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Último dia do Festival Internacional Los Improvisadores, no Teatro Oriente, em Santiago. E  cheio. Com 4 eventos no mesmo dia.

Meio dia, começamos com a Charla (bate papo). O convidado foi Rodrigo Malbrán Contre, diretor e fundador da Escuela Internacional del Gesto y la Imagen LA MANCHA.

Malbrán utilizou o espaço para fazer uma mostra de uma hora e meia, dos diversos estágios que passam os alunos durante os dois anos de formação da sua escola, que tem como base a metodologia de Lecoq. Seus graduandos mostraram cenas de utilização de máscara neutra, clown, commedia dell’ arte e por fim o que ele chama de Os Vinte Movimentos.

O trabalho dos alunos é preciso e rigoroso, a construção de cenas primorosa. O trabalho de Malbrán, que muito influenciou a formação dos improvisadores do Colectivo Teatral Mamut, nessa charla, mais do que didático foi umas das melhores possibilidades de entreterimento desse festival.

Seguiu-se às 16 horas a segunda apresentação do espetáculo Teatruras, do Impromadrid da Espanha.

Ignacio Lopez, Ignacio Soriano, Jorge Rueda e o músico Nacho Mastretta novamente fizeram um espetáculo primoroso na construção de estórias, leve, descontraido, ainda mais agradável com a participação das crianças da plateia. Mais sobre Teatruras no post anterior.

O espetáculo com maior sucesso de público do festival, seguiu-se a noite com Súper Escena, do Colectivo Teatral Mamut.

Com Monica Moya, Nico Belmar e Sergio Panqueque Molina, o Colectivo Teatral Mamut mostra a seu público chileno, um espetáculo de improvisação inspirado no cinema.

São propostas três cenas, em três estilos cinematográficos distintos. Os temas são sugeridos pela plateia. Cada uma dessas cenas se inicia e pára num ponto, na qual somente duas delas são eleitas para terem uma continuação. Depois de mais um pouco de desenvolvimento de cada uma das duas estórias, mais uma delas é eliminada, conhecendo o público somente um dos finais.

Espetáculo muito leve, divertido, bem ambientalizado tanto pela luz como pelo seu músico Francisco “Foco”. Os atores têm uma atuação muito forte pela caracterização de seus personagens e pelo seu carisma com o público. Um espetáculo belíssimo.

Fechou-se o festival com uma enorme festa. Teatro de Gorilas. Cada um dos músicos de suas companhias (Francisco “Foco” Cerda-Mamut, Cristiano Meirelles-Jogando no Quintal, Leonardo Prieto-Complot Escena, Nacho Mastretta-Impromadrid e Sebastian Rodrigues-La Gata Impro) e a banda do Teatro de Gorilas, fizeram a trilha sonora e os efeitos sonoros do espetáculo.

Foram 6 os diretores convidados: Ignacio Soriano (do Impromadrid da Espanha), Rodrigo Bello (do Improcrash da Argentina), Carlos Alberto Urrea Lasprilla (do La Gata Impro da Colômbia), Sergio Panqueque Molina (do Colectivo Teatral Mamut do Chile), Marcio Ballas (do Jogando no Quintal do Brasil) e Frank Totino (do Loose Moose do Canadá).

Os jogadores convidados foram:

– Florian Toperngpong e Nadine Antler da Alemanha.

– Charo Lopes, Luciano Barreda, Luciano Cohen, Marcelo Savignone, Omar Argentino Galván e Pau Farias da Argentina.

– Mateus Bianchim do Brasil.

-Monica Moya e Nico Belmar do Chile.

– Daniel Orrantia, Felipe Ortiz, Juan Gabriel Turbay e Mabel Moreno da Colômbia.

-Jorge Rueda da Espanha.

-José Luis Saldaña, Juan Carlos Medellín e Omar Medina do México.

A oportunidade de ver cenas propostas por aqueles que certamente estavam entre os maiores nomes da improvisação mundial, tornaram esse último espetáculo uma torre de babel de atuações, propostas, divertimento em cena e aprendizagem. Destaco, sem querer absolutamente desmerecer ninguém, o encontro antológico de parte do Sucesos Argentinos (Marcelo Savignone e Omar Argentino) que foi das grandes inspirações da improvisação latino americana com a nova geração de talentosos improvisadores argentinos (Improcrash) em cena nesse espetáculo. Memorável e emocionante.

Ao fim do espetáculo, todas as companhias foram merecidamente chamadas ao palco para serem homenageadas e a noite se seguiu com uma grande festa reunindo público, banda e atores num dos eventos mais fantásticos e audaciosos que a Improvisação mundial já assistiu.

Meus parabéns e muito obrigada a todos os amigos chilenos, a produção (meu especial a Andreia e a Loreto), equipe técnica do teatro, aos queridos amigos Monica, Nico, Panqueque e Francisco “Foco” Cerda do Colectivo Teatral Mamut pela hospitalidade, generosidade e iniciativa tão incrível de reunir as grandes companhias e pensadores da Improvisação Mundial da atualidade.

Meus parabéns  e muitíssimo obrigada também a todos os amigos e mestres Frank Totino, Angélica Rogel, José Luis Saldaña, Juan Carlos Medellín, Leonardo Prieto, Omar Medina, Carlos Alberto Urrea Asprilla, Daniel Orrantia, Felipe Ortiz, Juan Gabriel Turbay, Mabel Moreno, Sebastian Rodrigues, Allan Benatti, Cristiano Meirelles, Ernani Sanchez, Marcio Ballas, Marco Gonçalves, Rhena de Faria, Guilherme Tomé, Mario Escobar Olea, Mateus Bianchim, Charo Lopes, Luciano Barreda, Rodrigo Bello, Luciano Cohen, Marcelo Savignone, Omar Argentino GalvánFlorian Toperngpong, Nadine Antler, Ignacio Lopez, Ignacio Soriano e Jorge Rueda, Nacho Mastretta, Suso33. Vocês tornaram essa semana uma grande festa da improvisação mundial, pelas suas capacidades de viver verdadeiramente os conceitos da improvisação por estarem sempre presentes e afirmarem honesta e generosamente a amizade, aumentando e engrandecendo essa enorme corrente da Impro mundial.

Não devo esquecer dos amigos Adonis Camelato (do Olaria GB) e Rafael Protzner (do UMA Companhia) que compartilharam comigo diversão e aprendizagem.

