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Hoje no Festival Internacional Los Improvisadores foi dia de TellAraña do La Gata Impro e Match de Improvisação.

Começamos com o espetáculo do grupo La Gata Impro chamado TellAraña.

Num cenário que lembra uma sala de estar, um sofá, um lustre, um vaso de planta, um mancebo, duas cadeiras e um banquinho. Nesse clima aconchegante, o grupo La Gata Impro (Felipe Ortiz, Carlos Alberto Urrea Lasprilla, Juan Gabriel Turbay, Camilo Rodrigues, Daniel Orrantia, Sebastian Rodrigues e Mabel Moreno) entra despretensiosamente no palco, cumprimentando a plateia e estabelecendo com ela uma diálogo cotidiano, na qual sem perceber, vão colhendo plataformas cotidianas que serão utlizadas para criar suas estorias. Essas estorias são interligadas durante o espetáculo, permeado de elementos de realismo fantástico. No início do espetáculo, os objetos de cena saem um a um, deixando o palco livre e esses objetos vão entrando pouco a pouco em cena, complementando o cenário de cada uma delas dentro do seu contexto.

Segue-se o Match de Improvisação.

O match de improvisação é um formato de jogos de improvisação criado por Robert Gravel e Yvon Leduc no Canadá, baseando suas técnicas nas investigações do mestre Keith Johnstone. Após várias experiências com improvisação entre um grupo de atores do Teatro Experimental de Montreal, surge a idéia de uma peça teatral que, como um esporte, fosse único e irreproduzível em cada representação. Em 1977 então se cria um espetáculo desportivo-teatral baseado no Hockey de gelo que com regras apropriadas e dentro de um marco adequado, cria um estado de competição. A LPI (Liga Profissional de Improvisação) de Ricardo Behrens, foi responsável pela popularização no gênero entre os españo hablantes.

O jogo se estabelece entre 2 equipes, em suas regras oficiais composta de 3 jogadores e 3 jogadoras e um técnico. Um árbitro e dois auxiliares cuidam para que o jogo transcorra dentro das normas. Cada partida tem duração de 90 minutos (3 tempos de 30 minutos, com intervalos de 1o minutos entre cada um dos tempos). Cada jogo de improvisação proposto pelo juiz deve delimitar o tema proposto para a improvisação, sendo essas:

1)Natureza da Improvisação:

Comparada: cada equipe joga o mesmo tema separadamente.

Mista: jogadores de ambos os times participaram do tema proposto.

2) Título da Improvisação

3) Número de jogadores

4) Duração da Improvisação

5) Estilo

Existem diversas normas a serem cumpridas e faltas são apitadas quando infringidas tais regras. A contagem de pontos se baseia no voto popular e pontos são perdidos à contagem das infrações cometidas por cada equipe.

O Match teve apresentaçào de Mario Escobar Olea, um dos fundadores do Colectivo Teatral Mamut,  improvisador-professor chileno que esteve nos últimos seis meses no Brasil, trabalhando com companhias como Jogando no Quintal e Barbixas.

O juiz da noite foi Hector Rafael Altamirano, juiz personagem de Omar Argentino Galván, auxiliado por Monica Moya (Colectivo Teatral Mamut) e Mali, ambas do Los Improvisadores.

Os dois times, azul e vermelho, eram composto por seleções de jogadores variados do mundo todo.

O time vermelho era composto por:

Juan Alberto Urrea Lasprilla, do La Gata Impro da Colômbia

José Luis Saldaña, do Complot Escena do México

Guilherme Tomé, do Olaria GB e do É Tudo Improviso, do Brasil

Luciano Barreda, do Improcrash da Argentina

Sergio Molina Panqueque, do Colectivo Teatral Mamut e do Los Improvisadores, do Chile

Ignacio Soriano, do Impromadrid da Espanha.

O time azul foi assim composto:

Juan Gabriel Turbay, do La Gata Impro da Colômbia

Jorge Rueda, do Impromadrid da Espanha

Charo Lopes, do Improcrash da Argentina

Nico Belmar, do Colectivo Teatral Mamut e do Los Improvisadores do Chile

Omar Medina, do Complot Escena do México

Marcio Ballas, Jogando no Quintal e É Tudo Improviso do Brasil.

Além da melhor das seleções de jogadores, com distintas características, a melhor das qualidades técnicas, o espetáculo se torna ainda muito mais atrativo, com as atuações do Mestre de Cerimônias e o trio de arbitragem. Destaque também para Francisco “Foco” Cerda, que é o músico improvisador que faz toda a diferença improvisando junto com as cenas do match.

Sagrou-se campeã a equipe azul com 8 a 4.

Hoje é dia de estreia de espetáculo com X-ha Muerto do Complot Escena do México e Cage Match.

