisação, o resultado foi incrível. http://www.accionimpro.com/app/webroot/laescalahumana/escala_humana.html

Improvisando: Quem são os improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?

Gustavo Miranda: Por ser una técnica tan reciente, es muy difícil tener ídolos en la Impro tan rápido, sin embargo hay improvisadores muy talentosos a los que personalmente admiro, por ejemplo Omar Argentino Galván o Marcelo Savignone, originalmente improvisadores de “Sucesos Argentinos”, de mis primeros entrenadores, actualmente realizan investigaciones de Impro com máscaras, solos de impro, formatos dramáticos, entre otros.

Por ser uma técnica tão recente, é muito difícil ter ídolos na Impro tão rápido, contudo há improvisadores muito talentosos a quem eu pessoalmente admiro, por exemplo, Omar Argentino Galván, Marcelo Savignone, originalmente improvisadores do “Sucesos Argentinos”, os meus primeiro treinadores, atualmente realizando pesquisas de Impro com máscaras, solos de impro, formatos dramáticos, entre outros.

Improvisando: Quais companhias teatrais fazem os trabalhos os quais vc mais admira hoje?
Gustavo Miranda: Me gusta mucho el trabajo de Impro Madrid de España, hacen un tipo de improvisación muy tranquila e inteligente. Me gusta también Complot Escena de México y la fusión de clown e improvisador que se da en Jogando No Quintal de Brasil.

Gosto muito do trabalho do ImproMadrid da Espanha, fazem um tipo de improvisação muito tranquila e inteligente. Gosto também do Complot/ Escena do México e da fusão do Clown e Improviso que se dá no Jogando no Quintal do Brasil.

Improvisando:  O que mais o atrai hoje em dia? Jogos de improvisação ou espetáculos
longform?

Gustavo Miranda: Entre esos dos prefiero los espectáculos long form, pero lo que realmente me atrae actualmente en la impro es la búsqueda de la verdad escénica, la construcción de personajes y la teatralidad de las puestas.

Entre esses dois eu prefiro os espetáculos longform, mas o que realmente me atrai na improvisação é a busca da verdade cênica, a construção de personagens e a teatralidade das cenas.

Improvisando:  Quais são os princípios de Improvisação que no atual momento são mais motivo de pesquisa e aplicação?

Gustavo Miranda: Los principios básicos de la impro son la aceptación, la escucha, la atención, la espontaneidad y la acción reacción, esto siempre estará en la impro como base, además como entrenamiento para todo aquel que quiera acercarse a la técnica, por eso creo que difícilmente pasarán de moda. Sin embargo hay otros conceptos que siempre han estado implícitos como la diversión y la honestidad en escena, creo que estos dos elementos están tomando mucha fuerza, al punto de desplazar conceptos como “no hay error” con el que fundamentamos muchos improvisadores nuestro entrenamiento al inicio, ahora estamos buscando ser verdaderos y buscar siempre pasarla bien en escena. Otro principio que está tomando mucha fuerza es la creación del personaje y su relación (estatus) con los otros y con la situación. Y por último un elemento que ha estado siempre en la impro y al que cada vez más las compañías experimentadas le ponen más cuidado, la estructura dramática y construcción de historias.

Os princípios básicos da improvisação são de aceitação, escuta, atenção, a espontaneidade e a ação e reação, isso sempre estará na Impro como base, além disso como treinamento para quem queira se aproximar da técnica, por isso creio que dificilmente sairão de moda. No entanto, existem outros conceitos que sempre têm estado implícitos como a diversão e a honestidade em cena, creio que estes dois elementos estão tomando muita força, a ponto de mudar conceitos tais como “nenhum erro” com o que fundamentamos  muitos improvisadores nosso treinamento no início, agora estamos buscando ser verdadeiros e buscamos transmití-la bem em cena. Outro princípio que está tomando muita força é a criação do personagem e sua relação (status) com os outros e com a situação. E, finalmente, um elemento que sempre tem estado na  improvisação e que as companhias mais experientes vão ter mais cuidado, a estrutura dramática e a construção das estórias.

Improvisando: Para onde caminha a Impro? (o futuro)

Gustavo Miranda: En general el mundo creo que está dando un giro desde hace años a los espectáculos long form, por lo que he visto y he realizado, la impro no humor también es importante en la búsqueda de cada compañía, especialmente las que llevan más de cinco años. Recientemente vi en Chile a Marcelo Savignone (improvisador argentino) con un espectáculo de impro donde solo está él con su músico y una docena de máscaras balinesas, un trabajo impecable de creación de personaje y con una gran veracidad en la escena que me gustó mucho, creo que hacia allá va la impro, o al menos parte de ella. Yo particularmente como dije en la anteriormente, busco una impro donde el actor tenga la posibilidad de construir personajes, historias y estructuras más teatrales, con credibilidad y sin importar el género, puede ser humor o drama, lo importante es que el público sienta que lo que vio fue una obra de teatro improvisada.

Em geral, o mundo creio que está dando uma volta desde anos aos espetáculos longform, pelo que tenho visto e feito, a impro sem humor também é importante busca de cada companhia, especialmente aqueles que chegam a mais de cinco anos . Eu vi recentemente no Chile, Marcelo Savignone (improvisador argentino) num espetáculo de impro onde ele está sozinho com seu músico e uma dúzia de máscaras de Bali, um trabalho fantástico de construção de personagem e com uma grande veracidade em cena que eu gostei muito, creio que por ali a improvisação está indo, ou pelo menos parte dela. Eu particularmente, como disse anteriormente, busco uma impro, onde o ator tenha a possibilidade de criar personagens, histórias e estruturas mais teatrais, com credibilidade e sem importar o gênero, pode ser humor ou drama, o importante é que o público sinta que o que viu foi uma obra de teatro improvisado.

Seguem-se três vídeos:

Um espetáculo chamado Comfama, uma sátira de programa de TV Cambio Extremo e o trailer do novo espetáculo La Escala Humana.


Rhena de Faria tem sangue e alma de artista. É filha de artista plástico e  livreira-tradutora-escritora, ainda irmã do escritor Santiago Nazarian. Nasceu em Olinda, na casa onde hoje mora Alceu Valença, mas veio para São Paulo ainda bem criança. Começou a estudar comunicação na FAAP com 19 anos, mas abandonou a faculdade pelo grupo teatral TAPA. Também ministrou aulas de sapateado por dez anos, ofício que ensinou a atores e grupos como Bonecos Urbanos, Circo Navegador e TAPA.  Em 1996, mudou de rumos ao começar a estudar Geografia na USP. Mas 2 anos depois acabou se descobrindo mesmo no picadeiro.

Trabalhou com Circo Escola Picadeiro e com a Família Medeiros.  Participou de Oficinas do Odin Teatret com seu diretor Eugenio Barba. Também com Leo Bassi, Ricardo Puccetti e Léris Colombaioni.

Com Silvia Leblon fez inúmeros espetáculos como dupla Blanche & Spirulina.

Mademoiselle Blanche

 

Participou do documentário Palhaço – O Ser em Transgressão. Em  2009  participou do filme “O Contador de Histórias” premiado com o selo da UNESCO.