Vimos atuações surpreendentes e impactantes como X- ha Muerto do Complot Escena e  propostas inovadoras como Corten do Impromadrid, que ao final, destacaram-se nesse festival. Mas nos entusiasmamos com o ritmo jovem, talentoso e coeso do Links do Improcrash. Admiramos a habilidade corporal dos colombianos no TellAraña do La Gata Impro. Nos emocionamos com as atuações solo impressionantes dos genios argentinos Omar Argentino Galván e Marcelo Savignone. Chilenos entusiasmados aplaudiram de pé por quase cinco minutos ao final do espetáculo dos nossos mestres brasileiros do Jogando no Quintal com o Caleidoscópio. Casa quase totalmente cheia de espectadores-fãs que ensurdeceram o Teatro Oriente para ver o espetáculo leve, descontraído e conciso com Colectivo Mamut com o Súper Escena.

Mas por fim, o que se destaca são as possibilidades de intercâmbio de conhecimento, discussões, propostas distintas, novas idéias de concepção, formatos, exercícios, teorias,  que foram pipocando aqui e ali entre uma taça de Sauvignon Blanc, uma cerveja Guayacan, um ceviche, uma salada de palta, um sorvete de lucuman, um poema de Pablo Neruda ou uma simples pausa para curtir o sol brando e o vento fresco. A tão inspiradora cidade de Santiago, se tornou cenário para o desenvolvimento dessas idéias que certamente plantaram a semente que desenvolverá, nesse solo fértil de tantos talentos humildemente ainda ávidos por ainda mais conhecimento e exercício da arte, a revolução proposta por essa grande escola e filosofia de vida que é a Improvisação Teatral.

Que esse post seja, mais que uma mera descrição do que foi esse festival, meus sinceros sentimentos a respeito dos oito dias mais emocionantes e edificantes que vivi desde que decidi me aventurar pelo curioso e instigante mundo da Impro.

Muito obrigada improvisadores de todo o mundo.

Tive a felicidade de conhecer Débora Vieira há poucos dias.  Vi pessoalmente, a mesma atriz que imaginava tão apaixonada pelas artes, em particular pela Improvisação Teatral. E é com essa mesma paixão, que ela relata aqui suas impressões sobre esse mundo da Improvisação Teatral e a luta para erguer seu espetáculo Dos Gardenias.

1)      Gostaria que vc começasse resumindo os trabalhos com os quais vc está envolvida hoje.

Eu faço parte da UMA Companhia, de Belo Horizonte, de cuja formação fiz parte. Trabalhamos com improvisação desde 2006, e temos 3 espetáculos em repertório, o Match de Improvisação, no qual eu atuo como jogadora e como juíza, e o Sobre Nós, do qual eu não faço parte, porque, quando da montagem, eu estava montando um outro trabalho de teatro, o espetáculo Cortiços, junto à Companhia de Teatro Luna Lunera, de Belo Horizonte. E, também, nosso último trabalho, que acabou de estrear, o Dos Gardenias Social Club (clipping), trabalho de minha concepção e direção, e no qual também atuo.

Além disso, também ajudo a coordenar as atividades da UMA Escola de Impro, aqui em Belo Horizonte. Oferecemos cursos regulares para pessoas com e sem experiência em teatro, e realizamos, com os alunos, aulas abertas e o espetáculo Mister Impro, na conclusão do semestre.

Minha dissertação de mestrado, em desenvolvimento no Poslit da UFMG, também é sobre improvisação. Eu estudo a dramaturgia da improvisação, propondo um estudo comparativo entre a comédia dell’arte e os espetáculos improvisados na atualidade, mais especificamente o Humor Mierda, do grupo mexicano Complot Escena, e também o Caleidoscópio, do Jogando no Quintal.

2) O que é Improvisação Teatral? Quais são os princípios em que se embasa?
Acho que a improvisação é um banquete composto de comida para todos os gostos… e eu ainda estou desfrutando a entrada. Há todo um mundo a ser descoberto no campo da impro, mas o que mais me instiga é a certeza de que, mesmo quando já estivermos saboreando a sobremesa, isso deve ser feito com os mesmos princípios do começo: a tranqüilidade, a generosidade com o que se experimenta e também com aqueles que compartilham da mesma mesa, a capacidade de degustar cada pedaço de cada prato. Vendo os grupos mais experientes, que muito me inspiram, percebo que toda a perícia e virtuose deles só é possível porque eles se aprofundaram nas premissas básicas da impro: a cumplicidade com o companheiro de cena, a sinceridade consigo mesmo e a disposição para desfrutar do trabalho que se realiza. A partir disso, o que mudam são os desejos artísticos de cada grupo, de cada artista, e é o que vai dar o tom de cada trabalho…


3) Como surgiu a Improvisação na sua carreira?

Surgiu em 2006, sem eu ter necessariamente escolhido isso. A Mariana Muniz, que há pouco havia voltado da Espanha, onde trabalhou durante anos com o Impromadrid, postulou uma vaga para dirigir a montagem do curso profissionalizante de teatro que eu fazia, no Centro de Formação Artística (CEFAR), do Palácio das Artes. Ela nos apresentou a linguagem, o treinamento, e dirigiu o Match de Improvisação. No meu caso, foi uma experiência cheia de altos e baixos, já que eu de cara me defrontei com muitos bloqueios. Mas eu resolvi agarrar o boi pelo chifre, já que tem muitas coisas que me atraem na impro. A impro vicia, não? A sensação de que se pode tudo (ainda que saibamos que não é bem assim…), de que se pode celebrar um encontro a cada cena… Isso é mágico!
Considero, também, que em 2009 a impro surgiu na minha vida por uma segunda vez, quando eu fiz uma oficina com o canadense Shawn Kinley. Na época eu morava no Chile, estudava a impro junto ao Colectivo Mamut, e acho que o encontro com o Shawn mudou todas as minhas perspectivas a respeito dessa linguagem.

4) Recentemente Allan Benatti comentava comigo a dúvida que tinha com relação à escassez de mulheres no Improviso. A que você acha que se deve essa constatação? Quais as contribuições diferentes que a mulher pode trazer para a Impro?

Bom, é uma pergunta curiosa, porque no começo do nosso grupo, éramos 10 atores, dos quais 7 eram mulheres. Quando participamos do nosso primeiro festival internacional, a convite do Jogando no Quintal, vários grupos comentavam o quão feminino era o nosso grupo! No Fimpro, que realizamos em 2008, e depois no Improfestin (Chile), tive contato com inúmeros outros grupos, e pude perceber que, de fato, a impro ainda é uma linguagem predominantemente masculina, e eu penso muito sobre isso. A questão de gênero é algo que me toca profundamente, tenho inclusive uma simpatia muito forte por algumas pensadores e artistas que atuam no campo do feminismo. E, nesse sentido, me coloco sempre a pergunta sobre qual seria uma expressão feminina na impro. Às vezes eu acho que, puxa, temos toda uma história do teatro construída por homens… os diretores, dramaturgos, encenadores, atores… Daí me questiono até que ponto a inserção das mulheres na produção cênica não se fez, também, por uma via masculina. Como se nós tivéssemos entrado para um jogo com as regras já mais ou menos estabelecidas, e não nos restasse muito a não ser seguir essas regras. Claro que falando assim a coisa parece muito rígida, e eu sei que os processos, sobretudo os artísticos, são mais dinâmicos…

Mas nesse campo entra a impro… a maioria imensa das cenas que eu assisto e que tratam, por exemplo, dos padrões de comportamento sexual, o fazem sob uma ótica masculina. E, quando há uma inversão, sinto que trata-se simplesmente de uma inversão que tem como ponto de partida o discurso anterior, ou seja, é uma inversão apenas caricatural, ilustrativa.