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Ricardo Behrens é ator, diretor e mestre formado pelo Conservatório Nacional de Arte Dramática de Buenos Aires em 1990. Tem também formação profissional como músico, estudando teoria e solfejo, clarinete e piano no Conservatório Nacional de Música, e tendo uma extensa carreira como cantor lírico naquele país.

Desde o começo da sua atividade teatral se dedicou a técnicas de Improvisação Teatral Contemporânea e de Gêneros Puros (escola de Jacques Lecoq). Foi selecionado como clown pelo ‘Cirque du Soleil‘.

Teve como mestres:
Escola Lecoq: Cristina Moreira
Clown: Raquel Solcolowicz, Hernan Gené e Guillermo Landin.
Tango: Dinzel y Rivarola
Mímica: Lerchundi-Escobar
Rítmo Musical: Rubén Ramos.
Improvisação Teatral: Silvie Potvin, Joane (de Lamirande) Bloom, Silviel Gagnon (da Ligue Nationale d’Improvisation do Canadá) e com o mestre francês Claude Bazin (da LIFI – Ligue d’Improvisation Francaise).
Na Europa estudou na Alemanha, Espanha, Estados Uidos, França, Eslovênia e Itália.

Tem trabalhado como ator e diretor em mais de 30 obras de teatro de texto em vários países e diversos programas de televisão argentinos.

É pioneiro na investigação da Improvisação Teatral e das técnicas de Keith Johnstone, Robert Gravel e Viola Spolin no idioma espanhol. Se especializou na investigação e na prática dessas técnicas desde 1988. Cria uma metodologia própria e desde 1998 começa a realizar trabalhos em empresas e instituições, aprimorando a capacidade do trabalho em equipe. É fundador da Liga Profisssional de Improvisação Internacional (LPI) e do Match de Improvisação em lingua espanhola (1988).

No âmbito teatral tem dado cursos de improvisação teatral, match de impro e clown na Alemanha, Espanha, Argentina, México, Colômbia, Peru, Equador, Chile e Brasil. A partir de seu trabalho e da fundação da Escola Internacionalde Improvisação LPI se criaram as Ligas Profissionais de Improvisação nesses países. Por sua trajetória é reconhecido internacionalmente por Yvon Leduc (autor do Match de Improvisação®) e corrdena a disciplina na  América Latina através da LPI Internacional.

Com um currículo impressionante desses, tivemos o prazer recentemente em recebê-lo ao Brasil para uma participação da gravação do É Tudo Improviso, na rede Bandeirantes. Nessa oportunidade também participou como jogador convidado do espetáculo Improvável da Cia. Barbixas de Humor e também ministrou workshops para alguns grupos de improvisação.

Nessa passagem relâmpago pelo Brasil, Ricardo Behrens gentilmente concedeu alguns minutos entre suas inúmeras atividades, para responder algumas perguntas para esse blog.

Improvisando: Eu gostaria de saber um pouquinho de como foi seu contato com a improvisação.