É palhaça atleta do Jogando no Quintal desde 2004, e além desse espetáculo, dentro da Companhia participou de outros espetáculos como a concepção e atuação juntamente com Marcio Ballas no espetáculo de palhaços “O Eterno Retorno”, que teve pré estréia na Colômbia e dirigiu o solo de Cesar Gouvêa In Memorian, ambos em 2007.

Eterno Retorno no Improfestin Chile

 

Ainda dentro do Jogando no Quintal, participa da Seleção Brasileira de Impro e do espetáculo Caleidoscópio (direção e dramaturgia Marcio Ballas), um dos primeiros espetáculos long form do Brasil.

Caleidoscópio no Improfestin Chile

 

Seleção Brasileira do Jogando no Quintal Mundial do Peru

 

No ano de 2009,  fez a sonoplastia e direção do espetáculo solo “Sobre Tomates, Tamancos e Tesouras”, dramaturgia concebida junto com Andrea Macera (solista do espetáculo). O espetáculo teve excelentes críticas, inclusive como espetáculo recomendado pela revista Bravo de junho/2009.

Tive felicidade de estar em dois workshops de improvisação dessa incrível professora, sendo cada uma delas uma experiência excepcional . E é com essa alma inspirada e doce de palhaça, dançarina, dramaturga, diretora e uma das mais talentosas improvisadoras do mundo, que conversei um pouquinho sobre as impressões da Improvisação Teatral.

Improvisando:  Gostaria que vc começasse resumindo os trabalhos nos quais vc está envolvida hoje.

Rhena: Sou palhaça atleta do espetáculo “Jogando no Quintal – Jogo de Improvisação de palhaços” (é assim mesmo que a gente se nomeia: palhaços-atletas!)

Integro o novo espetáculo de Improvisação do grupo Jogando no Quintal chamado “Caleidoscópio”, nosso primeiro long-form, dirigido por Marcio Ballas.

Junto com a seleção brasileira do Jogando no Quintal conquistei o Terceiro Lugar no Match de Improvisação entre países, disputado em Lima, no Peru (2009), e o Primeiro Lugar no mundial de Match de Improvisação em Bogotá, na Colômbia (2008).

Improvisando: O que é Improvisação Teatral? Quais são os princípios em que se embasa?

Rhena: Improvisação Teatral para mim é a arte do jogo, a arte de estar aberto às possibilidades. Eu diria que os princípios mais básicos da Improvisação são a ESCUTA e a ACEITAÇÃO. Para mim, sem dúvida são o bê-a-bá, a lição número 1. Depois com a maturidade, um improvisador pode até desconstruir estes princípios. Mas num primeiro momento eles são fundamentais para que se crie uma cultura comum de jogo entre os atores.

Improvisando:  Como surgiu a Improvisação na sua carreira?

Rhena: Surgiu junto com o meu trabalho de palhaça, no final de 2000. Ser palhaça é entre outras coisas, viver em cena o aqui e o agora. É ser permeável ao meu público e a tudo o que ele me dá. E isto também é improvisar, porque trata da vivência de uma relação verdadeira, como na vida. Agora a improvisação como técnica, mais aprofundadamente, eu só fui descobrir quando fui convidada a integrar o Jogando no Quintal, em 2004. Entrei no Jogando no Quintal porque já era palhaça e boa parte dos integrantes conhecia o meu trabalho. Mas foi com o Jogando no Quintal que passei a ter contato com outros grupos, com mestres da Improvisação, e a me aprofundar em todos os seus princípios.

Improvisando:  Sabemos que o Jogando tem uma vertente singular na Impro em todo mundo, que é a aplicação de técnicas de Clown junto ao Improviso. De que maneiras se encontram o Clown e a Impro? Em que aspectos elas se diferenciam?

Rhena: Embora o palhaço crie relações reais com o público, e os improvisadores por meio de personagens, criem relações fictícias entre eles, ainda assim, nos dois casos é preciso reacionar a estes jogos com prontidão e verdade. Ambos fazem um teatro vivo diretamente relacionado às suas inquietações mais imediatas. E ambos os trabalhos são, sobretudo, trabalhos autorais.

O desafio de fazer Impro com o clown consiste na tentativa de conciliar algo que é de natureza generosa – no caso a Improvisação, com uma figura que é naturalmente egoísta – no caso o palhaço. E não se trata de ver generosidade como algo “bonzinho” e egoismo como algo “nocivo”. É muito mais simples: o improvisador serve  a cena, está a serviço de algo maior do que ele. Já o palhaço serve em primeiro lugar ao que lhe dá prazer, ao que lhe entretém e lhe diverte. Por isso ele é capaz de sacrificar uma estória em andamento em prol de uma boa piada, na tentiva de ganhar o público. Daí o seu egoismo. Acho que o Jogando existe há tanto tempo porque juntar estas duas coisas com facilidade é uma meta inalcançável.

Improvisando: Quem são os Improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?

Rhena: O argentino Marcelo Savignone, que faz um trabalho impressionante de improvisação com máscaras balinesas.

O colombiano Gustavo Miranda Angel, do grupo Acción Impro, pela presença de espírito e humor genial e que ele tem.

Gosto muito do Omar Argentino Galvan também, porque é um cara extremamente poético e inteligente. Um cara que faz um solo de Impro bastante verbal, como se fosse uma espécie de contador de estórias.
Improvisando: Quais companhias no mundo você acredita que hoje fazem os trabalhos mais incríveis?

Rhena: O grupo Acción Impro, de Medellin-Colômbia, que posui um dos espetáculos de longo formato mais bonitos que eu já vi: Tríptico. São bons atores, sempre se desafiam criando coisas novas, além de representarem para mim um ideal de grupo.

Gosto muito também do grupo espanhol Impromadrid, sempre poético e sofisticado em suas improvisações.

E citaria também os mexicanos do grupo Complot Escena. Me agradam suas idéias, são simples e carismáticos.
Improvisando: O que mais tem te trazido interesse em Improvisação hoje? Jogos de Improvisação ou espetáculos mais long form?

Já não me atraio por jogos de improvisação hoje em dia. O que me prende ao espetáculo Jogando no Quintal é muito mais o desafio de fazer impro entre palhaços e pela relação incrivelmente revolucionária que o espetáculo estabelece com o público, do que propriamente o desafio dos jogos. Prefiro os espetáculos de longo formato, os chamados long-forms. Eles me dão a possibilidade de criar boas estórias e, sobretudo, de me aprofundar nas relações entre os personagens, coisa que os jogos curtos não possibilitam.
Improvisando:  Qual é o princípio da Improvisação que é hoje mais motivo de investimento e pesquisa hoje no mundo?

Rhena: O que vejo como trajetória comum de pesquisa entre todos os grupos que conheço, não é um princípio, e sim, um formato: um início de vida por meio de jogos curtos de desafio que culmina, depois de anos de prática, na vontade e na necessidade quase vital de fazer um long-form. Então estas companhias partem para aquilo que consideram um desafio maior: criar estrórias de longa duração ou estórias únicas que durem todo o espetáculo. Quando isto aconteceu com o Accion Impro, da Colômbia, eles criaram “Triptico”. A LPI, da Argentina, criou o espetáculo “Circulo”. A LPI de Belo Horizonte, dirigida por Mariana Muniz, criou  “Sobre Nós”, o Colectivo Teatral Mamut, do Chile, criou o “Efecto Impro”, o Jogando no Quintal criou  “Caleidoscópio”. E com tantos outros grupos se passou o mesmo.
Improvisando:  Para onde vai a Impro (o futuro)?