E isso me inquieta muito… No primeiro semestre de 2010, inclusive, comecei a desenvolver um trabalho de investigação nesse sentido, aqui em Belo Horizonte, com várias meninas interessadas no tema… 4 atrizes improvisadoras, dentre as quais 2 são palhaças, e uma bailarina. Os encontros foram poucos (a famosa agenda…), mas a vontade de ver qual é ainda é muita.
5) Quem são os improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?
Todos os meninos da UMA Companhia, por seguirmos juntos apesar da falta de recursos; o Assis Vidigal, parceiro na UMA, pela inteligência e generosidade; a Angélica Rogel, do Complot Escena, pela delicadeza forte, pela inteligência dramatúrgica; O Marcio Ballas, do Jogando, e o Panqueque, do Colectivo Mamut, pela eterna capacidade de me surpreender e me fazer sorrir; o Gustavo Miranda, do Acción Impro, pela versatilidade; o Marcelo Savignone, pela inteligência e pela técnica e, finalmente, o Shawn Kinley, mestre em todos os sentidos!
6) Quais companhias no mundo você acredita que hoje fazem os trabalhos mais incríveis?
Atualmente eu ando muito encantada com o trabalho do grupo Complot Escena. Acho que eles têm um domínio técnico incrível, e utilizam essa potencialidade sem abrir mão da diversão e da subversão da própria técnica. Poderia também citar grupos como Loose Moose e Second City, mas acho que prefiro escolher uma inspiração mais acessível, rs.
7) O que mais tem te trazido interesse na Improvisação hoje? Jogos de Improvisação ou Espetáculos mais LongForm?

Long Form. Os espetáculos de jogo – que ainda são a maioria nos repertórios dos grupos da América Latina – me cansaram um pouco, fico com a sensação de que é quase tudo muito igual. Acho que há muitos grupos acomodados com a grande receptividade do público para com essa modalidade. Eu até acho positivo, gosto muito do trabalho de diversos grupos, continuo achando um fenômeno muito significativo para o teatro. Mas no meu caso, já estou a fim de investigar outros matizes da impro…

8) Pra onde vai a Impro? (o futuro)

Acho que ela já está num caminho muito bacana… vejo muita gente se apropriando da técnica e fazendo dela um ponto de partida para investigações de outra ordem, e eu acho que é isso que vai manter essa linguagem viva e sempre interessante!

9) Quais são as dificuldades executivas de um grupo no mercado da  Improvisação? Como a UMA Companhia tem conseguido se estabelecer nesse mercado? Quais são as perspectivas e projetos do seu grupo?

No caso de Belo Horizonte, somos o único grupo que realiza uma pesquisa contínua no campo da improvisação. E acho que, pela nossa formação, e também por nossos anseios artísticos, sempre tentamos nos inserir no mercado teatral em sentido amplo. Nunca pensamos em criar um mercado (de produção ou de público) específico para a impro, o que tem suas vantagens e desvantagens, porque nos vemos num não-lugar criativo e também mercadológico: não realizamos um teatro “comercial” o bastante para termos sempre casa cheia e vivermos de bilheteria, tampouco um teatro “experimental” o suficiente para conseguirmos manter o trabalho do grupo via leis de incentivo.

De qualquer forma, o que eu posso dizer a respeito da realidade do mercado relaciona-se mais com o cenário das artes cênicas do que especificamente da improvisação teatral.

Acho que as políticas públicas para a cultura no Brasil ainda engatinham. No caso de Minas Gerais, engatinham usando patinete: são tímidas e inconstantes. Acho que falta conscientização da classe artística a respeito do potencial mercadológico da produção cultural, e falta também competência aos gestores públicos para perceber que o investimento na cultura gera empregos, circulação de capital, além de uma imensa gama de valores agregados, tudo isso com um baixo impacto ambiental. Paralelamente à escassez de recursos, a demanda por financiamento tem crescido muito… Tudo isso dificulta bastante o nosso trabalho.

No caso específico da impro, eu não disponho de dados concretos para fazer uma análise do mercado da improvisação no Brasil. Acho que poucos grupos conseguem sobreviver do trabalho com a impro atualmente no Brasil.

Nós temos quatro anos de trajetória, e até hoje, posso afirmar que pagamos para fazer o que fazemos. Fizemos neste segundo semestre uma temporada de um mês [sexta a domingo] em um teatro daqui de BH, começamos com uma média super pequena de público e encerramos a temporada com casa lotada. No fim das contas, só conseguimos cobrir as despesas com teatro, divulgação, direção, produção…

Além disso, custeamos um investimento constante em nossa formação: oficinas, participação em festivais nacionais e internacionais (ressalte-se que 4 membros do grupo realizam pesquisas acadêmicas a respeito da impro).

E ainda pagamos aluguel de espaço para ensaiar e financiamos com nosso próprio esforço e dinheiro nossos dois longforms.

A realização do Dos Gardenias Social Club só foi possível porque fomos aprovados em um edital da Cia Clara, de BH, que nos ofereceu local de ensaio e de apresentação, além do material de divulgação.

Conseguimos um apoio de R$2.000,00 e realizamos, na cara de pau, uma vaquinha virtual, pedindo aos amigos que contribuíssem. A vaquinha nos rendeu a grata surpresa de R$1000,00, e com isso pagamos o cenário. Então, com R$3000,00, somados à imensurável dedicação de improvisadores, professores de dança, iluminadores e músicos (que também trabalharam sem receber nada, nem ajuda de custos), conseguimos erguer um trabalho do qual eu tenho muito orgulho… não apenas pelo resultado, mas pelo que significa, hoje, trabalhar com teatro e com impro no Brasil.

Estamos trabalhando incessantemente para reverter este quadro, e temos ótimas perspectivas para o ano de 2011. Evoé, impro!

Mateus Bianchim é um ser livre. Dotado de uma capacidade de desprendimento e de busca pelos seus sonhos, acompanhei desde que o conheci, suas diversas decisões de mudanças corajosas em busca do seu sonho de aprendizado e de trabalhar com excelência no universo da Improvisação Teatral. Muitas pessoas podem falar de desejar serem livres, mas creio que tive a oportunidade real de conhecer quem de fato vai buscá-la além de todos os limites. Nessa entrevista também livre e polêmica, expõe seus pensamentos sobre a improvisação sob seu olhar bastante crítico.

