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O Festival Los Improvisadores prossegue hoje com bastante atividade.

Começamos à tarde com o espetáculo Teatruras do Impromadrid, da Espanha.

Ignacio López, Ignacio Soriano e Jorge Rueda são desafiados pelo Senhor Teatro a mostrarem que tem condições de frequentar aquele espaço. Para isso, tem que passar por provas que ajudam didaticamente o público a conhecer quais são os elementos importantes que compõem um espetáculo de teatro: cenário, luz, personagens, estilos são algumas das cenas propostas cada uma delas, construídas por plataformas pedidas ao público.

No espetáculo, um telão nos apresenta o “Recadero” era chamado para dar explicações e também propor os desafios para os atores.

Contam também com a participação musical do maestro Nacho Mastretta.

Durante o espetáculo a platéia é convidada a participar da peça.

Um espetáculo belíssimo, delicado e com a já conhecida execução impecável do grupo.

Segue-se a noite com o espetáculo Vivo, solo de Marcelo Savignone.

Um cheiro inebriante de Palo Santo (madeira sagrada) e uma música com inspiração parte eletrônica, parte oriental nos convida a adentrar a atmosfera proposta por Marcelo Savignone.

Através de um exercício de extrema concentração e de adentrar-se dentro desse clima que  Marcelo Savignone escolhe uma a uma as máscaras que comporão seus personagens.

Num dado momento, após uma consecutiva viagem por cada um dos seus personagens, construindo estórias baseadas em temas propostos pelo público, Marcelo Savignone abandona sua máscara e mergulha nos seus personagens sobre uma quase penumbra, entrelaçando as estórias e seus personagens.

É um espetáculo de execução impressionante e que nos leva a lugares absolutamente desconhecidos de nós mesmos. Absolutamente inesquecível.

Segue-se a noite, com Stage Time.

Nesse formato se propõe que cada um dos três times, cada time esse composto por jogadores distintos de cada país, iniciem uma cena, que a qualquer momento pode ser interrompida pelo outro time até que se complete sua estória, dentro de um tempo pré estabelecido.

O espetáculo foi apresentado por Mateus Bianchim.

Equipe 1:

Florian Toperngpong, do Die Kaktussen da Alemanha.

José Luis Saldaña, do Complot Escena do México.

Nico Belmár, do Colectivo Teatral Mamut do Chile.

Pau Farias, do Improcrash da Argentina.

Rhena de Faria, do Jogando no Quintal do Brasil.

Equipe 2:

Charo Lopez, do Improcrash da Argentina.

Ignacio López, do Impromadrid da Espanha.

Mabel Moreno, do La Gata Impro da Colômbia.

Omar Argentino Galván, do Improtour da Argentina.

Omar Medina, do Complot Escena do México.

Equipe 3:

Daniel Orrantia, do La Gata Impro da Colômbia.

Luciano Barreda, do Improcrash da Argentina.

Marcio Ballas, do Jogando no Quintal do Brasil.

Monica Moya, do Colectivo Teatral Mamut do Chile.

Rodrigo Bello, do Improcrash da Argentina.

Amanhã no último dia do Festival, Charla (com Rodrigo Malbán e Frank Totino), Teatruras do Impromadrid, Super Escena do Colectivo Teatral Mamut e encerra-se o festival com o Teatro de Gorilas (com seis diretores de cenas).

Esse blog abre aspas, dentro do Ciclo de Entrevistas, pedindo licença para falar de Allan Benatti.

Allan Benatti é o palhaço-atleta Chabilson do Jogando no Quintal. Também integra o elenco de Caleidoscópio, Long Form de Impro da trupe, juntamente com Márcio Ballas, Marco Gonçalves e Rhena de Faria. Compõe a seleção brasileira de Impro, juntamente com a mesma equipe do Caleidoscópio, campeã do mundial no Peru e terceiro lugar no mundial do México. Por diversas vezes jogador convidado do espetáculo Improvável da Cia. Barbixas de Humor. Já participou de diversas montagens dentre as mais importantes, pode-se destacar: O Assassinato do Anão do Caralho Grande, O Chá de Alice e O Auto da Compadecida. Trabalha com a linguagem do Clown há mais de dez anos, tendo sido aluno de Léo Bassi, Bete Dorgan e Cristiane Paoli Quito. É professor de Clown e Improviso.