Rhena: Acho que a Impro caminha para sair da marginalidade e se firmar como mais um gênero teatral. Acho que os espetáculos de Impro que fazem sucesso no Brasil têm impulsionado novos grupos a fazerem Impro também. E aos poucos a quantidade de grupos de improvisação vai aumentando, no Brasil e no mundo.

A seguir vídeos de Rhena de Faria com a Seleção do Jogando e como Mademoiselle Blanche no Jogando no Quintal.

Esse blog abre aspas, dentro do Ciclo de Entrevistas, pedindo licença para falar de Allan Benatti.

Allan Benatti é o palhaço-atleta Chabilson do Jogando no Quintal. Também integra o elenco de Caleidoscópio, Long Form de Impro da trupe, juntamente com Márcio Ballas, Marco Gonçalves e Rhena de Faria. Compõe a seleção brasileira de Impro, juntamente com a mesma equipe do Caleidoscópio, campeã do mundial no Peru e terceiro lugar no mundial do México. Por diversas vezes jogador convidado do espetáculo Improvável da Cia. Barbixas de Humor. Já participou de diversas montagens dentre as mais importantes, pode-se destacar: O Assassinato do Anão do Caralho Grande, O Chá de Alice e O Auto da Compadecida. Trabalha com a linguagem do Clown há mais de dez anos, tendo sido aluno de Léo Bassi, Bete Dorgan e Cristiane Paoli Quito. É professor de Clown e Improviso.

Durante 2 workshops e um curso de 4 meses nesse ano, tive a oportunidade de ter curiosidade, aprender e me entusiasmar pela Improvisação Teatral, convivendo com um professor por natureza. Aliás, creio que algumas qualidades na vida fazem o professor: logicamente o conhecimento adquirido, mas principalmente a curiosidade em continuar a buscar conhecimento e o entusiasmo e a generosidade com que lida com o aprendizado dos alunos. Talvez o professor seja um dos principais personagens em construção de Allan Benatti. Aliás, é bem interessante vê-lo, aqui, falar sobre seu entusiasmo sobre máscaras, construção de personagens e relações. Porque tão interessante quanto conhecer suas opiniões a respeito da Improvisação Teatral, na qual é um de seus personagens principais, é conhecer a própria trajetória de sua vida, que o trouxe por esses caminhos, entremeada por muitos improvisos e muitos personagens.

Improvisando: Queria primeiramente te perguntar sobre como começou sua carreira como ator.

Allan: Eu comecei na verdade, assim, por acaso. Eu comecei a estudar no colegial numa escola técnica que era o Liceu de Artes e Ofício. E aí no segundo ano eu jubilei, fui expulso do Liceu e fiquei perdidinho, sem saber o que fazer.

Foi engraçado porque tinha uma tia minha que quando eu pequeno, tinha dez, onze anos de idade, eu tinha comentado com ela que eu queria fazer teatro. E aí eu já tava com dezesseis para dezessete anos, por aí, nessa época. E ela me vendo perdido chegou pra mim e falou assim: “Ó, você não queria fazer teatro? Vai ter um curso, uma oficina grátis na Oficina Cultural Mazzaropi que eu vi na televisão. Porque você não vai lá fazer? É aqui pertinho.” No primeiro momento quando ela falou, putz, me veio um: “Teatro? Mas por que ela veio me falar de teatro?” Como eu tava mesmo sem saber o que eu ia fazer da vida, pensei: “Vou fazer isso aí.” Aí cheguei lá, tinha uma baita fila enorme para fazer a inscrição e eu passei por acaso.

E foi assim transformador! Porque aí eu descobri um novo mundo e me apaixonei de um jeito que eu comecei a fazer tudo que eu podia ao mesmo tempo em todas as oficinas gratuitas: na Três rios (Oficina Cultural Oswald de Andrade), na Mazzaropi, no Engenho Teatral. E aí no final desse primeiro ano que eu tava fazendo esses cursos eu fui ver um espetáculo que chamava NegraBox que se não me engano era organizado pela Célia Helena. Esse espetáculo era uma co-produção francesa e espanhola. Era uma caixa enorme montada no Ipiranga que devia ter uns cinco por cinco metros de altura. Eu achei um espetáculo incrível e eu sabia que era palhaço, mas só que eles não usavam máscara de palhaço, era um outro tipo de linguagem de palhaço que não era a que eu tinha como referência como o de circo ou de picadeiro. E foi impressionante que eu tinha certeza que era palhaço mesmo com pouco conhecimento e eu pensei: “Meu, eu quero fazer um curso de palhaço.”

No semestre seguinte, em janeiro, abriu turma para fazer curso com a Cida Almeida, que é uma palhaça super clássica. Só que olha as coincidências da vida, que não são coincidências, na verdade. Acabou que a Cida tava grávida de gêmeos, uma gravidez frágil, e tinha que ficar em repouso e não pode dar o curso. Então convidou a Bete (Dorgam) pra ir dar o curso no lugar dela. E aí foi paixão à primeira vista, de imediato, e fiquei quatro anos seguidos estudando com a Bete de janeiro a dezembro. Os primeiros anos foram bem de estudo e o grupo (eu, o Denis (Goyos) , a Gabi (Argento) e a Karin (Frutig)) convidou ela para dirigir um espetáculo. No primeiro momento ela falou: “não, não quero.” A gente continuou trabalhando porque a gente queria montar um espetáculo juntos e dois meses depois ela falou: “Olha, eu topo, se vocês toparem ser minha tese de doutorado.” E aí a gente começou todo um processo, né? Ficamos dois anos em cima de muitos elementos que ela dava a partir do capítulo sete do Alice no País das Maravilhas que é o Chá Muito Louco e aí o resultado foi o Chá de Alice que é um espetáculo completamente inspirado nesse capítulo.

Nessa época, enquanto a gente tava fazendo o Chá de Alice, o Márcio (Ballas) voltou e eu prestei o teste para os Doutores da Alegria. Foi aí que eu conheci o Márcio, foi a primeira vez que a gente se viu. E foi uma afinidade muito grande de primeiro momento. Aí eu não passei, ele passou, a gente continuou as coisas da vida…

Depois de um ano e pouco, o Chá de Alice tava bombando, a todo vapor ainda. Nós ficamos com ele uns 4 anos, tudo bem espaçado: era uma apresentação em janeiro, outra em setembro. Tivemos uma temporada mais longa…

Nessa época ele me convidou: ele já estava treinando com o César (Gouvêa) e com a Paulinha (Paola Musatti) e estavam começando a testar o Jogando no Quintal. O primeiro time a ser convidado para fazer os testes do Jogando no Quintal foi eu, a Gabi e o Dênis. E a partir desse jogo, eles perceberam que não dava pra fazer o espetáculo sem treinar, sem ensaiar. E aí eles começaram a chamar as pessoas para começar a treinar, mais ou menos em março. Quando foi em setembro, nós fizemos a primeira apresentação aberta, se não me engano a gente nem cobrou, foi bem para amigos, umas 30 a 50 pessoas. A gente começou a cobrar no mês seguinte. Então acho que o aniversário do Jogando se não me engano é em outubro, por aí. E aí toda a estória do Jogando que de um quintal foi para um quintal maior, um quintal maior, um quintal maior. Então, toda minha pesquisa acabou se criando dentro da máscara do palhaço mesmo.