Ricardo Behrens: Então, no ano de 1988, na Argentina, começaram minhas primeiras experiências com teatro. Eu tinha uma experiência de dois anos com clown e aí soube de um casting, uma audição para um espetáculo que se chamava Match de Improvisação, que era um espetáculo dirigido por Claude Bazin, que é um diretor francês. Ele teve contato lá na França com o Match de Improvisação, e ele havia dado algumas aulas na Argentina e havia selecionado alguns alunos e faltava completar o elenco. Então, entrei por meio dessa audição, sem saber muito o que era e nem o que ia acontecer.
Então ele nos treinou durante um tempo, muito intensivo, mostrou para gente vídeos da França, porque era a primeira coisa de improvisação que se fazia na Argentina, com certeza, e em espanhol eu acho que era também uma das primeiras experiências, então não havia muitas referências sobre como era um trabalho com improvisação. Para nós o Match era a improvisação, não separávamos o que era Match do que era improvisação.
Então, eu entrei pela audição, fiquei treinando com ele e depois uns jogadores do Canadá foram para a Argentina e treinaram a gente também, e fizemos as primeiras quatro apresentações com a sala muito cheia e foi um grande sucesso naquele momento, como um início do improviso, de algo novo que não era conhecido lá.
Havia algumas experiências com improviso na Argentina, eu mesmo já tinha feito num lugar chamado Paracultural. O Centro Paracultural era um centro alternativo durante a ditadura militar. Mas não eram muitas as experiências, e essas estavam mais ligadas à técnica do clown, de alguma maneira com improvisações, mas não como técnica de improvisação sozinha. Então, a partir daí comecei a trabalhar, mas estava trabalhando como ator e aprendendo muito e conhecendo muito sobre o tema. Segundo meu ponto de vista, aquele era um grupo um pouco heterogêneo, então no ano seguinte se desfez e se formou um outro grupo, e assim foram duas temporadas. Depois de um break, retomamos as atividades em 92 e aí eu já estava dirigindo. Durante alguns anos tive uma sociedade como co-diretores, aí depois disso por uma série de  algumas divergências artísticas, sobretudo com respeito à estética de improvisação e à estética do Match também, cada um seguiu seu próprio caminho.
Aí já entro no que acredito em improvisação. Eu acredito que um espetáculo de improvisação parece algo óbvio, mas às vezes não é algo óbvio. A improvisação é o mais importante, nem os indivíduos nem os egos, eu acho que tem que deixar tudo isso de lado para fazer uma boa improvisação, colocar-se a serviço da improvisação. Então, um pouco essa foi a divergência. Eu ponho a improvisação em primeiro plano, priorizo fazer boas histórias e fazer uma boa improvisação em qualquer formato. Todo o restante pode ser algo que contribua para esta idéia principal, que ajude esta idéia principal a existir. Se o foco se transforma, vai para outro lado, a improvisação fica relegada, perde-se a essência.   A gente tem que apostar em fazer boas improvisações, boas histórias, isso sim deve ser o protagonista.
O que mais? Bem, depois continuei com a formação da LPI (Liga Profissional de Improvisação).  A partir daí comecei a desenvolver o Match, com os critérios dos criadores do show. Sempre com relação ao Match há amor e ódio entre os jogadores, improvisadores.  Eu tenho uma teoria de que o Match não transitou muito como formato, muitas vezes as regras são amenizadas um pouco para que os improvisadores se sintam melhor, então se transforma em algo menos exigente para o improvisador. Para improvisar, por exemplo, os clichês são permitidos, as provocações de riso, os árbitros não cobram muitas faltas. Ou seja, os árbitros assim como se fala no futebol (não sei como se fala aqui) mas lá na Argentina se diz que os árbitros “sacan los partidos”.  Muitas vezes se fala também que isso está a serviço do espetáculo, que as faltas não são cobradas a serviço do espetáculo. Mas eu acredito que no Match as faltas fazem parte do espetáculo e têm, o que é muito importante, um conceito pedagógico para o público. O público vai entendendo a mecânica do improviso através das faltas, através do gesto, do que o árbitro fala, através do que aconteceu na improvisação em relação a falta que o árbitro cobra. Então se isso é menos rigoroso, o público sabe menos da improvisação, se perde um pouco o critério pedagógico do Match.
Também há outro conceito dentro Match, que todo esporte tem, que é o conceito de justiça que, muitas vezes, também é deixado de lado. É, finalmente, não sei se você teve a oportunidade de ver algum torneio de Match?

Improvisando: A gente teve a oportunidade de brincar um pouco num torneio amador de Match como conclusão do curso extensivo do Allan Benatti

Ricardo Behrens: Ah, você experimentou um pouco de match? Ah, legal. Então, a competição existe, e em níveis internacionais existe muito, mas há um discurso dúbio: por um lado existe a competição de “ah, eu quero ganhar de qualquer jeito”, por outro, falam para o árbitro “ei, não cobra tanta falta!” porque o principal é isso do espetáculo. E, por outro lado também, as equipes querem ganhar e levar o troféu para casa, então se o árbitro não cobra falta, o critério de justiça perde um pouco o sentido. O jogo se transforma em um vale-tudo, eu falo que se transforma em Match-Catch. O Catch é sem regra, cada um faz o que quer: se quer bloquear o adversário, bloqueia, se quer fazer faltas técnicas, pode fazer, pois o formato permite. Mas o formato do Match se preocupa mais em fazer com que a técnica do improviso esteja presente no jogo, não permitindo fazer qualquer coisa para vencer. Eu participei em muitos torneios que os árbitros não cobravam nada, que as regras não importavam muito, inclusive que não contava com uma regra consensual entre todas as companhias, então isso se transforma em um terreno que ninguém sabe o que vai acontecer lá e assim começam a fazer qualquer coisa para ganhar. Então, é nesse sentido que eu considero complicada a coisa do árbitro não cobrar nada, para entre aspas “privilegiar o espetáculo”.  O árbitro tem que administrar o espetáculo, mas também tem que ser justo com as equipes. Eu arbitrei, por exemplo, uma partida em que um time, era um disputa de terceiro lugar, e o time quase não pôde falar na última improvisação, porque o outro time falava e depois falava um outro e falava outro e outro, então se aí o árbitro não cobrar falta, ele está sendo cúmplice dessa situação, e vai ser uma atuação injusta que leva ao terceiro lugar. Porque o público também muitas vezes vota, tem um outro critério de votação. Então, o árbitro é um pouco o termômetro, equilibra um pouco as coisas. Eu acho legal que o árbitro esteja presente e marque a linha para os jogadores.  Inclusive muitos profissionais na hora de competir e levar o troféu esquecem das regras éticas da improvisação. Todo mundo fala das regras, mas na hora do Match, de uma etapa decisiva, todo mundo esquece. Então, eu acho bom que o árbitro marque a linha.