Durante 2 workshops e um curso de 4 meses nesse ano, tive a oportunidade de ter curiosidade, aprender e me entusiasmar pela Improvisação Teatral, convivendo com um professor por natureza. Aliás, creio que algumas qualidades na vida fazem o professor: logicamente o conhecimento adquirido, mas principalmente a curiosidade em continuar a buscar conhecimento e o entusiasmo e a generosidade com que lida com o aprendizado dos alunos. Talvez o professor seja um dos principais personagens em construção de Allan Benatti. Aliás, é bem interessante vê-lo, aqui, falar sobre seu entusiasmo sobre máscaras, construção de personagens e relações. Porque tão interessante quanto conhecer suas opiniões a respeito da Improvisação Teatral, na qual é um de seus personagens principais, é conhecer a própria trajetória de sua vida, que o trouxe por esses caminhos, entremeada por muitos improvisos e muitos personagens.

Improvisando: Queria primeiramente te perguntar sobre como começou sua carreira como ator.

Allan: Eu comecei na verdade, assim, por acaso. Eu comecei a estudar no colegial numa escola técnica que era o Liceu de Artes e Ofício. E aí no segundo ano eu jubilei, fui expulso do Liceu e fiquei perdidinho, sem saber o que fazer.

Foi engraçado porque tinha uma tia minha que quando eu pequeno, tinha dez, onze anos de idade, eu tinha comentado com ela que eu queria fazer teatro. E aí eu já tava com dezesseis para dezessete anos, por aí, nessa época. E ela me vendo perdido chegou pra mim e falou assim: “Ó, você não queria fazer teatro? Vai ter um curso, uma oficina grátis na Oficina Cultural Mazzaropi que eu vi na televisão. Porque você não vai lá fazer? É aqui pertinho.” No primeiro momento quando ela falou, putz, me veio um: “Teatro? Mas por que ela veio me falar de teatro?” Como eu tava mesmo sem saber o que eu ia fazer da vida, pensei: “Vou fazer isso aí.” Aí cheguei lá, tinha uma baita fila enorme para fazer a inscrição e eu passei por acaso.

E foi assim transformador! Porque aí eu descobri um novo mundo e me apaixonei de um jeito que eu comecei a fazer tudo que eu podia ao mesmo tempo em todas as oficinas gratuitas: na Três rios (Oficina Cultural Oswald de Andrade), na Mazzaropi, no Engenho Teatral. E aí no final desse primeiro ano que eu tava fazendo esses cursos eu fui ver um espetáculo que chamava NegraBox que se não me engano era organizado pela Célia Helena. Esse espetáculo era uma co-produção francesa e espanhola. Era uma caixa enorme montada no Ipiranga que devia ter uns cinco por cinco metros de altura. Eu achei um espetáculo incrível e eu sabia que era palhaço, mas só que eles não usavam máscara de palhaço, era um outro tipo de linguagem de palhaço que não era a que eu tinha como referência como o de circo ou de picadeiro. E foi impressionante que eu tinha certeza que era palhaço mesmo com pouco conhecimento e eu pensei: “Meu, eu quero fazer um curso de palhaço.”

No semestre seguinte, em janeiro, abriu turma para fazer curso com a Cida Almeida, que é uma palhaça super clássica. Só que olha as coincidências da vida, que não são coincidências, na verdade. Acabou que a Cida tava grávida de gêmeos, uma gravidez frágil, e tinha que ficar em repouso e não pode dar o curso. Então convidou a Bete (Dorgam) pra ir dar o curso no lugar dela. E aí foi paixão à primeira vista, de imediato, e fiquei quatro anos seguidos estudando com a Bete de janeiro a dezembro. Os primeiros anos foram bem de estudo e o grupo (eu, o Denis (Goyos) , a Gabi (Argento) e a Karin (Frutig)) convidou ela para dirigir um espetáculo. No primeiro momento ela falou: “não, não quero.” A gente continuou trabalhando porque a gente queria montar um espetáculo juntos e dois meses depois ela falou: “Olha, eu topo, se vocês toparem ser minha tese de doutorado.” E aí a gente começou todo um processo, né? Ficamos dois anos em cima de muitos elementos que ela dava a partir do capítulo sete do Alice no País das Maravilhas que é o Chá Muito Louco e aí o resultado foi o Chá de Alice que é um espetáculo completamente inspirado nesse capítulo.