1) Gostaria que vc começasse resumindo os trabalhos nos quais vc está envolvido hoje. Farei um pequeno resumo para te apresentar.

Moro em Belo Horizonte e agora faço parte de projetos da UMA Companhia, respeitada como poucas no cenário da impro Brasileiro. Acabamos de estreiar o espetáculo “Dos Gardenias Social Club” que é um long-form inspirado no Bolero, na casa de baile e nas relações possíveis nesse lugar.

Fora isso, participarei da temporada do Match de Improvisação, também da UMA e estou na direção do IMPROLIVRE, baseado na oficina que tive com Frank Totino, e que apresentamos em bares de belô.
2) O que é Improvisação Teatral? Quais são os princípios em que se embasa?

A Impro é um solo fértil e amplo. Ela se trata de teatro; e o teatro, e a arte, estão além dos limites que a tevê ou o mercado infelizmente impõe. A impro pode dar minas de ouro e ali se projetarem várias pessoas em busca do que já está pronto; uma Serra Pelada. Mas também tem outros lugares onde se pode plantar, arando e fertilizando o solo, jogando sementes e errando a época da colheita, até achar um fruto bom e duradouro pra se deliciar e se vender. Acima de tudo se deliciar e fazer deliciar.
3) Como surgiu a Improvisação na sua carreira?

Fui integrante da Imprópria Cia Teatral, éramos todos (ou quase) formados em Artes Cênicas na Universidade Federal de Ouro Preto/MG. Lá tivemos contato com a Mariana Muniz, que é a fundadora da LPI em BH, que agora é a UMA. Ela desviou nosso caminho pra sempre em direção à Impro!
4) Quem são os Improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?

Minha improvisação se inspira no cotidiano. Procuro não mais me espelhar no trabalho que os outros fazem, mas também não me preocupo se isso acontecer. Acho que o Brasil tem bons improvisadores, mas que ainda estão engatinhando e descobrindo o que estão fazendo.

5) Quais companhias no mundo você acredita que hoje fazem os trabalhos mais incríveis?

Acho que os que estão há algum tempo na estrada, e que não precisaram mais se vender, nos apresentam uma maturidade que vai além da virtuose. Mas o mundo é grande.

6) O que mais tem te trazido interesse em Improvisação hoje? Jogos de Improvisação ou espetáculos mais long form?

Pra mim os jogos estão mostrando cada vez mais que se limitam a jogos mesmo, onde o privilégio é mostrar o quanto se é esperto e rápido, coisa que acho dispensável até no processo de educação infantil.
Eu busco poesia em cena, nas minhas oficinas eu procuro trabalhar isso, a sensibilidade das relações, uma obra completa e interessante de se ver com a vantagem da espontaneidade do improviso, da verdade de cada ator aberta em flor, exposta.
E quando falo de espontaneidade, falo da questão mais animalesca da coisa e não dessa “primeira idéia” que vem sido utilizada na impro brasileira.
7) Qual é o princípio da Improvisação que é hoje mais motivo de investimento e pesquisa hoje no mundo?
O mercado exige que você venda. O que mais vende são espetáculos de impro-cômica, explorando a rapidez da piada e a satisfação de desejos sádicos de uma platéia burguesa. Eu não vendo mais improvisação.

O que pesquiso e se pesquisa a fundo no vasto mundo, é a emancipação do ser-ator e do ser-público através de uma metodologia libertária que é a do Keith Johnstone. Mas essa liberdade permite que o sistema a subverta, como ele faz com movimentos sociais desde sempre (transformar o punk em moda, por exemplo), e que vem tendo a complacência de “atores” que desejam o poder da fama e do dinheiro.

8) Quais são as dificuldades executivas de um grupo no mercado da  Improvisação? Como o UMA Companhia tem conseguido se estabelecer nesse mercado? Quais são as perspectivas e projetos do seu grupo?

Nenhum grupo que fiz parte teve facilidade em ganhar dinheiro com teatro. Eu fui dirigido pelo Chico de Assis do Arena e ele me disse uma vez que ator pra ter dinheiro precisa ter um três oitão na cintura dentro de um banco. Existe um consumo, mas você tem que se submeter ao desejo do consumidor. E me submeter não é coisa que quero fazer se puder não fazer. Existem leis e editais, mas são poucos e privilegiam poucos. Eu gosto muito de usar o exemplo do Simioni, do LUME. Eu tive aulas com ele e vi uma apresentação de um espetáculo belíssimo solo dele em Ouro Preto. No final, quando perguntado se ele poderia fazer aquele espetáculo, que pesquisava uma coisa muito íntima, difícil de ser entendida, sem ele ser “o” Simioni, ele disse que com certeza não. Ou seja, a pesquisa só é viável para quem tem nome: ou quem se submeteu e cansou de se submeter (mas esse perderá seu público em pouco tempo) ou para os que não desistiram de seus sonhos e agora tem público cativo.

9) Para onde vai a Impro (o futuro)?
Cada vez mais e mais pessoas vão se interessar e fazer Impro, assistir, pesquisar. Somos muito novos no conhecimento dessa linguagem, vejo grandes nomes que estão aí há 30 anos!!! É um território muito amplo para se fazer, para se buscar, quem tem verdade e gosta do que faz durará.

Nesse final de semana, Mateus dará uma oficina de Improvisação em São Paulo. Informações seguem no cartaz abaixo.

Abaixo a participação de Mateus no Mr. Impro (Micetro), espetáculo de Improvisação formato de Keith Johnstone, promovido no Improfestin do Chile en 2009, jogando Irmãos Siameses. Com participação de David Sanin Gaviria do Acción Impro, Angélica Rogel do Complot/ Escena e Monica Moya do Colectivo Teatral Mamut. Apresentação de Mario Escobar Olea do Bassusseder/ Soloy Simple Teatro  e direção de Shawn Kinley do Loose Moose.

Flávio Lobo é polivalente. Além de professor de biologia é professor de Improvisação na Cia. do Teatro Contemporâneo e está à frente do Grupo Alcatéia de Improvisação, bicampeão carioca e atual campeão brasileiro, título esse recentemente conquistado no Campeonato Brasileiro de Improvisação que ocorreu no último fim de semana no Rio de Janeiro. Flávio também é responsável pela notícia de improvisação com o resumo desse campeonato exclusivo para esse blog.
1) Improvisando: Gostaria que vc começasse resumindo os trabalhos nos quais vc está envolvido hoje.
Atualmente ministro aulas de improvisação no curso livre e no curso profissionalizante da Cia de Teatro Contemporâneo. Também trabalho no Colégio Eduardo Guimarães como professor de ciências, biologia e improvisação teatral onde ministro aulas de improvisação para as classes especiais (O EG é uma escola inclusiva) e realizo uma pesquisa sobre como a improvisação pode auxiliar no ensino formal. 