Improvisando: Em termos gerais, depois de bastante tempo e experiência, o que você hoje entende por improvisação? O que significa para você hoje?

Ricardo Behrens: Hoje, improvisação, primeiro tem a ver com uma visão sobre a vida, eu acho, uma visão filosófica, que tem a ver com a técnica, de aceitação de propostas, de conexão positiva com as propostas, de avançar na história. Eu acho que esses são elementos que são aplicáveis em muitos âmbitos da vida, então vira algo filosófico, eu acho. Também comprovo isso com meus alunos na Argentina, vejo como eles começam o ano e como terminam o ano e sua evolução como jogadores e como pessoas também… Então, mudam muitas, muitas coisas. Muitos são jovens, de 18, 19 ,20 anos, então também vejo como esse crescimento da idade é acompanhado também com a técnica e também com o próprio desenvolvimento. Então, em primeiro lugar eu acho que tem uma ligação direta com a vida, sem que seja uma religião, não? (risos). Mas eu acho muito, muito ligado.
Também em meu trabalho em empresas, eu posso ver como as pessoas gostam de incorporar isso a diversas atividades.
Depois, por outro lado, vejo o que é o espetáculo, o que é a improvisação como espetáculo, que eu acho que já a esta altura deve ser considerado como um gênero, que em quase todos os países da América Latina e América Ibérica ainda estão lutando por um lugar. Felizmente em vários países estão surgindo programas de televisão, isso ajuda a legitimar o gênero, como se populariza, então, todo mundo fica sabendo do que se trata, ainda que não conheça, digamos, as sutilezas do gênero, coisas que são menos populares. Mas eu acho que é bom porque ajuda com que todo mundo saiba do que se trata quando se fala de improvisação.
Então, vejo esta outra possibilidade, que é a possibilidade de espetáculo, da arte em si mesma. E, depois o interior disso tudo, isso que conhecemos somente nós, os improvisadores.
Os diferentes formatos. Eu estou há vários anos pesquisando muito o que é o  Long form, já há vários espetáculos de Long Form na Argentina e vários que já percorreram vários países, como por exemplo, “Improluchas”, como “El Círculo”, um espetáculo que eu dirigi na Argentina. Com “ El Círculo” estivemos no último Festival Iberoamericano, depois estivemos aqui, no Brasil. Com “Improluchas” estivemos na Espanha, em 2005. ” Improluchas” tem um formato que não é um catch, porque é um long form, mas são personagens que estão vestidos com seus figurinos, que têm sua personalidade, sua forma de pensar e, além disso, são quatro personagens e um árbitro, que também é um personagem, e eles mantêm os personagens durante todo o espetáculo, com seu figurino e com seu comportamento, e aí é construída toda uma história com uma hora de duração, depois no final um público vota em um ganhador. Este formato eu fiz em 2004, em 2005 estivemos com ele em Madrid. Bem, long form é um gênero, dentro do gênero, digamos que é algo que é menos popular, mas que é muito interessante para nós, improvisadores, porque nos sentimos com outro tempo, com outra relação, com outra profundidade na construção do personagem,  com outra possibilidade de aprofundar a relação com os outros personagens, muito mais teatral para os atores de formação que nos sentimos mais dentro de um espetáculo de teatro. A improvisação em geral tem essa coisa de rapidez e de velocidade, que às vezes complica e se transforma em algo superficial, tem que ter cuidado para não se transformar em algo superficial, mas para isso existem os diferentes formatos.

Improvisando: Dentro disso que você está me falando, te agrada mais hoje em dia os longforms? Pergunto isso porque você vem de uma formação de Match …

Ricardo Behrens: Eu gosto muito porque como ator me permite colocar para fora mais o ator e menos o improvisador, o improvisador rápido, a rapidez mental, vai por outro caminho, por uma coisa mais literal, mais comprometida nesse sentido também…  A minha pesquisa vai muito a partir de Harold, a partir do livro Truth in Comedy, de (Charna) Halpern, que fala muito de Harold, da maneira como o usam nos Estados Unidos. Os formatos que fiz partem disso, mas depois já vou para outro lado, para a dramaturgia fragmentada, a união de várias histórias, que tem um pouco de Harold. Mas o Harold tem mais monólogo, canções, segue por seus códigos. Acredito que todos os long form têm algo de Harold, é parte do que todos usamos.