Nessa época, enquanto a gente tava fazendo o Chá de Alice, o Márcio (Ballas) voltou e eu prestei o teste para os Doutores da Alegria. Foi aí que eu conheci o Márcio, foi a primeira vez que a gente se viu. E foi uma afinidade muito grande de primeiro momento. Aí eu não passei, ele passou, a gente continuou as coisas da vida…

Depois de um ano e pouco, o Chá de Alice tava bombando, a todo vapor ainda. Nós ficamos com ele uns 4 anos, tudo bem espaçado: era uma apresentação em janeiro, outra em setembro. Tivemos uma temporada mais longa…

Nessa época ele me convidou: ele já estava treinando com o César (Gouvêa) e com a Paulinha (Paola Musatti) e estavam começando a testar o Jogando no Quintal. O primeiro time a ser convidado para fazer os testes do Jogando no Quintal foi eu, a Gabi e o Dênis. E a partir desse jogo, eles perceberam que não dava pra fazer o espetáculo sem treinar, sem ensaiar. E aí eles começaram a chamar as pessoas para começar a treinar, mais ou menos em março. Quando foi em setembro, nós fizemos a primeira apresentação aberta, se não me engano a gente nem cobrou, foi bem para amigos, umas 30 a 50 pessoas. A gente começou a cobrar no mês seguinte. Então acho que o aniversário do Jogando se não me engano é em outubro, por aí. E aí toda a estória do Jogando que de um quintal foi para um quintal maior, um quintal maior, um quintal maior. Então, toda minha pesquisa acabou se criando dentro da máscara do palhaço mesmo.

De teatro eu cheguei a fazer algumas coisas, espetáculos como O Assassinato do Anão do Caralho Grande, que também como experiência foi fundamental. Porque como era muita gente em cena, eu também consegui degustar a possibilidade de você viver uma máscara, não fazer uma máscara. Porque o Marcão (Marco Antônio Rodrigues) era muito exigente. E foi muito gostoso fazer isso, também estudando junto com o palhaço.

Então, eu comecei a perceber que eu gosto desses personagens, de viver personagens, e acho que to criando uma relação da improvisação da máscara, da vivência da improvisação. A gente acaba trabalhando muito mais na relação propriamente dita, no como eu me relaciono, do que em qualquer outra teoria da improvisação. Quando a gente (Márcio Ballas, Marco Gonçalves e Rhena de Faria) começou a estudar o Caleidoscópio, isso ficou ainda mais acentuado. Porque antes eu já fazia personagens, mas a possibilidade de você, num long form, viver um mesmo personagem por 5 minutos, me trouxe experiências muito boas de palco, de cena, de compreensão da máscara, de compreensão do personagem, da relação, do caminho do respeito, né?

Porque é isso que a gente procura. Se eu to procurando a relação na improvisação também eu imagino, pelo menos para mim, não ser possível eu me relacionar de outra maneira na vida. Então em tudo: desde com minha namorada, com meus amigos com tudo, eu procuro me relacionar com a verdade que eu procuro me relacionar quando eu visto uma máscara na cena. Pra mim esse é o mistério que eu to investigando ainda mais que eu acho que é, pra mim, o que me dá mais prazer e é mais essencial.

Improvisando: Fale um pouquinho sobre os trabalhos com que você está envolvido no momento. Você falou do Jogando no Quintal, do Caleidoscópio…

Allan: Sim, estou trabalhando com o Jogando, o Caleidoscópio. Eu também dou aulas. Eu faço bastantes trabalhos em empresas também, que na verdade são trabalhos que eu pego um briefing específico de uma coisa e desenvolvo numa cena. Então eu também crio roteiros nos quais não faço textos fechados nunca, sempre me baseando na improvisação. Eu pego o briefing, chamo algumas pessoas para trabalhar que são do Jogando e a gente faz a cena inspirado nesse roteiro para seguir um pouco do que eles desejam. Por exemplo, a empresa diz: “Ah, a gente precisa trabalhar a venda.“ Então a gente trabalha com o humor, e geralmente, disassocia da relação com a empresa, levando para uma relação cotidiana, com palavras-chave, com justamente os pontos que eles precisam trabalhar.