Estou a frente do Grupo Alcateia de Improvisação, atual campeão Carioca e Brasileiro de improvisação onde trabalho como ator e treinador e é produzido por Fabiola Mozine. O Grupo está preparando dois espetáculos um de cenas curtas e outro no formato de cenas longas improvisadas. Ambos para estreiar em 2011 na cena carioca.

2) Improvisando:  O que é Improvisação Teatral? Quais são os princípios em que se embasa?
Para  mim a improvisação teatral é um ótimo treinamento para qualquer ator, e até mesmo para qualquer pessoa, pois seus fundamentos como a escuta, o cavalheirismo e a aceitação são princípios básicos para que se construa boas relações em cena e na vida. Criar cenas, assim como conviver em grupo é algo muito difícil e requer muita conexão entre seus componentes para que tudo ocorra bem.
3) Improvisando: Como surgiu a Improvisação na sua carreira?
A improvisação vai surgir na minha vida na década de 90 onde eu fazia uma peça chamada Terror na Praia. A ideia desse espetáculo surgiu quando a produtora Mariah Martinez assistiu a um show de impro na França e , mesmo sem entender nada, achou bacana uma disputa teatral onde a platéia atirava chinelinhos de borracha nos atores (na verdade era nos juízes) em uma disputa teatral.
No Terror, que tinha como base o teatro circo da década de 50, tinhamos uma peça principal com o gênero terror seguido de um ato variado com esquetes, mágicos e malabaristas. O espetáculo era quase todo improvisado a partir de um roteiro básico, pois tanto a peça, quanto o ato variado mudava a cada semana. Durante o ato variado, o ápice era uma disputa do “pior esquete”. Dois grupos de atores disputavam uma cena onde o público jogava chinelos de espuma naquelas que achavam a pior. Esta seria a escolhida da semana e encenada na íntegra na semana seguinte. O Terror foi uma grande escola embora não tivesse quase nada do Impro de verdade.
Em 2003 a atriz e diretora Gabriela Duvivier veio da Europa trazendo em sua bagagem as técnicas de Keith Johnstone. Ela ofereceu uma oficina e formou um grupo de atores. Foi meu primeiro contato real com teatroesporte e dessa oficina surgiu o “Teatro do Nada” uma das primeiras companhias cariocas de improvisação, que está na cena até hoje. Quando o “Nada” se formou eu estáva envolvido em pesquisas sobre o impro, tinha acabado de ler o “Impro for Storytellers” e muito empolgado. Assim resolvi fazer encontros, com auxílio da produtora Fabiola Mozine,  onde divulgávamos e treinávamos as técnicas, gratuitamente para quem quisesse participar. Nessa época fui convidado a fazer parte do espetáculo “Nada Contra” do “Teatro do Nada”, como Juiz Técnico e comecei a trabalhar na Cia de Teatro Contemporâneo, onde Iniciamos as primeiras versões do Campeonato Carioca de Improvisação.
Nesse meio tempo, até hoje, participei de inúmeras oficinas e workshops de improvisadores que passaram por aqui como Ana Paula Novellino (Teatro do Nada), Ricardo Behrens (LPI Argentina), Fernando Caruso (Z.E. Zenas Emprovisadas), Matheus Bianchim (Imprópria Cia Teatral), Omar Argentino (Improtour), Edson Duavy (Anônimos da Silva), Pedro Borges ( Improváveis – Portugal) e Bobbi Block (Groove and Tongue – Philadelphia)  e também ministrei oficinas no Rio, São João del Rey – MG e Villa Velha – ES.
4) Improvisando: A sua trajetória profissional é diversificada. Se bem compreendi você vem da área das ciências (biologia). Como sua formação influenciou na sua atuação. E quanto da improvisação contribuiu na sua carreira?
A improvisação no geral e o impro em particular é uma técnica onde o ator deve trabalhar com o máximo de conhecimento que possa contribuir com a cena. Adoro estudar. Sou formado em biologia, professor, ator, jogador de RPG, colecionador de quadrinhos desde adolescente e um devorador de livros e filmes, em suma, o típico “NERD”. Logo o Impro, para mim é uma evolução natural. Tento levar para os jogos de impro os detalhes adquiridos por minha vivência, assim como tento levar o Impro para a sala de aula. Acho que é uma boa troca e os resultados em ambas as áreas de atuação é extremamente satisfatório.
5) Improvisando: Quem são os Improvisadores que te inspiram na realização do seu trabalho?
São muitos. Hoje em dia eu citaria Keith Johnstone (que eu conheço apenas pela obra), Ricardo Behrens, Omar Argentino, Allan Benatti e Edson Duavy.
6) Improvisando: Quais companhias no mundo você acredita que hoje fazem os trabalhos mais incríveis?
Não saberia lhe responder sobre as melhores companhias do mundo. Pois as conheço apenas pela literatura e alguns vídeos do youtube. Porém no Brasil, daquelas que eu vi atuando, as melhores companhias que estão na cena hoje em dia na minha opinião são, independente da ordem: “Uma Companhia” (MG), “Jogando no Quintal” (SP),  e claro o “Grupo Alcateia” (RJ). No campeonato Brasileiro de improvisação me impressionaram também o jogo dos “Protótipos” e do Sustentáculos (SP) e dos “Risologistas” (PR).
7) Improvisando: O que mais tem te trazido interesse em Improvisação hoje? Jogos de Improvisação ou espetáculos mais long form?
Estou trabalhando com o Alcateia as duas vertentes.Gosto muito dos jogos de improviso. Mas acho que eles acabam limitando a improvisação pelo excesso de regras (que é bom para iniciantes). A tendência natural dos improvisadores mais experientes é buscar formatos mais longos e livre de amarras onde se prioriza a dramaturgia e o aprofundamento das relações entre os personagens.
8.) Improvisando: Quais princípios em que se embasa a Improvisação que é hoje são mais motivos de investigação e pesquisa?
A noção de ciclo de espectativas, que está relacionada diretamente com o conhecimento no assunto sobre o qual se fala durante a improvisação. A escuta e a aceitação – fundamentais para a construção de cenas em grupo e as noções teatrais de memória emotiva, memória afetiva e construção de personagem. Fundamentais para uma cena mais longa.

9) Improvisando: Para onde vai a Impro (o futuro)?