De teatro eu cheguei a fazer algumas coisas, espetáculos como O Assassinato do Anão do Caralho Grande, que também como experiência foi fundamental. Porque como era muita gente em cena, eu também consegui degustar a possibilidade de você viver uma máscara, não fazer uma máscara. Porque o Marcão (Marco Antônio Rodrigues) era muito exigente. E foi muito gostoso fazer isso, também estudando junto com o palhaço.

Então, eu comecei a perceber que eu gosto desses personagens, de viver personagens, e acho que to criando uma relação da improvisação da máscara, da vivência da improvisação. A gente acaba trabalhando muito mais na relação propriamente dita, no como eu me relaciono, do que em qualquer outra teoria da improvisação. Quando a gente (Márcio Ballas, Marco Gonçalves e Rhena de Faria) começou a estudar o Caleidoscópio, isso ficou ainda mais acentuado. Porque antes eu já fazia personagens, mas a possibilidade de você, num long form, viver um mesmo personagem por 5 minutos, me trouxe experiências muito boas de palco, de cena, de compreensão da máscara, de compreensão do personagem, da relação, do caminho do respeito, né?

Porque é isso que a gente procura. Se eu to procurando a relação na improvisação também eu imagino, pelo menos para mim, não ser possível eu me relacionar de outra maneira na vida. Então em tudo: desde com minha namorada, com meus amigos com tudo, eu procuro me relacionar com a verdade que eu procuro me relacionar quando eu visto uma máscara na cena. Pra mim esse é o mistério que eu to investigando ainda mais que eu acho que é, pra mim, o que me dá mais prazer e é mais essencial.

Improvisando: Fale um pouquinho sobre os trabalhos com que você está envolvido no momento. Você falou do Jogando no Quintal, do Caleidoscópio…

Allan: Sim, estou trabalhando com o Jogando, o Caleidoscópio. Eu também dou aulas. Eu faço bastantes trabalhos em empresas também, que na verdade são trabalhos que eu pego um briefing específico de uma coisa e desenvolvo numa cena. Então eu também crio roteiros nos quais não faço textos fechados nunca, sempre me baseando na improvisação. Eu pego o briefing, chamo algumas pessoas para trabalhar que são do Jogando e a gente faz a cena inspirado nesse roteiro para seguir um pouco do que eles desejam. Por exemplo, a empresa diz: “Ah, a gente precisa trabalhar a venda.“ Então a gente trabalha com o humor, e geralmente, disassocia da relação com a empresa, levando para uma relação cotidiana, com palavras-chave, com justamente os pontos que eles precisam trabalhar.

Improvisando: E como a Improvisação entrou na sua carreira?

Allan: A partir do momento que eu entrei no Jogando no Quintal. Só que no início do Jogando no Quintal, o primeiro momento de improvisação foi a improvisação do Palhaço.

O Cris (Karnas) entrou e começou a ministrar contato-improvisação que é uma coisa que até hoje eu adoro e quero estudar mais também. A gente trabalhou bastante com essa técnica de ideokinesis nessa parte da improvisação, e trabalhou contato-improvisação. Essa técnica entra numa relação de improviso corporal que pra mim é importantíssimo também. Gosto muito do conhecimento corporal para poder improvisar corporalmente.

Com relação ao Improviso em si, no Brasil, a gente não conhecia ninguém. A única pessoa que a gente conhecia era a Vera (Achatkin) que dirigia um grupo de Teatro Esporte. No início nós tentamos entrar em contato com ela, tentamos nos oferecer de pesquisar com ela, mas não rolou.

E aí a primeira aula de improvisação foi com o Leon e com uma menina que eu não lembro o nome, que tinham recém voltado da Espanha após um curso com o Impromadrid e foram eles que deram as primeiras idéias de técnica de improvisação pra gente. Depois foi a Mariana Muniz. E daí com os festivais, estudamos com o Acción Impro, o Impromadrid… Esses intercâmbios foram fundamentais para começar a ter a compreensão do que é tudo isso.

Improvisando: E qual compreensão você tem de tudo isso hoje? O que é a Improvisação Teatral para você?

Allan: Pra mim na Improvisação o fundamental é a escuta. É você estar em cena livre e solto, sem peso, sem carga, sem pressão. Com uma escuta, porque se você tiver com a escuta você vai estar dentro do que o Shawn (Kinley) chama de Circulo de Possibilidades. E é muito importante também, pra mim, estar livre de qualquer ego, de qualquer coisa que te pressione também. Porque se você está cheio de ego, você tem uma autocrítica maior, você tem que cumprir uma meta que é fazer o público rir e tentar ser melhor até que seu parceiro que está em cena. Ou então quando você está em cena e riem do seu parceiro ,te dando uma trava porque “Riram de você? O que eu tenho que fazer para rirem de mim?” Então, pra mim, Improvisar é estar livre de ego e de qualquer tipo de pressão e ter escuta, pra poder brilhar junto, jogando junto.

Improvisando: Gostaria que você falasse um pouco sobre essa particularidade do Jogando no Quintal que é a relação do Improviso com o Palhaço. Como é vivenciar essa relação tão ambivalente? Como essas duas vertentes se aproximam, como se diferem? Como dar coesão a elas?

Allan: Esse é um pensamento que a gente procura exercitar sempre. O palhaço é improvisador por natureza, só que a improvisação dele é muito mais momentânea. Não tem uma preocupação com que estória eu vou contar, que linha dramatúrgica… Eu vou procurar uma linha dramatúrgica? Não existe isso, ele é mais do acontecimento. A gente ta aqui e acontece de uma latinha cair, por exemplo. Na improvisação, é muito melhor quando essa latinha cai porque precisava cair do que ser um acontecimento atrapalhado. No palhaço os acontecimentos atrapalhados tomam uma importância muito grande, na improvisação o acontecimento atrapalhado pode ser uma desculpa para alguma coisa. Pode ser a característica de um personagem, pode virar uma desculpa para a característica de um personagem. No palhaço não, esse personagem já é por natureza. Então ele pode voar muito mais, sem se preocupar com a lógica, porque a lógica já é dele. Ele já tem sua própria lógica. O improvisador, acredito, procura traçar uma lógica um pouquinho mais… Não realista, ela pode ser fantasiosa, mas que ela seja lógica em tempo integral. O palhaço não necessita disso. Uma outra diferença é que o palhaço é uma figura solitária por natureza, o improvisador pode ser uma figura solitária mas não necessariamente ele é uma figura solitária por natureza.