Improvisando: E como a Improvisação entrou na sua carreira?

Allan: A partir do momento que eu entrei no Jogando no Quintal. Só que no início do Jogando no Quintal, o primeiro momento de improvisação foi a improvisação do Palhaço.

O Cris (Karnas) entrou e começou a ministrar contato-improvisação que é uma coisa que até hoje eu adoro e quero estudar mais também. A gente trabalhou bastante com essa técnica de ideokinesis nessa parte da improvisação, e trabalhou contato-improvisação. Essa técnica entra numa relação de improviso corporal que pra mim é importantíssimo também. Gosto muito do conhecimento corporal para poder improvisar corporalmente.

Com relação ao Improviso em si, no Brasil, a gente não conhecia ninguém. A única pessoa que a gente conhecia era a Vera (Achatkin) que dirigia um grupo de Teatro Esporte. No início nós tentamos entrar em contato com ela, tentamos nos oferecer de pesquisar com ela, mas não rolou.

E aí a primeira aula de improvisação foi com o Leon e com uma menina que eu não lembro o nome, que tinham recém voltado da Espanha após um curso com o Impromadrid e foram eles que deram as primeiras idéias de técnica de improvisação pra gente. Depois foi a Mariana Muniz. E daí com os festivais, estudamos com o Acción Impro, o Impromadrid… Esses intercâmbios foram fundamentais para começar a ter a compreensão do que é tudo isso.

Improvisando: E qual compreensão você tem de tudo isso hoje? O que é a Improvisação Teatral para você?

Allan: Pra mim na Improvisação o fundamental é a escuta. É você estar em cena livre e solto, sem peso, sem carga, sem pressão. Com uma escuta, porque se você tiver com a escuta você vai estar dentro do que o Shawn (Kinley) chama de Circulo de Possibilidades. E é muito importante também, pra mim, estar livre de qualquer ego, de qualquer coisa que te pressione também. Porque se você está cheio de ego, você tem uma autocrítica maior, você tem que cumprir uma meta que é fazer o público rir e tentar ser melhor até que seu parceiro que está em cena. Ou então quando você está em cena e riem do seu parceiro ,te dando uma trava porque “Riram de você? O que eu tenho que fazer para rirem de mim?” Então, pra mim, Improvisar é estar livre de ego e de qualquer tipo de pressão e ter escuta, pra poder brilhar junto, jogando junto.

Improvisando: Gostaria que você falasse um pouco sobre essa particularidade do Jogando no Quintal que é a relação do Improviso com o Palhaço. Como é vivenciar essa relação tão ambivalente? Como essas duas vertentes se aproximam, como se diferem? Como dar coesão a elas?

Allan: Esse é um pensamento que a gente procura exercitar sempre. O palhaço é improvisador por natureza, só que a improvisação dele é muito mais momentânea. Não tem uma preocupação com que estória eu vou contar, que linha dramatúrgica… Eu vou procurar uma linha dramatúrgica? Não existe isso, ele é mais do acontecimento. A gente ta aqui e acontece de uma latinha cair, por exemplo. Na improvisação, é muito melhor quando essa latinha cai porque precisava cair do que ser um acontecimento atrapalhado. No palhaço os acontecimentos atrapalhados tomam uma importância muito grande, na improvisação o acontecimento atrapalhado pode ser uma desculpa para alguma coisa. Pode ser a característica de um personagem, pode virar uma desculpa para a característica de um personagem. No palhaço não, esse personagem já é por natureza. Então ele pode voar muito mais, sem se preocupar com a lógica, porque a lógica já é dele. Ele já tem sua própria lógica. O improvisador, acredito, procura traçar uma lógica um pouquinho mais… Não realista, ela pode ser fantasiosa, mas que ela seja lógica em tempo integral. O palhaço não necessita disso. Uma outra diferença é que o palhaço é uma figura solitária por natureza, o improvisador pode ser uma figura solitária mas não necessariamente ele é uma figura solitária por natureza.