Improvisando: A improvisação como técnica tem vários princípios em que se baseia. Pensando inclusive na possibilidade de um público mais leigo, para que conheçam melhor os fundamentos desse gênero, tenho perguntado para cada improvisador o que ele acredita que é fundamental na improvisação. Quais conceitos são os fundamentais na sua visão?

Ricardo Behrens: O fundamental que todos nós improvisadores conhecemos é a aceitação de uma proposta, a construção de uma história coletiva, a construção a partir da aceitação, a adaptação a partir da proposta do outro. Isto significa pegar a proposta do outro de uma maneira positiva, como se fosse própria, defendê-la como se fosse própria e adicionar-lhe coisas como se fosse própria. O trabalho em equipe, o trabalho coletivo passa a ser fundamental. Acredito que se torna fundamental também afastar-se do ego também: se a pessoa aceita proposta do outro como se fosse sua própria, aí a pessoa já está se afastando do ego, é a construção.
Que outro princípio básico? Acho que é isso aí basicamente, a idéia de que não há erro, isso de que todo erro pode ser ressignificado e ser aproveitado para algo, acho que é basicamente isso.

Improvisando: Sei que você é um dos precursores da improvisação na América Latina, mas algum improvisador ou companhia de improvisação te influenciou? Quem hoje você acredita que faz um trabalho parecido com o que você gosta?

Ricardo Behrens: Olha, eu sou muito velinho (risos), fui um dos primeiros improvisadores…

Improvisando: Sim, certamente você é um pioneiro…  Então, quem hoje faz um trabalho de que você gosta…

Ricardo Behrens: Sim, então muitos dos improvisadores que agora estão fazendo coisas foram alunos meus, então… Claro que há gente que eu gosto como trabalha, como o Oski Guzmán na Argentina, ele trabalhou comigo, fomos colegas já. Bem, vejamos de cada país, que eu acho que são mais. No Chile, está o “Panqueque” (do Colectivo Teatral Mamut e do los Improvisadores), também Claudio Espinosa (do LosPleimovil). Bem no Brasil, Márcio BallasCésar (Gouvêa) (do  É Tudo Improviso e do Jogando no Quintal). Agora tenho mais contato com Barbixas, que é muito bom, com códigos muito interessantes, uma busca muito interessante, com um entendimento muito forte entre eles, o que é importante para o grupo. Vejamos, que outro país? Colômbia, Gustavo Miranda (do Accion Impro) e há também o grupo La Gata. Na Espanha, em Madrid tem o Jorge Rueda (do Impromadrid) e também tem o pessoal do Jamming, o pessoal de Por Casualidad. No Uruguai há o pessoal da LPI Uruguai, que também está fazendo algumas coisas. No Peru há o Pataclaun e o Ketó. No Equador um grupo está fazendo match com Hugo Espinoza e também tem Raquel Rodriguez. No México também tem a LIMI, Liga de Mexicana de Improvisação (de Juan Carlos Vives e Ricardo Esquerra) . Acho que tem muitos grupos e novos grupos que estão em formação e que também prometem muito… E é bom que haja jovens que estejam aí montando seus grupos. Um pouco nossa escola na Argentina promove isso, promove que depois de dois anos conosco, os alunos se juntem e formem seus grupos, façam suas apresentações, se deparem com a coisa da produção e de ver o que acontece. Acho interessante essa ideia, que haja muita gente fazendo improviso e vai surgir, como em todos os gêneros, coisas que são excelentes, coisas que são mais ou menos, e coisas ruins. Mas isso acontece também no teatro e em qualquer arte e, então, falamos de um gênero que está em movimento e que está vivo.

Improvisando: Falando no movimento da improvisação… Você estava falando um pouco da TV, da importância da televisão para a improvisação na América Latina. Vários países começaram a ter um espaço de televisão. Qual a dificuldade de transferir um espetáculo, e essa linguagem do espetáculo de teatro, para a televisão? Onde está esta dificuldade e de que forma a improvisação na televisão pode ser boa ou não para o desenvolvimento do gênero?