A impro é uma fonte inesgotável de pesquisa. Acredito que pode se originar inúmeros formatos de espetáculos e no futuro acho que muitas empresas utilizarão as técnicas para o treinamento de seus funcionários e professores as utilizarão para facilitar a aquisição de conhecimento por parte dos alunos. Além do mais é um formato teatral totalmente aberto e muitos grupos a utilizarão para formatar seus espetáculos. E é claro surgirão os campeonatos, encontros e festivais de improvisação, fonte permanente de troca de conhecimento entre os entendidos e os neófitos.

Na seqüência, vídeos do Alcatéia em ação, contra o Anônimos da Silva no Brasileiro do último ano e contra o Ilimitada no Campeonato Carioca de Improvisação.

Marco Gonçalves é plural. Músico, palhaço e improvisador. Atualmente é o palhaço atleta Fonseca do Jogando no Quintal, acabou de cumprir a primeira temporada do programa É Tudo Improviso da Band (aguardando resoluções para uma continuação do programa na grade horária da emissora) e faz parte do elenco rotativo do espetáculo Improvável da Cia. Barbixas de Humor. Nessa entrevista, gentilmente concedida entre suas correrias de apresentações, treinamentos e reuniões, Marco Gonçalves fala um pouco de suas filosóficas impressões a respeito da Improvisação e da vida.

Pode-se saber mais de Marco através do seu twitter. Também, para quem tem uma formação básica de improvisação ou clown, ele iniciará um curso extensivo de Impro no Quintal de Criação às segundas feiras a partir de 12 de abril.

Improvisando: Gostaria que você iniciasse contando um pouco dos caminhos que o trouxeram para a Improvisação Teatral. Sua biografia.

Marco Gonçalves: A verdade é que tenho alguns curriculuns espalhados por aí. Eu digo isso realmente pela lista de coisas que eu fiz. Como estudei pouco o teatro, eu muitas vezes  inventei coisas que eu fiz para conseguir pegar um emprego, para pagar aulas de música. Na verdade minha formação qual é: eu estudo música desde pré adolescente, com professor particular. Na pré adolescência e adolescência eu estudei música de uma forma bem firme na sina de ser um músico mesmo. Daí fiz publicidade mas parei no primeiro semestre. Tinha aquele desejo de ser um criador e tinha a ilusão de que a faculdade de publicidade ia propiciar isso. Descobri na faculdade que não era essa a pegada da publicidade que nela a criação era uma coisa bem pontual e direcionada. Aí me dediquei a ser músico profissional. Saí do Rio Grande do Sul para vir estudar música aqui em São Paulo no Conservatório e não passei. A verdade é que não tava bem preparado, tecnicamente não estava preparado. Bem próximo das provas pro Conservatório descobri que (esse é um dado importante lá na frente eu acho)  não era isso o que eu queria fazer, porque eu não tinha prazer em estudar aquilo. Tinha prazer em trampar em tocar, mas ir pra casa e ficar treinando a parte técnica era uma coisa que não gostava.

Com relação ao palhaço e a Improvisação, entre meus primeiros professores, eu já encontrei meu mestre que é o Marcio Ballas.  Comecei a fazer aula no Galpão do Circo, com uma bolsa conseguida com muita cara de pau. Disse: “Quero muito estudar palhaço, você me dá uma bolsa?” E o Marcio, muito generoso, me deu uma bolsa. Comecei a fazer bastante aula de palhaço com o Marcio e tinha, nos momentos da aula, meus momentos mais bonitos da minha semana em São Paulo. Esperava a semana inteira para vivenciar a aula de palhaço. Sinceramente tinha um pouco de confiança de que aquilo era meu assunto. Fui fazendo outras coisas na vida porque precisava de dinheiro: trabalhei com música para ganhar dinheiro, dava aula em escolhinha para criança de música. Descobri que seria palhaço pela necessidade, precisava fazer grana com isso, o que é bem pouco romântico. Essa é  a parte pouco romântica. Também não tinha família aqui, então entrei numa imersão: andava de palhaço pela Vila Madalena, levava meu nariz no bolso achando que a qualquer momento poderia sacar, como se fosse uma arma.

Eu já tinha uma admiração pelo Jogando no Quintal, eu já tinha assistido e pensava: é isso que eu quero fazer. Aí trabalhei num grupo amador, que por coincidência foi onde conheci a Rhena (de Faria) e a Lu Lopes, que passaram por lá, já profissionais.  Era o Sarau do Charles.

Eu tinha muitos sonhos. Quando me tornei palhaço eu pensava: eu quero ser do Doutores da Alegria para brincar com as criancinhas ou quero ser do Cirque de Soleil. Era o que eu queria muito, muito, muito. E o Marcio sacando minha vontade e usando da sua generosidade, começou a me convidar para acompanhá-lo como músico-palhaço. Tinha uma participação bem pequena, ia lá e tocava, era bem músico mesmo. Pra um músico eu era ruim, mas pra palhaço eu era pior ainda.

A verdade é que os palhaços não sabem fazer nada direito no Brasil. É uma coisa bem brasileira. O prazer de fazer as coisas que é bom para um palhaço, às vezes podem impedir que você se desenvolva. Você sabe mesmo usar sua habilidade? Às vezes não. Mas num palhaço isso cabe. Os palhaços gringos eles tem essa coisa da técnica, os americanos e os europeus, a gente não. A gente não sabe fazer nada. E somos palhaços incríveis.

Eu fui aprendendo a tocar sendo palhaço, não maduro. Aí fui ganhando espaço. E o Marcio (eu vou falar muitas vezes do Marcio porque na verdade ele é minha escola) tinha uma coisa muito legal comigo.  Ele me chamava para as apresentações e dizia assim: Rouba a cena, hein? Quero ver você roubar sua cena. Eu vivia também essa generosidade com o Alessandro (o Charles).

Aí entrei no Jogando, quando o Manjericão (Eugênio La Salvia) foi gravar um curta. Eu fui lá, entrei e nunca mais saí. E achei uma família, uma coisa maior até que o trabalho. É a família que não tinha aqui presente.

Mas falando de sala, e minhas primeiras vivências foi de palhaço, um dos  primeiros palhaços que admirei foi  o Paulo (Federal). E via os treinamentos de  improvisação dele. E eu achava que  eu não consegueria fazer isso. Até porque quando se está do lado dos heróis, você pensa: não serei um herói.

Com o tempo a banda, dentro do espetáculo, começou a ganhar  um tamanho muito grande, e a gente começou a fazer palhaço fora do Jogando. Com a Banda Gigante, que é a banda do Jogando no Quintal, que começou a ter um espetáculo paralelo. Daí comecei a experimentar o que é ser um palhaço e ter o foco, porque no Jogando eu só apoiava. Daí vem a segunda grande pessoa na minha vida que é a Lu Lopes: a gente passou a fazer música como palhaço, o que era incrível. E eu ainda namorava  a coisa de jogar.