Só que tem muitas outras coisas que coincidem muito, em muitos pontos. Por exemplo, a escuta no palhaço também é fundamental, acho que é o ponto mais fundamental nos dois. Você tem que estar presente e tem que estar vazio, estar livre de pressão de qualquer pensamento, deixar o pensamento vir. Os dois também trabalham bastante com a relação. Por exemplo, “como eu me relaciono com o outro palhaço?”

Improvisando: E quem são os Improvisadores que tem te inspirado na realização do seu trabalho? Lembro-me de você ter me dito algo sobre o Shawn (Kinley) e o Savignone (Marcelo Savignone)…

Allan: Justamente. Shawn (Kinley) foi pra mim catártico. Essa estória da inspiração, de jogar para o outro. Intuitivamente a gente já até tem essa característica, mas ele consegue verbalizar isso e tem um olhar muito específico, muito pontual. Então em muitos momentos, acontecem coisas durante uma improvisação que após a cena ele fala pontualmente pra você e te ajuda a conseguir detectar. A improvisação tem uma coisa muito boa que é o fato de que observar ensina bastante. Quando eu to dentro de uma improvisação é muito difícil eu conseguir me observar. Porém com o olhar de fora dele, quando ele me pontuava, eu puxava na minha mente a cena e conseguia visualizar esse momento. Então era como se eu tivesse vendo o que tinha acontecido. Foi extremamente didático, aprendi muito com o Shawn.

O (Marcelo) Savignone, pra mim foi o click de que, eu quero fazer essa pesquisa das máscaras, não necessariamente utilizar a máscara como ele utiliza. Mas ele me inspira de lembrar, ele me inspira muito, porque ele é muito virtuoso. Desconstrução de máscaras, de personagens… Era uma pesquisa que já anterior a ele eu já tinha interesse em fazer. Daí quando eu chego, logo no primeiro festival, e vejo um espetáculo como o Sincro? Fiquei passado! Porque é uma habilidade de trocar o personagem e manter o mesmo personagem e você vê que não é uma interpretação, é uma vivência e que acontece na hora. E ele ainda junta o contato-improvisação que é uma coisa que eu adoro também. E música também. Improvisando em todas as áreas! Eu saí do espetáculo falando: “eu quero fazer uma coisa assim!” Sabe? Então é muito inspirador. O Vivo então é mais declarado ainda! Porque é a máscara, né? É a máscara e a relação. É um diálogo com a platéia e de repente acontece a cena. É como um contador de estórias também. E me fascinou, e me fascina e pretendo muito fazer um curso com ele em breve, mais tardar março.

Improvisando: E com relação a Companhias Teatrais no seu trabalho conjunto? Que companhias te agradam no seu trabalho?

Allan: Olha, dos que eu conheço… Españo hablantes a grande maioria, pra mim é parceira e só tem qualidade.

Os mexicanos (Complot/ Escena) tem uma agilidade, um poder de raciocínio. Nem sem como explicar. Eles conseguem abrir os cabos (de idéias), numa improvisação. Por exemplo, você ta numa linha dramatúrgica, você abre um cabo, geralmente você sente uma dificuldade de fazer linkar esses cabos que foram soltos com o cabo principal. Eles tem uma linha dramatúrgica inicial e abrem os cabos e vão conectando muito rápido. É como se eu abrisse um cabo aqui e na fala seguinte já estaria fechando o cabo. Então eles te supreendem a todo momento. Porque o cara fala alguma coisa e você pensa: “O quê?” Mas já na fala seguinte já: “Ah! Entendi.“ Já faz a lógica. E eles são muito bons nisso, são muito hábeis.