Só que tem muitas outras coisas que coincidem muito, em muitos pontos. Por exemplo, a escuta no palhaço também é fundamental, acho que é o ponto mais fundamental nos dois. Você tem que estar presente e tem que estar vazio, estar livre de pressão de qualquer pensamento, deixar o pensamento vir. Os dois também trabalham bastante com a relação. Por exemplo, “como eu me relaciono com o outro palhaço?”

Improvisando: E quem são os Improvisadores que tem te inspirado na realização do seu trabalho? Lembro-me de você ter me dito algo sobre o Shawn (Kinley) e o Savignone (Marcelo Savignone)…

Allan: Justamente. Shawn (Kinley) foi pra mim catártico. Essa estória da inspiração, de jogar para o outro. Intuitivamente a gente já até tem essa característica, mas ele consegue verbalizar isso e tem um olhar muito específico, muito pontual. Então em muitos momentos, acontecem coisas durante uma improvisação que após a cena ele fala pontualmente pra você e te ajuda a conseguir detectar. A improvisação tem uma coisa muito boa que é o fato de que observar ensina bastante. Quando eu to dentro de uma improvisação é muito difícil eu conseguir me observar. Porém com o olhar de fora dele, quando ele me pontuava, eu puxava na minha mente a cena e conseguia visualizar esse momento. Então era como se eu tivesse vendo o que tinha acontecido. Foi extremamente didático, aprendi muito com o Shawn.

O (Marcelo) Savignone, pra mim foi o click de que, eu quero fazer essa pesquisa das máscaras, não necessariamente utilizar a máscara como ele utiliza. Mas ele me inspira de lembrar, ele me inspira muito, porque ele é muito virtuoso. Desconstrução de máscaras, de personagens… Era uma pesquisa que já anterior a ele eu já tinha interesse em fazer. Daí quando eu chego, logo no primeiro festival, e vejo um espetáculo como o Sincro? Fiquei passado! Porque é uma habilidade de trocar o personagem e manter o mesmo personagem e você vê que não é uma interpretação, é uma vivência e que acontece na hora. E ele ainda junta o contato-improvisação que é uma coisa que eu adoro também. E música também. Improvisando em todas as áreas! Eu saí do espetáculo falando: “eu quero fazer uma coisa assim!” Sabe? Então é muito inspirador. O Vivo então é mais declarado ainda! Porque é a máscara, né? É a máscara e a relação. É um diálogo com a platéia e de repente acontece a cena. É como um contador de estórias também. E me fascinou, e me fascina e pretendo muito fazer um curso com ele em breve, mais tardar março.

Improvisando: E com relação a Companhias Teatrais no seu trabalho conjunto? Que companhias te agradam no seu trabalho?

Allan: Olha, dos que eu conheço… Españo hablantes a grande maioria, pra mim é parceira e só tem qualidade.

Os mexicanos (Complot/ Escena) tem uma agilidade, um poder de raciocínio. Nem sem como explicar. Eles conseguem abrir os cabos (de idéias), numa improvisação. Por exemplo, você ta numa linha dramatúrgica, você abre um cabo, geralmente você sente uma dificuldade de fazer linkar esses cabos que foram soltos com o cabo principal. Eles tem uma linha dramatúrgica inicial e abrem os cabos e vão conectando muito rápido. É como se eu abrisse um cabo aqui e na fala seguinte já estaria fechando o cabo. Então eles te supreendem a todo momento. Porque o cara fala alguma coisa e você pensa: “O quê?” Mas já na fala seguinte já: “Ah! Entendi.“ Já faz a lógica. E eles são muito bons nisso, são muito hábeis.

O Acción Impro tem uma expressão corporal que poucas companhias que eu conheço tem. Também são muito rápidos, são muito bons em estilos, são muito bons atores. Então o Tríptico é um espetáculo que me envolve de uma maneira… Cada vez que eu vejo me envolve mais, não é que nem um espetáculo de improvisação que você chega e você fala: “Ah, tá, tem essa estrutura, entendi essa estrutura.”  E depois de um tempo você vai falar: ”Ah, mas eu já conheço, já sei como é que é.” Como o próprio Jogando no Quintal acaba acontecendo. As pessoas vão assistir cinco, sete vezes e depois precisa dar um tempinho, só vai assistir de novo dali um ano, dois. Natural. O Tríptico não tem essa característica, é o oposto. Cada vez que eu assisto, me encanto mais pelo espetáculo.

Os espanhóis (Impormadrid) pra mim são mestres. Mestres de uma tranqüilidade, de uma escuta. Aprender escuta com os espanhóis é a coisa mais incrível do mundo. Tem outro ritmo, por exemplo, dos mexicanos e dos colombianos. Eles tem agilidade, mas eu acho que não é o que é interessante para eles. Porque eles gostam de jogar junto com as pessoas, num tempo, num ritmo… Muito um pouco realista, às vezes. Mesmo num universo fantástico eles trazem para uma realidade possível para você.

E o Mamut (Colectivo Teatral Mamut) pra mim… No primeiro momento que eu conheci o Mamut eu tive a sensação de que, como com o Marcelo Savignone, eu precisava trabalhar com esses caras. E até hoje, pra mim, o Mamut também é uma companhia que… são muito generosos todos eles, eles tem uma coisa como todo chileno, muito política, muito ética de querer transformação. Mesmo dentro da improvisação ou fora da improvisação, eu acho que eles procuram uma transformação. Eles são muito politizados, todos eles. E isso me encanta! Os mexicanos também, mas acho que os chilenos ainda mais até pela História deles e tudo mais.  E eu e o Mário (Escobar)  a gente tem uma afinidade que é coisa de irmão. Sou irmão do Mário, do Panqueque (Sérgio Molina), do Nico (Nicolás Belmar), da Juanita (Urrejola), da Mônica (Moya)… Aí é uma outra relação, sabe? Me deu até saudade, me deu vontade de escrever para eles. (Sorri, bastante emocionado). Eu sou muito displicente com essas coisas…

Improvisando: Acho que de alguma forma você já falou bastante sobre isso, mas gostaria muito de saber qual seu atual interesse em termos de formatos de Improvisação. Você faz o Jogando no Quintal, o Improvável, com formato de jogos de Improvisação. Mas também está fazendo o Caleidoscópio que é um Long Form. O que te dá mais prazer em cena? O que te interessa mais em termos de pesquisa? Porque a questão da máscara que você ressaltou é um pouco diferente, né?

Allan: É, é uma outra coisa. Mas, é isso que eu falo. Assim como no Jogando que a gente mistura o Palhaço com a Improvisação, a máscara pra mim pode ser a máscara como na França, por exemplo. Quando você chega no Castelo, você tira a máscara, mas o personagem se mantém. Então a construção de um personagem, também acho que é uma máscara. E a máscara trabalha dentro da relação. Por isso acho que pra mim, está me instigando mais o Long Form hoje em dia, em que posso construir o personagem e a relação. É o que me da mais inspiração e prazer em estar em cena. É onde eu não preciso fazer piada, eu posso simplesmente fazer uma cena bonita, simplesmente fazer uma imagem que me dá prazer.