Ricardo Behrens: A maior dificuldade, eu acredito, pelo que estou vendo, é comunicar ao pessoal de televisão do que se trata, ou seja, a comunicação. Porque o pessoal de televisão está acostumado a outra coisa, então não entende qual é o jogo. Porque a televisão, pelo menos na Argentina, tem bastante improvisação, mas improvisação ruim, ou seja improvisação de coisas feitas assim de qualquer jeito, então não entendem como a improvisação pode ser uma arte. Porque eles estão improvisando todo o tempo, mas de uma maneira horrível. Então aí está a dificuldade: como comunicar que a improvisação é algo em si mesmo? Como explicar a questão da construção da história, dos jogos? Como fazer com que tanto o diretor como a produção e o canal entendam do que se trata? Ao conseguir isso, então, na minha opinião, as coisas começam a ficar mais fáceis. Acho muito interessante o que está acontecendo agora, porque acho que estão encontrando aí a chave da comunicação. Não sei se eu cheguei num momento já avançado da coisa, não sei como foi a princípio, mas evidentemente há um entendimento aí. Isso gera algo muito interessante que tem a ver quase com o teatro. É gerado um clima teatral e isso eu acho fundamental. O fato de o público estar ali ao vivo é gerado o clima teatral… Participando do programa de improviso pude ver que não está tão distante de uma apresentação de teatro. Entretanto, depois é preciso ver também o que acontece com o improvisador na televisão. Eu na Argentina trabalhei em vários programas de televisão e entrei em contato com a câmera e essas coisas. Mas, claro, às vezes os códigos do teatro não são os códigos da TV. É preciso ver como fazer para transferi-los para a televisão e que fiquem bons.

Improvisando: Como o grande propagador do Match na América Latina gostaria que você falasse um pouco sobre esse trabalho. Como se difundiu e surgiram vários grupos? Até me lembrei de mais um grupo de que você não falou, que é o do Match de Improvisação na Venezuela. Como tem se dado essa integração entre os grupos de Match? Como é gerenciado?

Ricardo Behrens: Não, na verdade, nós começamos com uma idéia de difusão de Match a partir da LPI para que o Match chegasse a outros lugares, porque muitas vezes havia entraves, não sabiam como era a questão legal para fazer isso, então a partir do registro autoral que temos na Argentina, posso passar por este registro e isso facilitar as coisas, somente por isso. O que vejo na América Latina é que não há muitos grupos que sustentem o Match como um espetáculo. Na América Latina não tem. Na França e nos países de língua francesa (na Bélgica, Suíça, Canadá) há ligas que funcionam. Mas na América Latina o que acontece é que a dificuldade de fazer teatro leva a reduzir os grupos, a ter grupos menores. Porque é mais fácil de administrar e de divulgar. Então, é difícil sustentar o Match porque demanda uma estrutura maior. Bem, o trabalho que eu fiz foi o de formação na Argentina, depois dei aula no Chile, comecei o primeiro grupo de improvisação no Chile que é o Lospleimovil. Depois também dei aulas na Colômbia, eles também tinham uma experiência prévia com Gigio Giraldo, tanto o pessoal do Acción Impro como o do La Gata. Então depois fui dar aulas no Teatro Nacional, e se formou a partir dessas aulas o primeiro Campeonato Nacional na Colômbia, depois foi realizado no Primeiro Iberoamericano que foi em 2004, aí participamos como companhia. No Equador também, fui o primeiro a dar cursos e foi a primeira experiência com improvisação no Equador. Também dei aulas no Peru para dois grupos já vinham trabalhando, a princípio juntos e naquele momento estavam trabalhando separados, que são o Ketó e o Pataclaun, eu dei aulas na escola do Ketó. Bem, aqui no Brasil, eu tive a primeira experiência no ano de 2001, em Marília e Bauru, dei aulas lá, e nessa época não havia nada de improvisação. Depois em 2005, estive trabalhando com Jogando no Quintal que foi um dos primeiros grupos junto com o Teatro do Nada (de Claudio Amado) do Rio. Bem no México trabalhei dando aulas durante três meses viajando por todo o país, lá trabalhei para empresas e com workshop para particulares também. Enfim, circulei em vários países, deixando a sementinha para que continuem o movimento.

Improvisando: Queria aproveitar então esse comentário que você estava falando anteriormente sobre os movimentos da Improvisação na França, para fazer uma colocação de um improvisador (Ian Parizot)  de um grupo francês (Eux – Compagnie d’ Improvisation). Ele comentou algo curioso a respeito do Catch, que é a essência da improvisação francesa, porque o catch foi fundado lá. E ele acha que houve um prejuízo na formação dos improvisadores franceses como contadores de estórias, com a questão do jogo. E ele tinha essa dúvida com relação aos grupos da América Latina porque ele conhece pouco a improvisação na América Latina. E como o Match é uma coisa bem difundida na América Latina, os festivais latino americanos tem normalmente os campeonatos de Match (recentemente está havendo mais espetáculos de longform) ele teve essa impressão de que talvez a América Latina também tivesse prejuízo na formação dos improvisadores que constroem mais estórias por causa da questão do jogo, do tiro… Entretanto, eu talvez acha que houve uma certa confusão entre formato de jogo e formato de match…

Ricardo Behrens: Ele diz que constroem mais estória ou que não constroem?