O Acción Impro tem uma expressão corporal que poucas companhias que eu conheço tem. Também são muito rápidos, são muito bons em estilos, são muito bons atores. Então o Tríptico é um espetáculo que me envolve de uma maneira… Cada vez que eu vejo me envolve mais, não é que nem um espetáculo de improvisação que você chega e você fala: “Ah, tá, tem essa estrutura, entendi essa estrutura.”  E depois de um tempo você vai falar: ”Ah, mas eu já conheço, já sei como é que é.” Como o próprio Jogando no Quintal acaba acontecendo. As pessoas vão assistir cinco, sete vezes e depois precisa dar um tempinho, só vai assistir de novo dali um ano, dois. Natural. O Tríptico não tem essa característica, é o oposto. Cada vez que eu assisto, me encanto mais pelo espetáculo.

Os espanhóis (Impormadrid) pra mim são mestres. Mestres de uma tranqüilidade, de uma escuta. Aprender escuta com os espanhóis é a coisa mais incrível do mundo. Tem outro ritmo, por exemplo, dos mexicanos e dos colombianos. Eles tem agilidade, mas eu acho que não é o que é interessante para eles. Porque eles gostam de jogar junto com as pessoas, num tempo, num ritmo… Muito um pouco realista, às vezes. Mesmo num universo fantástico eles trazem para uma realidade possível para você.

E o Mamut (Colectivo Teatral Mamut) pra mim… No primeiro momento que eu conheci o Mamut eu tive a sensação de que, como com o Marcelo Savignone, eu precisava trabalhar com esses caras. E até hoje, pra mim, o Mamut também é uma companhia que… são muito generosos todos eles, eles tem uma coisa como todo chileno, muito política, muito ética de querer transformação. Mesmo dentro da improvisação ou fora da improvisação, eu acho que eles procuram uma transformação. Eles são muito politizados, todos eles. E isso me encanta! Os mexicanos também, mas acho que os chilenos ainda mais até pela História deles e tudo mais.  E eu e o Mário (Escobar)  a gente tem uma afinidade que é coisa de irmão. Sou irmão do Mário, do Panqueque (Sérgio Molina), do Nico (Nicolás Belmar), da Juanita (Urrejola), da Mônica (Moya)… Aí é uma outra relação, sabe? Me deu até saudade, me deu vontade de escrever para eles. (Sorri, bastante emocionado). Eu sou muito displicente com essas coisas…

Improvisando: Acho que de alguma forma você já falou bastante sobre isso, mas gostaria muito de saber qual seu atual interesse em termos de formatos de Improvisação. Você faz o Jogando no Quintal, o Improvável, com formato de jogos de Improvisação. Mas também está fazendo o Caleidoscópio que é um Long Form. O que te dá mais prazer em cena? O que te interessa mais em termos de pesquisa? Porque a questão da máscara que você ressaltou é um pouco diferente, né?

Allan: É, é uma outra coisa. Mas, é isso que eu falo. Assim como no Jogando que a gente mistura o Palhaço com a Improvisação, a máscara pra mim pode ser a máscara como na França, por exemplo. Quando você chega no Castelo, você tira a máscara, mas o personagem se mantém. Então a construção de um personagem, também acho que é uma máscara. E a máscara trabalha dentro da relação. Por isso acho que pra mim, está me instigando mais o Long Form hoje em dia, em que posso construir o personagem e a relação. É o que me da mais inspiração e prazer em estar em cena. É onde eu não preciso fazer piada, eu posso simplesmente fazer uma cena bonita, simplesmente fazer uma imagem que me dá prazer.

Acho que espetáculos de curto formato, jogos, outras coisas, me divertem muito, então eu gosto muito de fazer isso também, porque é o momento de criar piada, de se divertir, de não se preocupar muito com a dramaturgia… Às vezes você se perde no meio da improvisação e tudo bem. Perdeu a personagem no meio de uma improvisação, a luta é que não aconteça isso, mas dentro de um jogo curto, é menos impactante para a platéia.

Num Long Form isso é quase imperdoável, você cria um personagem que sai de cena, e não volta mais? Perde-se a resolução da coisa. Num espetáculo de formato curto não, se o jogo foi divertido, tudo bem, não tem problema, né?

Enfim, eu me divirto muito com formato curto, gosto de fazer formato curto, mas hoje em dia pra mim, o que me dá mais tesão é fazer Long Form.

Improvisando: Você falou muito em relação, fala-se muito na questão da relação na Improvisação.  É claro que todos os princípios da Improvisação são importantes, mas você acredita que a questão da relação é o princípio mais pesquisado na Improvisação hoje?