Acho que espetáculos de curto formato, jogos, outras coisas, me divertem muito, então eu gosto muito de fazer isso também, porque é o momento de criar piada, de se divertir, de não se preocupar muito com a dramaturgia… Às vezes você se perde no meio da improvisação e tudo bem. Perdeu a personagem no meio de uma improvisação, a luta é que não aconteça isso, mas dentro de um jogo curto, é menos impactante para a platéia.

Num Long Form isso é quase imperdoável, você cria um personagem que sai de cena, e não volta mais? Perde-se a resolução da coisa. Num espetáculo de formato curto não, se o jogo foi divertido, tudo bem, não tem problema, né?

Enfim, eu me divirto muito com formato curto, gosto de fazer formato curto, mas hoje em dia pra mim, o que me dá mais tesão é fazer Long Form.

Improvisando: Você falou muito em relação, fala-se muito na questão da relação na Improvisação.  É claro que todos os princípios da Improvisação são importantes, mas você acredita que a questão da relação é o princípio mais pesquisado na Improvisação hoje?

Allan: Não sei se diretamente isso, né? Acho que tem uma pesquisa na Improvisação com relação à Dramaturgia também muito forte. Essa questão que a Rhena (de Faria) levanta muito, e que eu acho fantástico que é um exercício que eu procuro fazer. Até porque tenho menos afinidade do que todo mundo do Caleidoscópio. A questão: “De que estória que eu to contando? De que to falando?” Então essa pesquisa vem em primeiro plano. Eu acho fundamental. Pra mim ela tem que correr paralela a isso que me dá mais prazer que é a relação e o personagem. Mas eu tenho mais prazer nessa pesquisa da relação.

Improvisando: Para terminar, o que você visualiza no futuro da Improvisação?. Um boom de espetáculo de Jogos? Um direcionamento para espetáculos long form? Outras pesquisas?

Allan: Bom é muito difícil falar sobre futuro, né? Mas em todos os países que a gente foi, todas as companhias começam com espetáculos de jogos e a partir deles, passaram para espetáculos de long form. Eu acho isso muito importante porque são nesses espetáculos de jogos que você consegue aplicar mais rapidamente os conceitos de escuta, de estar livre de estar em cena, de motor, de plataforma… Neles, você consegue inserir isso dentro de você, eu acho. Para enfim, quando você tiver num long form, isso sair naturalmente, isso aparecer, você não ter que fazer esforço, você não precisar pensar. Ao invés de pensar, você consegue identificar: “Está faltando mais plataforma… Putz, acho que o público está precisando mais de uma imagem… “

Às vezes acontece até o oposto. Depois do espetáculo, que é o que tem acontecido bastante no Caleidoscópio, você diz: “Nossa, hoje a gente foi muito imagético! Nossa hoje a gente ficou muito verbal e não criou muitas imagens!” Que é a escuta coletiva. É o que o Márcio (Ballas) diz, da consciência do grupo, do pensamento do grupo, que é um terceiro, um fator fora.

O que vai acontecer? Tenho a intuição de que ainda vai ter uma explosão bem grande de espetáculos de jogos, cada vez mais. Os Barbixas conseguiram abrir assim essa porta, pela porta da frente. Então surgiram muitos grupos e eu tenho trabalhado com alguns deles. Acho que é interessante que isso se multiplique mesmo, porque isso também apresenta a Improvisação para o público. Por mais que hoje já tenha espetáculos Long Form, ainda não é de conhecimento geral das pessoas a Improvisação, ainda existe muitas pessoas que não conhecem improvisação, existe muitas pessoas que nem sequer conhecem teatro. Não sabem nem o que é teatro, improvisação pior ainda. Então eu acho que é muito legal se acontecer de ter uma explosão de jogos de improvisação, para difundir isso de uma maneira astronômica, para aí então começar o surgimento desses outros espetáculos Long Form. Ainda é tudo muito igual para as pessoas a Improvisação, é muito próximo até de coisas de humor que não são relacionados à Improvisação como stand up ou então stand up de personagens também. As pessoas confundem com Improvisação e é compreensível, porque quem faz stand-up procura trazer o texto para uma naturalidade e a improvisação traz essa naturalidade porque tudo esta sendo criado na hora.

Enfim, acho que quando tiver essa profusão de espetáculos, vai começar a surgir diferentes formatos de long form, e aí o público vai conseguir entender o que é Improvisação e o que é long form. Porque quando o público que vai num espetáculo de jogo chega num long form, às vezes não vai se divertir tanto. Se for num long form tipo Tríptico, por exemplo, que é um espetáculo mais dramático, que é uma densidade de interpretação, que você pode até ao oposto de rir, chorar… O público que vai pra assistir um jogo quer rir e vai sair decepcionado disso!

Então acho que a Improvisação precisa ainda se difundir muito mais, para que as pessoas conheçam melhor, para surgir mais long forms, e quem sabe até surgir outras coisas por aí também.

Seguem dois vídeos: no Improvável e como o palhaço Chabilson no quadro do Jogando no Quintal no Programa Novo, que foi ao ar na TV Cultura entre 8 de setembro e 5 de novembro.

César Gouvea é reconhecidamente uma lenda na Improvisação brasileira. É ator formado pela EAD (Escola de Artes Dramática) da ECA/USP. Trabalhou com Cristiane Paoli Quito, Chacovacchi e Léo Bassi.

O dr. Palhaço Cizar Parker integrou a equipe dos Doutores da Alegria (http://www.doutoresdaalegria.com.br)  inclusive fazendo parte do filme de 2005, vencedor do prêmio de melhor filme do Festival de Cinema de Nova Iorque e dos Prêmios Especial do Júri e Júri Popular na 33a Edição do Festival de Gramado.

Nos Doutores da Alegria, em 2001,  em conjunto com Márcio Ballas (dr. João Grandão), teve a idéia de criar mecanismos de treino e pesquisa de duas de suas grandes paixões (Clown e Improviso). Após sete meses de investigação e formatação de um espetáculo, passaram a chamar outros colegas palhaços interessados na mesma pesquisa. Começaram a organizar pequenos eventos no quintal de sua casa, até hoje localizada à rua Cotoxó, 337, em São Paulo. Assim nasce o Jogando no Quintal (http://www.jogandonoquintal.com.br), espetáculo de Improvisação de Palhaços.

Atualmente, César Gouvea mantém-se como o palhaço-atleta Cizar Parker do Jogando no Quintal. Também é diretor, dramaturgo e ator da peça de Improvisação Infantil O Mágico de Nós.

Na entrevista que se segue, César Gouvea discorre um pouco sobre a trajetória de sua carreira e suas impressões a respeito da Improvisação Teatral, em seus conceitos e rumos. Impressiona a generosidade com que divide sua sabedoria  e a empolgação com que busca novas compreensões e novos rumos para a Impro.

Improvisando:  Gostaria que vc começasse resumindo os trabalhos nos quais vc está envolvido hoje.