Improvisando: A questão dele estava relacionada ao fato de que nos formatos desportivos se constrói menos estórias e que ele acha que o formato de Match como o carro chefe da improvisação latino americana, talvez trouxesse a mesma problemática que ele vê na França, de haver bons jogadores de tiro, mas não muito bons improvisadores contadores de estórias…

Ricardo Behrens: Ah, de jogos… Mas uma coisa é o formato de jogos e outra é o formato de Match. O Match justamente é voltado para a estória. Ou seja, totalmente. Os formatos de jogos não, os formatos de jogos podem ir para outros lados, em que não se constroem histórias e está tudo bem. O Match (e por isso eu acho que é bom como começo, como uma escola de improviso fazer o Match) obriga o jogador a construir uma estória, mesmo livre, sem gênero, totalmente livre e aí vemos realmente a improvisação pura porque não há nenhuma sinalização para a plateia, por exemplo, vamos fazer uma estória de telenovela. No Match você tem a improvisação livre, a improvisação sem gênero, sem pauta de jogo, sem nada, há liberdade total. Então, eu acho que é bom para a formação do improvisador porque adquire a técnica pura, depois a partir daí pode passar para o long form, pode ir a jogos, pode ir aonde quiser.

Improvisando: Então, por fim, respondendo à pergunta do Ian: você acha que houve essa interferência? A base de difusão da Improvisação na América Latina com o Match, acabou gerando mais jogadores, que fazem mais tiro do que improvisadores?

Ricardo Behrens: Não, não acho não. Acho que tem jogadores, em geral tem jogadores contadores de estória. Todos os grupos que citei aqui, são todos grupos que contam histórias, então não acho isso. E o Match justamente, mais uma vez, não é um formato de jogos…

Improvisando: Acho que há aí uma confusão entre o Match ser realizado em formato de torneio, com disputa de jogos. Na verdade ele incentiva a criação de história…

Ricardo Behrens: Incentiva, certo?

Improvisando: Sim acho que é o que eu entendi. Na verdade, na pequena convivência que tive com a base teórica do Match, também tive essa compreensão. Que os jogos no Match exigem muito a capacidade de contar uma boa estória…

Ricardo Behrens: E eu volto à questão do árbitro também. Quando o árbitro vê que não é construída uma estória, ele cobra uma falta, ele cobra a conclusão, se a improvisação é conjunta, se o jogo é demorado, se não se define, se não se avança na história, então…promove a estória.

Improvisando: Por fim, a última coisa que eu gostaria de conversar é sobre o futuro da improvisação. Porque eu acho que está tendo uma difusão maior, está tendo mais intercâmbio, inclusive com os Festivais e os Campeonatos de Match. Então daqui pra frente o que você acha que vai acontecer com a Improvisação? Você estava falando que a improvisação está tendendo a ser um gênero na América Latina…

Ricardo Behrens: Eu acho muito o bom o futuro, mas também acho que os grupos têm que pesquisar, têm que ir além do conhecido e testar, experimentar e arriscar. Aí nesse sentido está também o crescimento do gênero. Se ficamos fazendo as mesmas coisas que funcionam porque o público vai, eu acho que pode ficar medíocre. Tem que pensar em avançar na pesquisa.

Seguem alguns vídeos de Ricardo Behrens. Em entrevista ao  Canal 7 da Argentina, durante o Mundial de Match em Buenos Aires,  no programa É Tudo Improviso e no Improvável com os Barbixas.

Já começou o segundo Match de Improvisação do Festival IberoAmericano de Bogotá. Ele ocorrerá todos os dias, às 21h até o dia 4 de abril na Zona Verde CUR, Coliseo Cubierto Polideportivo do Compensar Ciudad Teatro.

O match de improvisação é um formato de jogos de improvisação criado por Robert Gravel e Yvon Leduc no Canadá, baseando suas técnicas nas investigações do mestre Keith Johnstone. Após várias experiências com improvisação entre um grupo de atores do Teatro Experimental de Montreal, surge a idéia de uma peça teatral que, como um esporte, fosse único e irreproduzível em cada representação. Em 1977 então se cria um espetáculo desportivo-teatral baseado no Hockey de gelo que com regras apropriadas e dentro de um marco adequado, cria um estado de competição. A LPI (Liga Profissional de Improvisação) de Ricardo Behrens, foi responsável pela popularização no gênero entre os españo hablantes.

O jogo se estabelece entre 2 equipes, em suas regras oficiais composta de 3 jogadores e 3 jogadoras e um técnico. Um árbitro e dois auxiliares cuidam para que o jogo transcorra dentro das normas. Cada partida tem duração de 90 minutos (3 tempos de 30 minutos, com intervalos de 1o minutos entre cada um dos tempos). Cada jogo de improvisação proposto pelo juiz deve delimitar o tema proposto para a improvisação, sendo essas:

1)Natureza da Improvisação:

Comparada: cada equipe joga o mesmo tema separadamente.