Pra encurtar a estória, fiz a banda Gigante alguns anos, e aí num determinado momento, a banda começou a ganhar um caráter de  não ser exatamente o que eu queria. Tocar na banda do Jogando não era mais exatamente o que eu queria. Eu comecei a ter uma demanda de criação. Que pra mim é o assunto do improvisador. A escola de improvisação gera ferramentas para algumas coisas. E eu comecei a ter uma demanda de criação: comecei a não dormir para escrever, comecei a querer mais espaço na Banda, no Jogando, queria mais, queria mais. E era uma coisa que não era vaidade batendo, era uma demanda. Aí decidi que ia ser um ator.

Comecei a estudar improvisação e descobri que é uma coisa que me leva pra sala. Eu vou pra uma sala estudar improvisação e fico horas, sem problemas, amo fazer isso. Estudei com toda essa turma aí, com o Ricardo Behrens, com a Mariana Muniz. Estudei com todo mundo que o Marcio e o Jogando trouxe, recentemente o Shawn (Kinley).

Veio então o Caleidoscópio, e foi aí que experimentei minha primeira criação de um espetáculo. Isso tudo é o que está aos olhos do mundo.

Internamente, que pra mim é o mais importante. Aquilo que sempre me encantou e que o palhaço sempre me propôs que é a busca da liberdade, estou vivendo agora num momento de profunda paixão e amor por essa ferramenta que é pedir um tema, escutar e mandar ver.

A minha escola se confunde com a estória com o Jogando. E hoje com os Barbixas. Eu sou um cara muito da espiritualidade. Eu tive alguns mestres de uma outra área, que falavam muito pra mim: você tem que enxergar o mestre nas coisas do mundo. Eu enxergo nos Barbixas grandes mestres mas não porque eles tem essa postura, ou porque a gente estabeleceu uma relação, mas porque eles criaram uma coisa importante que é o Improvável. Eles trouxeram a mim isso e a um grande público. E eu vivo com eles também hoje essa coisa a que sou grato eternamente.

Falar do meu curriculo, que já tá acabando, é falar de gratidão. Gratidão por onde eu passei, a um monte de gente.

Improvisando: O que para você significa a Improvisação Teatral?

Marco Gonçalves: O que é Improvisação teatral é uma pergunta profunda e difícil. Eu considero uma coisa que me rege, é uma linguagem que consegue colocar a espontaneidade na frente. A espontaneidade é o que rege esse trabalho. Estou dizendo muito mais de sensação. Enfim, mas é algo que tenho prazer em fazer. Vou falar uma frase feita que traduz o que é a improvisação para mim: “Produzir vibrações, rotações, girações, danças, palcos, gravitações, inventar novas metas, e setas que vão disparar novos corações”. Isso pra mim me fala da improvisação hoje.

E também outra coisa que me fala do que é improvisação é o sentido que as mandalas tem. É um trabalho muito preparado e termina no desapego para abrir espaço para outra coisa. E enxergar nesse movimento o sentido da coisa e não o produto em si. A gente produz um número de cenas muito grande e a maioria são geniais e elas se vão.

Enfim, improvisação teatral pra mim é uma coisa que toca os mistérios da vida.

Improvisando: E quais são os princípios da Improvisação que você considera importantes?

Marco Gonçalves: Fundamental são alguns. Como diz a Rhena, escuta, aceitação são coisas profundas. Sou obrigado a repetir. Mas uma coisa que a própria Rhena me trouxe na relação próxima que a gente tem, é que quando a gente fica tratando da improvisação como ferramenta e como jogo, talvez a gente siga estritamente o que as escolas falam (escuta, aceitação). Fica uma coisa puramente técnica. Pra mim o buraco é mais embaixo e a Rhena me chama a atenção pra isso. Ela tem uma imaginação muito grande para a loucura, não a patologia, a doença, mas aquele olhar que é capaz de traduzir de uma forma muito diferente uma coisa que é lugar comum. Eu sempre tento ver a improvisação muito mais como uma arte que como uma linguagem técnica.  Nesse sentido, isso é uma coisa fundamental para o palhaço: o que você está falando para o mundo, aí?

Acho que estou querendo aliar um conceito que é a aceitação, escuta e um desejo de voar, uma certa loucura.

Lembrei agora do Chacovachi, que não foi um mestre, foi um dos professores que passou por aqui. Ele é um mestre para todo mundo, mas pessoal não. Ele diz: “El Payaso tiene que ter hambre”. O palhaço tem que ter sangue “nozoio”, que não necessariamente é ter uma agressividade, pode ser uma coisa bem infantil, ingênua, inocente. Mas é quente, potente, uma combustão.

É isso: escuta, aceitação e combustão.

Mas também tem outra coisa que é: “Quem está improvisando?”

A real é que escutar, aceitar, estar com o corpo pronto, saber jogar os jogos, saber a proposta coletiva de cada grupo e de cada espetáculo é fundamental mas são FERRAMENTAS. O conteúdo que você trará para a cena é uma coisa importante e ao mesmo tempo só pode ser gerado com organicidade, ou seja: quem você é, o que pensa, o que sente e como sente constrói sua fantasia. O que você lê, assiste ou o que te inspira como espectador geram bagagem para criar. O formato Improvável dá espaço para os comediantes, o Jogando para os palhaços, o Tríptico da Colômbia dá espaço a excelentes atores .

Improvisando: Gostaria que você falasse um pouco dessa conexão entre o clown e o improviso. E também da relação entre improviso e a música, que é a sua origem.

Marco Gonçalves: A música me ajudou muito. Conceitos que a música tem como muito fundamentais como linguagem, como ferramentas muito conhecidas, são fundamentais no improviso. Por exemplo, você não enaltece a escuta, ela é uma ferramenta tão básica na música: você não aprecia música sem escuta, você não dança sem escuta e não toca bem com um colega sem escuta, você não aprende a tocar um instrumento sem escuta. A escuta na música é uma perna para um jogador de futebol. Por isso, escutar os colegas era uma coisa muito orgânica pra mim. Quando entrei na escola da improvisação, a escuta já estava ali comigo.

Uma outra coisa que considero importante, a qual o Marcio é bem cuidadoso com esse aspecto na cena é o timing. O Marcio tem muito controle sobre o gráfico da cena: um começo que deixa ela clara, uma apresentação da situação e dos personagens, uma inclinação, um problema, e de repente uma aceleração, uma virada e um fim. A música respeita, seja improvisada ou ensaiada, um gráfico. A música tem uma parte A, B, refrão, AB e um refrão no final.

A música me ajudou no improviso, na escuta e no timing.

O palhaço já me ajuda um pouco a viver, mais que a trabalhar. Fica um pouco fácil fazer uma criação excêntrica, interessante aos olhos do público, quando você vivenciou isso. Só o palhaço tem essa levada, ele é a loucura, ele é o personagem. A gente não faz o palhaço a gente é o palhaço. A gente não é melhor ou pior que nada, a gente simplesmente é.