Allan: Não sei se diretamente isso, né? Acho que tem uma pesquisa na Improvisação com relação à Dramaturgia também muito forte. Essa questão que a Rhena (de Faria) levanta muito, e que eu acho fantástico que é um exercício que eu procuro fazer. Até porque tenho menos afinidade do que todo mundo do Caleidoscópio. A questão: “De que estória que eu to contando? De que to falando?” Então essa pesquisa vem em primeiro plano. Eu acho fundamental. Pra mim ela tem que correr paralela a isso que me dá mais prazer que é a relação e o personagem. Mas eu tenho mais prazer nessa pesquisa da relação.

Improvisando: Para terminar, o que você visualiza no futuro da Improvisação?. Um boom de espetáculo de Jogos? Um direcionamento para espetáculos long form? Outras pesquisas?

Allan: Bom é muito difícil falar sobre futuro, né? Mas em todos os países que a gente foi, todas as companhias começam com espetáculos de jogos e a partir deles, passaram para espetáculos de long form. Eu acho isso muito importante porque são nesses espetáculos de jogos que você consegue aplicar mais rapidamente os conceitos de escuta, de estar livre de estar em cena, de motor, de plataforma… Neles, você consegue inserir isso dentro de você, eu acho. Para enfim, quando você tiver num long form, isso sair naturalmente, isso aparecer, você não ter que fazer esforço, você não precisar pensar. Ao invés de pensar, você consegue identificar: “Está faltando mais plataforma… Putz, acho que o público está precisando mais de uma imagem… “

Às vezes acontece até o oposto. Depois do espetáculo, que é o que tem acontecido bastante no Caleidoscópio, você diz: “Nossa, hoje a gente foi muito imagético! Nossa hoje a gente ficou muito verbal e não criou muitas imagens!” Que é a escuta coletiva. É o que o Márcio (Ballas) diz, da consciência do grupo, do pensamento do grupo, que é um terceiro, um fator fora.

O que vai acontecer? Tenho a intuição de que ainda vai ter uma explosão bem grande de espetáculos de jogos, cada vez mais. Os Barbixas conseguiram abrir assim essa porta, pela porta da frente. Então surgiram muitos grupos e eu tenho trabalhado com alguns deles. Acho que é interessante que isso se multiplique mesmo, porque isso também apresenta a Improvisação para o público. Por mais que hoje já tenha espetáculos Long Form, ainda não é de conhecimento geral das pessoas a Improvisação, ainda existe muitas pessoas que não conhecem improvisação, existe muitas pessoas que nem sequer conhecem teatro. Não sabem nem o que é teatro, improvisação pior ainda. Então eu acho que é muito legal se acontecer de ter uma explosão de jogos de improvisação, para difundir isso de uma maneira astronômica, para aí então começar o surgimento desses outros espetáculos Long Form. Ainda é tudo muito igual para as pessoas a Improvisação, é muito próximo até de coisas de humor que não são relacionados à Improvisação como stand up ou então stand up de personagens também. As pessoas confundem com Improvisação e é compreensível, porque quem faz stand-up procura trazer o texto para uma naturalidade e a improvisação traz essa naturalidade porque tudo esta sendo criado na hora.

Enfim, acho que quando tiver essa profusão de espetáculos, vai começar a surgir diferentes formatos de long form, e aí o público vai conseguir entender o que é Improvisação e o que é long form. Porque quando o público que vai num espetáculo de jogo chega num long form, às vezes não vai se divertir tanto. Se for num long form tipo Tríptico, por exemplo, que é um espetáculo mais dramático, que é uma densidade de interpretação, que você pode até ao oposto de rir, chorar… O público que vai pra assistir um jogo quer rir e vai sair decepcionado disso!

Então acho que a Improvisação precisa ainda se difundir muito mais, para que as pessoas conheçam melhor, para surgir mais long forms, e quem sabe até surgir outras coisas por aí também.

Seguem dois vídeos: no Improvável e como o palhaço Chabilson no quadro do Jogando no Quintal no Programa Novo, que foi ao ar na TV Cultura entre 8 de setembro e 5 de novembro.