Mista: jogadores de ambos os times participaram do tema proposto.

2) Título da Improvisação

3) Número de jogadores

4) Duração da Improvisação

5) Estilo

Existem diversas normas a serem cumpridas e faltas são apitadas quando infringidas tais regras. A contagem de pontos se baseia no voto popular e pontos são perdidos à contagem das infrações cometidas por cada equipe.

As equipes que competirão nessa edição do Festival IberoAmericano de Bogotá 2010 são:

Colectivo Teatral Mamut (Chile)

Colectivo Teatral Mamut foi formado no ano de 2004 por Sérgio Domínguez, Juanita Urrejola, Nicolás Belmar, Mónica Moya e Mario Escobar. Francisco “Foco” Cerda acompanha com sua música desde sempre. Desde sua fundação até hoje, Mamut investiga profundamente a Improvisação como um espetáculo em si mesmo, e como ferramenta libertadora de espontaneidade e criatividade nas pessoas. Ao mesmo tempo, investiga os estilos teatrais como a Mimica, Clown e a Comedia del Arte.  Equipe de grande tradição na Improvisação Teatral Chilena, ano passado foi um dos anfitriões do Improfestin. Parte de sua equipe esse ano ganhou destaque pela participação do primeiro formato televisivo de improvisação teatral no Chile, no programa Los Improvisadores do canal Viax.

Complot/Escena (México)

Complot/ Escena é uma companhia de teatro multidisciplinar e independente. Ao longo de sua trajetória, desde sua fundação no ano de 2000, tem desenvolvido seu trabalho cênico profissional em dois principais tipos: improvisação e teatro de texto. A companhia em sua maioria é formada por artistas egressos do Colégio de Literatura Dramatica e Teatro de UNAM, e seus espetáculos tem como intenção não somente divertir, mas ter também uma boa dose de crítica social através do seu discurso.  Conta hoje com 7 diferentes espetáculos de impro estrelados, e o Improlucha é um dos trabalhos mais difundidos.

Improcrash! (Argentina)

Companhia argentina de improvisação. Seus atores tem formações variadas, participaram de diversos festivais de improvisação teatral. Tem trabalhado diversos formatos de improvisação e criou, em seu espetáculo, um novo conceito que envolve novas tecnologias sonoras e visuais.

Acción Impro (Colômbia)


Acción Impro nasceu há 10 anos quando Adriana Ospina, Catalina Hincapié, David Sanín, Gustavo Miranda e Ricardo España decidiram fazer um workshop de improvisação em suas carreiras de teatro na Universidade Antioquia. A partir daí começaram a investigar a técnica de impro, nova no país e criar espetáculos próprios para apresentar em diferentes teatros e bares da cidade. Hoje Acción Impro tem seu próprio teatro no Parque del Poblado, onde todas às quintas e sábados apresentam algum dos seus 7 espetáculos improvisados e seu novo trabalho La Escala Humana (não improvisado).

Abaixo um vídeo de uma das duplas de Catch que competiu no FESTIM 10 em Madrid no mês passado.

La Gata Impro (Colômbia)

Tradicional companhia de Improvisação Teatral, fundada em 1995 na Colômbia, foi a primeira daquele país. Trabalha com vários formatos de improvisação teatral desportiva e não desportiva e participou de diversos festivais de improvisação teatral em todo o mundo.

Jogand0 no Quintal (Brasil)


Uma das primeiras companhias de improvisação do Brasil, o Jogando no Quintal caminha para seu oitavo ano e é espelho para a nova safra de improvisadores brasileiros. O espetáculo que dá nome à companhia, é um jogo de improvisação de clowns . Hoje a equipe trabalha ainda com mais dois espetáculos de improvisação não desportivos, o Caleidoscópio e o Mágico de Nós. Já se apresentaram em diversos festivais internacionais, sagrando-se campeão da última edição do campeonato de Match do Festival IberoAmericano de Bogotá em 2008.

Os jogos serão:

Dia 29 de março Brasil (Jogando no Quintal) X Chile (Colectivo Teatral Mamut).

Dia 30 de março México (Complot/ Escena) X Colômbia (Acción Impro).

Dia 31 de março México (Complot/ Escena) X Argentina (Improcrash!).

Dia 1 de abril Brasil (Jogando no Quintal) X Colômbia (La Gata Impro).

Dia 2 de abril Colômbia (Acción Impro) X Chile (Colectivo Teatral Mamut).

Dia 3 de abril Argentina (Improcrash!) X Colômbia (La Gata Impro).

Dia 4 de abril FINAL.

Fica a nossa torcida para os mestres do Jogando no Quintal, que no Match de Improvisação do Festival IberoAmericano de Bogotá são o Brasil.