Quando eu estou fazendo, por exemplo, o Improvável (que é um espetáculo de tiro, de piada), muitas vezes estou fazendo essa piada com o lugar comum. Mas quando estou em cena eu invariavelmente uso o palhaço, mexo no dimer da intensidade mais ou menos.

Por exemplo: O que não fazer numa sorveteria? Eu me reporto a aquele lugar e penso no que espontaneamente seria gostoso fazer. Aí eu junto um pouco com a estória dos meninos que é elaborar uma piada com isso e mato. Pego a matéria prima e coloco o olhar de palhaço em tudo.

O que eu não deveria fazer está casado com o que eu poderia fazer e é proibido. Que é a base do Cenas Improváveis e no programa (É Tudo Improviso) é o Cenas Absurdas.

Outro exemplo: O que não se fazer num velório? Uma mente livre, uma mente não ressentida, que é a mente de um palhaço, uma mente desapegada de padrões e regras,  não faz muita força para  pensar o que não fazer. Ele simplesmente vai lá e faz. Ele cumprimenta o morto, vai lá tira uma com o morto. É como já falei com minha mãe e com meu pai. Na ocasião a gente vai se divertir na brincadeira, vamos beber o morto.

Improvisando: Quem são os Improvisadores que o inspiram na realização do seu trabalho?

Marco Gonçalves: Poxa, aí vem muitas coisas na cabeca. E vem um desejo de ser político…

Improvisando: Eu penso em termos de referência…

Marco Gonçalves: Hum… Paulo Federal, Marcelo Savignone, Marcio Ballas (sempre), Rhena de Faria. Fora do improviso, esses dias vi o Pedro Cardoso, achei arrebatador. Dos mexicanos, o José (Luis Saldaña), acho sensacional. Mas de todos, o último que me impressionou mais foi o Marcelo Savignone porque ele é o cara que toca, canta. Ele é desesperador, ele é multi, você conversa o cara, ele conta que  estuda diariamente horas, e é um maluco.

Enfim, eu deixaria essas pessoas, mas isso vale pra hoje. Respeitando o agora.

Improvisando: E com relação às companhias teatrais?

Marco Gonçalves: Todas. De improvisação, eu gosto de todas. Das ruins e das boas.

Pode parecer uma prepotência, mas tenho muito respeito por quem trabalha. Gosto dos Barbixas, Jogando no Quintal, . Em termos de Brasil ainda tem o pessoal de Belo Horizonte, o Imprópria, o Protótipo. Eu tenho muito respeito por você.

Improvisando: Eu não pertenço a nenhuma companhia…

Marco Gonçalves: Mas não digo em termos institucionais, eu tenho respeito por quem tá dando um gás pelo assunto. Quem tá afirmando a Improvisação.

Falando do programa, por exemplo,tentar pegar essa linguagem e torná-la mais popular. Deixar mais gente afim de fazer. Isso poderia ficar como um desejo individual do Marcio, que quer a improvisação no Brasil, ou os Barbixas. Mas é um desejo de muitos, uma força que se espalha.

Fora isso  Impromadrid, Complot/Escena, Loose Moose, LPI Argentina.Vou acabar esquecendo alguém, enfim…

Improvisando: Gostaria que você falasse um pouco com relação a seu interesse em formatos de improvisação. Você hoje tem uma preferência entre formatos longos ou formatos desportivos de improvisação?

Marco Gonçalves: Eu acho tudo importante. Os espetáculos que tem como base jogos de improviso e espetáculos de long form que tenha uma premissa e a improvisação. É que em termos de jogos já existe o Improvável, o Jogando, outras trupes, o programa e acaba meio que virando lugar comum.

O long form acaba virando um desafio hoje em dia. A gente tem pretensões muito altas: não quer ter uma estória boa porque é improvisada, mas uma estória que seja digna de ser encenada várias vezes.

Fora de cena é bacana você ser bem pé no chão, mostrar que o que estou fazendo qualquer um que queira muito poderia fazer. Mas quando digo muito, queira muito mesmo, se dedique.

Em cena acho essa coisa da pretensão bem legal. Às vezes a gente tem uma coisa no long form, em que a gente desafia um ao outro, causando uma sensação ímpar na platéia. Imagina criar uma atmosfera, uma estória que tenha uma trama que de repente possa ser sensual para a platéia. Uma arte transformadora que pode te levar a outro lugar.

Hoje os espetáculos de jogos buscam a piada, um lirismo e na verdade, já tem bastante missão só nisso.

O horizonte do long form é outro. Talvez ele me seja mais atraente, mas ele nao é melhor que o curto, talvez ele até seja um pouco pior. Pro grande público ele talvez seja menos divertido. O público tá afim de ver um desafio mais cirúrgico.

O long form só está mais atraente, mais sedutor pra mim hoje em dia.

Improvisando: Em termos futuros, o que você espera da Improvisação?

Marco Gonçalves: De forma prática,  um número maior de grupos fazendo, uma disseminação mesmo. Eu acho que vai acabar acontecendo, tomara a Deus. Com isso, irão surgir novas formas de fazer, grupos com identidade cada vez mais única, com trabalhos cada vez mais autorais. Isso do ponto de vista comercial.

Do ponto de vista filosófico, que é o que me pega mesmo.  Eu sinto que tem uma coisa que amarga a vida um pouco que é a própria diversão que é trocada pela obrigação. E a vida cheia de obrigações é dificil . Ela é dificil para qualquer um. Mesmo para aquele que gosta, que faz determinadas coisas porque gosta de cumprir aquela obrigação.  Mas tem outras possibilidades e é esse que é o barato.

Não estou falando que a improvisação tenha a ver com descompromisso. A improvisação tem a ver com dar vazão a espontaneidade. E a espontaneidade é o contrário da obrigação. E quando você gera mais espaço para dar vazão a essa espontaneidade, você tem uma ferramenta prática, potente e verdadeira e não uma falácia. Você ouve: temos que melhorar o mundo. Mas como se faz isso?

Mas respondendo à sua pergunta, quando eu vejo meu pai altamente envolvido com a piada, não porque riu, pelo interesse na piada em si…  As pessoas me ligam, me procuram, projetando um desejo de fazer a mesma coisa. Tenho recebido muito email,  muito twitter dizendo: você poderia ter feito aquilo tal hora. Eu procuro responder: então vamos fazer, eu quero fazer isso com você. Esse convite tem a ver com um chamado: vamos brincar!  Isso pra mim tem a ver com a missão da improvisação. Que passe a trazer essa força da espontaneidade com o tempo.

A seguir, Marco Gonçalves em 3 momentos incríveis: Improvável, É Tudo Improviso e Jogando no Quintal.