César: Estou envolvido com o Jogando no Quintal, o Mágico de Nós, e aí tem um espetáculo que eu estou fazendo com o Gustavo (Miranda Angél) do Acción Impro, mas na verdade todo o processo que a gente fez foi através da Improvisação. Só que a gente não sabe se o espetáculo no fim, vai ser improvisado ou a improvisação foi apenas o veículo para a gente ter formatado numa estrutura, num texto. Então a gente ainda tem mais um mês de ensaio para a estréia esse ano para saber isso. A princípio nos nossos dois encontros, a improvisação serviu como um veículo pra chegar num determinado texto. Outra coisa que eu quero começar a fazer na verdade, que foi uma criação junto com o Jorge (Rueda) do Impromadrid,  é o tabuleiro 13 que na verdade a gente já fez numa apresentação numa empresa, mas no ano que vem eu quero fazer com que ele exista uma vez por semana, uma vez por mês, que é um jogo de Improvisação em forma de tabuleiro, sem usar o nariz de palhaço. Então esses seriam meus 4 projetos.

Improvisando:  O que é Improvisação Teatral? Quais são os princípios em que se embasa?

César: Então, o Jogando, durante nossos primeiros 3 anos, foi muito  intuitivo, porque a única base que a gente tinha de Improvisação era pelo Nova Dança ( da Cristiane Paoli Quito) http://www.novadanca.com.br. O Nova Dança é uma Improvisação que não tinha como objetivo a dramaturgia. Então a gente tentou pegar os princípios do Nova Dança que era muito trabalho de conexão ( uma conexão extremamente corporal) e a partir da aí a gente intuitivamente ia pro lado da dramaturgia, porque a nossa intenção sempre foi fazer uma improvisação teatral. E para mim a Improvisação teatral é onde o palco está na dramaturgia, na construção de estória e na construção de personagem. Só depois de 4 anos trabalhando, que através de festivais de improvisação que a gente viu que muitas dúvidas que a gente tinha, quando essas pessoas vieram pra cá, trouxeram as respostas pra gente. E a gente conheceu que existia pessoas que desenvolviam essa coisa de Improvisação Teatral. Então a gente não tem uma formação muito de estudo de textos, a técnica veio muito empiricamente, através da ação, do fazer e só depois que a gente foi pondo um pouco a teoria. Então o que eu acho o que é a Improvisação Teatral, é uma improvisação em que o grande foco é você construir uma cena na hora, mas que haja uma dramaturgia, haja um começo, meio e fim. E tem esses princípios básicos da Improvisação que é a escuta, dizer sim pro parceiro, você trabalhar o momento presente, você trabalhar a espontaneidade. E a partir daí dependendo da estrutura que você cria da sua improvisação há pesquisas diferentes.

Improvisando: Bom, creio que você já respondeu parte dessa pergunta de como surgiu a Improvisação na sua carreira. Ela parece ter vindo posterior à uma experimentação intuitiva…

César: Foi depois. Interessante que a gente antes de construir uma estória, a gente não pensava num personagem, a gente não pensava em motores vocais, por exemplo. O único motor que a gente pensava se baseava nos motores do Nova Dança que era vamos começar nossa improvisação conectando nossa escápula, conectando nossa coluna, conectando nossa tíbia. E a partir daí nós construímos uma estória.

Improvisando: O que lembra bastante os exercícios de teatro físico do Augusto Boal.

César: E que nos trouxe também até hoje essa coisa física, de imagens. Essa conexão por si só nos traz para imagens, independente de você querer, então o corpo ele se torna um grande motor de imagens. É algo que particularmente mesmo conhecendo hoje mais amplamente a improvisação é algo que eu sinto que o Jogando ainda preserva porque gosta.

Improvisando:  Gostaria que você falasse um pouco sobre o Jogando no Quintal que tem essa vertente singular na Impro em todo mundo, que é a aplicação de técnicas de Clown junto ao Improviso. De que maneiras se encontram o Clown e a Impro? Em que aspectos elas se diferenciam?

César: É engraçado que assim, a gente também percebeu em toda essa nossa pesquisa pela América Latina e na Europa que tem poucos grupos que trabalham palhaço e improvisação. E é curioso porque quando a gente vai para um festival de palhaços eles nos dizem que nós somos bons improvisadores, e quando vamos num festival de improvisação dizem que nós somos bons palhaços. E que nós vivemos nessa linha tênue, que em todos esses 7 anos, tem anos que nós pesamos mais na questão da improvisação do que no palhaço, tem anos que a gente está mais palhaço que improvisador e tem ano que está mais equilibrado. E isso muda às vezes de espetáculo para espetáculo, dizemos: ” hoje nosso espetáculo estava muito palhacesco, esse espetáculo estava muito improvisação”. Então a gente hoje consegue lidar de uma maneira mais saudável com essa não resposta, com essa linha mesmo bem tênue entre o palhaço e improvisação. Porque muitas vezes essas linguagens se constrataram. Então às vezes a improvisação por exigir o raciocínio fez com que o palhaço sumisse e o palhaço por ser tão caótico, por deturpar tanto as coisas, levava a estória também para um caminho que não virava uma estória. Eles são bem contrastantes às vezes. Eu sinto que nas pessoas que não tem nenhuma experiência de palhaço a improvisação mexe com um estado de presença e de espontaneidade que também pode mexer com conceitos muito fortes do palhaço. Por exemplo, o grupo Accion Impro (http://www.accionimpro.com), eles acabam cada um tendo quase uma maneira arquetípica de improvisar seu personagem e isso poderia ser um bom ponto de partida para descobrir os palhaços de cada um deles. Na companhia do Chile (Companhia Teatral Mamut) (http://mamutaccion.blogspot.com) também. Então eu sinto que quando nós fazemos improvisações,  não é o ator que improvisa, e sim uma persona: essa persona criativa, essa persona espontânea e essa persona ela tem alguns pontos semelhantes do palhaço. Então às vezes a improvisação por si só usa algumas ferramentas semelhantes do palhaço, que faz com que você diga: “olha, esse seria um bom ponto de partida para se desenvolver um palhaço”.

Improvisando: Quais companhias no mundo você acredita que hoje fazem os trabalhos mais incríveis?

César: Sem duvida é o Accion Impro, que é o grupo da Colômbia. Hoje eles me inspiram primeiro porque é um grupo que tem 5 ou 6 espetáculos de improvisações totalmente diferentes um do outro. Isso me impressionou bastante. A outra coisa é que vieram de uma experiência de um grupo de teatro que se encantou pela Improvisação. Então o lado teatral deles é muito forte, e eu venho do teatro. Então uma coisa que eu que eu gosto muito é dessa relação do teatro com a improvisação. Inclusive eu me identifico ainda mais hoje porque eles estão nessa, não uma crise, mas uma investigação diferente:  o último espetáculo que eles fizeram foi um espetáculo de um dramaturgo argentino, não foi um espetáculo de improvisação. Então eles estão questionando o que que a gente faz com toda essa linguagem de improvisação que nos serviu durante 7 anos? Qual será nosso próximo passo?  Será apenas criar mais um formato de espetáculo de improvisação ou transcender essa linguagem e nos surpreender com o próximo espetáculo? Isso me faz me identificar muito com eles porque quando eu vejo um espetáculo de improvisação eu não chego a me identificar com o espetáculo como um produto.  “Nossa, esse espetáculo eu gostaria de fazer!”  E sim, quase que eu acabo que, dentro de mim, montando um quebra-cabeça dos espetáculos que eu vejo e o que me encanta mais é a potência que a improvisação pode chegar, mais do que os formatos que são criados. Eu acho que a improvisação pode chegar num estado que é incrível que é ser criado na hora, mas que possa também ter a força de um texto que já foi criado há muitos anos. Porque a minha grande inquietação é que a improvisação possa gerar personagens tão bem construídos e textos tão geniais que o teatro te dá tempo pra isso. Você tendo dois meses para estudar um personagem e  uma vida inteira para construir um texto. Eu sinto que a improvisação pode chegar nesse lugar só que ela vai ter algo diferente do teatro porque vai ser tudo construído na hora e isso vai trazer uma magia que pode ser encantadora. Isso eu vejo muito no Accion Impro. Vejo que numa rapidez enorme, os personagens que são criados através da Improvisação são personagens riquíssimos em detalhes em que você fala: “Nossa, são personagens que é impossível eles não tenham estudado 2 meses para construir.” Então é algo que me encanta muito essa coisa desse diálogo que eles tem entre improvisação e teatro, que outros grupos tem suas outras virtudes, mas eles são realmente incríveis.

Improvisando: Em termos individuais, quem são os Improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?

César: Olha fiquei impressionado com o argentino, o Savignone (Marcelo Savignone) (http://www.marcelosavignone.com), né? Fiquei impressionado com ele. Ah, fico impressionado com os atores do Accion Impro, como já falei. E fico impressionado também com a maneira com que os atores do Impromadrid trabalham porque em todas as cenas por mais que seja um espetáculo cômico de cenas rápidas, tem conteúdo. Isso me impressiona. O que me impressiona também no Impromadrid  (http://impromadrid.com) é que você sai do espetáculo falando sobre as reflexões que as cenas construídas na hora foram geradas. Isso me identifico também. Por exemplo, o que eu não gosto muito é onde quando vou ver um espetáculo de improvisação, em que você fica apenas na virtuose da improvisação, que você termina e diz: “Nossa, você viu como ele fez isso,  como ele fez isso, como ele fez isso? ”  Eu acho que o teatro está a serviço a mais do que isso, então acho que você sair de um espetáculo de teatro e comentando “olha o ator fez isso” é limitador, ele é quase a arte egocêntrica. Ele não sai daquela dimensão “daquele ator capaz de realizar aquilo”. O que eu busco quando eu vou ver um espetáculo é que eu saia, não falando do ator e sim do que ele quis dizer. Sair e ponderar: “é um espetáculo que fala sobre morte” e me faça pensar sobre morte. É um espetáculo que fale sobre amor e não se limite à:  “nossa você viu aquela cena em que o cara veio para perdoar” . Não, o que me encanta é falar: “Nossa o amor, olha o amor hoje em dia!” E isso eu vejo muito no Impromadrid. Então, na verdade, o que me chama a atenção nos grupos são quase elementos que reforçam uma inquietude que eu tenho em relação ao que a improvisação pode chegar, mais que me encantar com formatos que já foram criados.

Improvisando:  O que mais tem te trazido interesse em Improvisação hoje? Jogos de Improvisação ou espetáculos mais longform?

César: Eu me encanto com espetáculos onde eu não veja o formato. É engraçado. Eu, para fazer, atualmente estou me divertido muito em jogos, mas não para assistir. É diferente. Para fazer me divirto muito em jogos , curtos, mas para assistir é quando eu não vejo o formato. É quando o formato não é o protagonista.  Você sai do espetáculo e perguntam: “você viu o formato desse?”  Não,  eu não vi o formato. Ele serviu apenas como ferramenta para chegar em algum lugar. Isso me encanta. É triste quando o que vejo  foi só o formato.

Improvisando: Qual é o princípio (teórico) da Improvisação que é hoje mais motivo de investimento e pesquisa no mundo?

César: Então, a principio, estuda-se muito a plataforma, dizer sim. Mas se você ver hoje, nesses grupos que estão há 8 anos juntos, esse dizer sim para o parceiro já é não cabe mais como conceito. É claro que tudo é estudado como tem que ser: não dá para você começar uma cena sem uma plataforma, sem uma construção, sem dizer sim para o parceiro. Mas se você vê um grupo de 8 a 10 anos, eles já transcenderam isso, e já estão buscando outras formas de improvisar sem seguir esse roteiro, que em princípio foi tão importante. E só podem chegar em outro estágio, porque a plataforma e o sim estão tão orgânicos, que já podem ir para novos vôos. No começo não, no começo de um curso que estou dando, você fala assim: “não é para dizer sim para o parceiro, mas contar o que você está sentindo”. Me lembro de  um curso do Improbable (http://www.improbable.co.uk) que foi muito bacana em que ele diz: “Vamos correr?” E aí  você tem que dizer sim e vai correr. Mas, e se você está com uma puta dor de barriga? Eu não vou correr, eu estou com uma dor de barriga. O não pode ser sim também. Mas isso é muito difícil, passar esse conceito no começo. A improvisação (só agora eu posso falar isso) tem que começar com regras bastante rígidas para você entender, para você iniciar, para depois essas regras se tornarem mais invisíveis. Acho que é um processo natural.

Improvisando: Para onde vai a Impro? (o futur0)

César: Interessante, acho que a improvisação, ela pode continuar existindo. Muitas pessoas vão ter acesso à improvisação. Então acho que ainda vai ter um tempo que a gente vai ver formatos parecidos, porque acho que gente tem que passar por eles. Para a gente transcender, para a gente ter nosso depoimento, é natural que a gente passe por jogos, pelo match. Todo grupo (a gente foi uma exceção com o Jogando) mas todo grupo fez o match, fez os jogos rápidos, é quase uma faculdade. Mas sabe? Talvez a improvisação faça com que você seja um ator que conheça muito bem a dramaturgia. E também uma questão de direção. Ele faz um ator-diretor-dramaturgo junto. Então às vezes uma pessoa por mais que conheça improvisação, possa se tornar um grande dramaturgo, começar a escrever texto. Possa se tornar um grande diretor. Porque a Improvisação te dá elementos que no teatro convencional como ator não te dá. Porque tem função de diretor, dramaturgo e o ator executa. O improvisador precisa ser ao mesmo tempo diretor e dramaturgo. Então a improvisação pode te dar ferramentas que te surpreenda e pense: “estou aprendendo, eu nunca pensei que soubesse escrever, mas estou pensando dramaturgicamente numa cena.” “Nossa, eu não consigo mais não pensar em termos de direção nessa cena.” Então eu acho que a improvisação vai sempre ter esses formatos, mas eu acho que pode surgir muitas coisas novas, às vezes até independentes da improvisação. Esse teste, um dia na improvisação, mas não necessariamente a vida inteira fazendo improvisação, mas ir para outros lugares.

Veja abaixo, a entrevista de César Gouvea, contando sobre a estória do Jogando no Quintal na estréia do Programa Novo na TV Cultura. O quadro perdurou entre 8 de setembro e 27 de outubro de 2009.